Não existe sentimento que se explique, que se dê dimensão apenas com palavras. Se fosse assim tão fácil não haveria sofrimento; as palavras seriam suficientes para desenrolá-lo. Cada sentimento tem sua validade, se aflorado na medida certa.
O medo entra nessa gama de sentimentos necessários e temidos, e sua existência mantém a gestão da vida. Em certa medida, o medo pode até proteger. Porém, ao ultrapassar sua medida aceitável pode causar sofrimento. O medo pode transformar-se em medo do medo, eis o que significa o pânico. O pânico é o medo desmedido que ataca a capacidade de viver e conviver. É uma espécie de medo da vida e de tudo o que ela implica. Alguém em pânico está doente de medo como alguém apaixonado pode estar doente de amor. O problema, em qualquer dos casos não é o sentimento em si, pois não é possível viver a vida humana sem sentimentos; o problema é sempre a sua desmedida. A paixão pode despertar a mesma intensidade de sentimento (medo, ansiedade, angústia) que um ataque de pânico; a diferença é que o ganho que se tem desse sentimento de paixão é maior, mas não menos assustador.
A vida já causa medo, e mais ainda assumir os próprios desejos. Buscar a felicidade é uma questão de escolha, mas não é uma escolha fácil de se fazer, pois se deve pagar um preço. Assumir o próprio desejo e correr os riscos que isso implica definitivamente é para poucos. Podemos odiar o medo, querer extirpá-lo de nossas vidas, mas nem sempre o fazemos pela via mais simples, porque é muito difícil combater qualquer sentimento. Tentar conviver com ele talvez seja a melhor solução, pois a intensidade a qual tentamos limitá-lo o faz ressurgir mais vivo. Torna-se mais leve quando o aceitamos. É a única chance de se viver em paz.
A cada dia mais concluo que a vida não é para os covardes. Existir sim, viver não.
Rafaela

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