3.31.2009

Somos crioulos do morro

Tenho pouquíssima tolerância a estrangeirismos, sou uma nacionalista besta e deslocada. Adoro a cultura do meu país, adoro nossa língua, nossos costumes. Eu sei que não somos perfeitos, sei que nos falta sofisticação e elegância, talvez um pouco de estudo, mas só dou o direito desse tipo de crítica aos brasileiros, nada de estrangeiros dizendo como somos e como vamos.
Com estrangeiros tenho pouca paciência, com os brasileiros metidos a estrangeiros não sobra um pingo de compreensão. Nada mais pavoroso do que ver um brasileiro se comunicando em outra língua, tentando desesperadamente parecer mais sofisticado do que realmente é. O pior é quando a língua eleita é o inglês, porque achar que ninguém está entendendo é um equívoco bizarro. Aos equivocados eu digo: minhas crianças, inglês é língua universal, até nas escolas de zona rural há professorinha de inglês.
Ou se a pessoa tem a sorte de aprender alguma língua pouco comum se aventura a falar e escrever na tal língua com todos, sem tomar conhecimento que ao invés de impressionar está passando por parvo, por estar falando uma coisa que absolutamente ninguém está compreendendo. Uma palavrinha ou outra vá lá, mas frases inteiras? Ai já é demais.
Eu entendo a influência de outras línguas em nosso idioma, isso é interessante para o enriquecimento dela, mas não compreendo a desvalorização da nossa cultura quando um jovem prefere usar gírias em inglês ao invés de tentar se expressar na sua língua natal.
Não sei se estou sendo careta, ou reacionária. A questão é que um dia desses um ser adepto aos estrangeirismos teve a pachorra de me dizer que o Brasil não tem cultura própria, com alguns minutos de conversa percebi que o infeliz não fazia idéia do que se tratava a palavra cultura, mas mesmo assim me chocou.
Ver um brasileiro se expressando em outra língua pra mim é como ver um negro no apartheid usando linguagem de branco. Vamos tentar valorizar mais a nossa “crioulice”, e parar de se envergonhar dela. Como dizia o mestre Bezerra da Silva: somos crioulos doutor, mas ninguém roubou nada!

Madame Nazaret

(by Diane Arbus)

Madame Nazaret era a segunda mãe das meninas, enchia-as de mimos e carinhos. Sabia conduzir a situação para que elas fizessem o que queria sem nem perceberem. Nazaret tinha o dom raro de fazer tudo parecer mais bonito, mais poético. Ela conduzia os negócios como ninguém. Manejava os desejos dos homens e os medos das garotas, era respeitada por todos e alguns clientes até a chamavam de mãe.
Estipulava leis rígidas em sua casa, tanto para os clientes quanto para as garotas. Ela acreditava que vendia amor, e que o seu casarão se transformava no paraíso duas vezes por ano, quando oferecia festas homéricas.
Madame Nazaret era uma matrona corpulenta, cheirava a maquiagem ordinária. já passava dos 50 anos, mas isso ninguém sabia ao certo, jamais revelava sua idade. Era conhecida pela sua ruidosa gargalhada, que em noites animadas era ouvida à alguns quarteirões do casarão, o que escandalizava as beatas e as senhoras conservadoras em seus respeitáveis lares.
Chamava atenção por sua brancura de nácar, e seu grande peito de soprano era coroado por uma magnólia artificial. Usava sempre vestidos escuros de veludo muito apertado, que contrastavam com os olhos de água quase translúcidos, e os cabelos pretos caídos como um manto da cabeça. Usava brincos pendentes, e um sinal pintado a lápis na face direita.
Ela recebia todo tipo de autoridades locais e há quem diga que até o governador andou freqüentando seu jardim.
Chamava as meninas de passarinhas, pois chegavam assustadas e fugidias, mas logo se emplumavam e soltavam belos cantos. Nazaret se emocionava com o amadurecimento das passarinhas e as impulsionada a alcançar vôos mais altos.
Ela ensinava tudo sobre os homens às meninas, e parecia que ela os conhecia como ninguém. Madame Nazaret as direcionava tanto nas carícias na cama quanto no relacionamento fora dela. Só de bater os olhos em um novo cliente Mandame Nazaret sabia exatamente o que precisava e o direcionava ao ninho da passarinha certa. Nunca errava.
Essa resistência à vida Nazaret aprendeu só a custo dos erros do coração. Quando ainda mocinha entregou-se ao homem errado que aos poucos a ensinou pelo caminho mais árduo e penoso como lidar com as armadilhas do amor.

3.20.2009

Pequeno delito


Que mulher nunca sonhou em entrar em uma loja cara, ir ao provador e colocar aquela blusinha incrível dentro da bolsa? Ou surrupiar aquela presilha de cabelo da loja entulhada de gente? Quem nunca quis enfiar na bolsa aquela barra de chocolates finos da biscoiteria? Quem nunca planejou sair do restaurante sem pagar? Ou passar despercebido pelo guichê do estacionamento?
Querer levar vantagem sobre os outros é genuíno da nossa espécie!
Há pouco tempo estive com uma velha amiga e ela me disse que deu um prejú de R$700,00 a uma grande loja de departamentos. Ela me explicou seu método passo-a-passo, ela entrava na loja, escolhia as roupas que não tinham aquele botão de segurança, e enfiava na bolsa. Depois pegava algumas outras e ia no trocador, lá ela ajeitava as roupas dentro da bolsa, conferia se não tinham botão e saía da loja como se nada tivesse acontecido. Ela me mostrou seus troféus um por um dizendo o preço que não pagou. Aposto que ela não decoraria se tivesse pagado.
Eu jamais teria coragem de fazer tal coisa, sou do tipo que não colava no colégio porque ficava nervosa demais pra abrir o papelzinho. Mas essa semana fui comprar umas coisinhas pra mim. Entrei numa loja de roupa conhecida na cidade, e fiquei zanzando igual uma palhaça e ninguém veio me atender. Não tem nada que me irrite mais do que falta de educação, ou ser ignorada por atendente nojentinha. Lembrando de minha amiga dizendo: “Mas a coisa mais fácil é entrar em uma loja dessas que o atendimento é péssimo, pegar uma peça e ir pro trocador e por na bolsa.” Peguei, então, a roupa que me interessou e fui pro trocador. Quando cheguei lá pensei “vou vestir e se ficar bom meto-a dentro da bolsa e saio, e ainda faço cara de desdém, do tipo ‘nada aqui serve pra mim’”. Mas na hora que eu estava no trocador a roupa ficou tão horrível que eu não quis ter o trabalho de roubá-la. Saí da loja decepcionada e envergonhada achando que todo mundo sabia o que eu planejava. Sou tão fiasco como ladra que fracasso até sem roubar nada.

Keith Maria


Keith Maria foi abandonada pelo noivo no altar. O noivo não compareceu ao casamento, apenas mandou um recado pelo irmão dizendo que mudou de idéia. Só isso. Keith foi pra casa, não quis falar com ninguém, não quis receber condolências de ninguém, a única coisa que ela quis consigo foi o bolo de três andares recheados com pasta de ameixa e doce de leite com coco e cobertura ornamentada com o melhor chantilly extra cremoso.
Keith Maria já no taxi, ainda vestida de noiva, começou a desenvolver este precioso raciocínio:
Minha mãe me avisou! ‘Não case com esse cara que usa boné, homens que usam boné não prestam! ’ Faz sentido, boné é coisa de criança ou homem careca, se o cara não é uma coisa nem outra só pode significar infância tardia. E nada pior do que homem com síndrome de Peter Pan, aquele tipo eterno crianção.
Sabe o que é pior de ter relacionamento amoroso? É ter que mentir. Eu menti do começo ao fim; disse que ele não irá ficar calvo, que o pênis dele não era tão torto assim, ‘Não querido, seu pênis não é de gancho’. Que gostava do sexo oral dele. Que era virgem quando o conheci. Se eu for por inferno por mentir, a culpa vai ser dele! Sobre o lance da virgindade, bem... Quer dizer, teve o Marcos, mas ele não conta porque tinha o pirú pequeno. Enfim, a questão é que eu menti mais que viúva de padre!
E sabe do que eu mais me arrependo? Não ter mandado aquela porca da minha sogra ir à merda. Ela ficou lá na igreja com um sorrisinho no rosto. Cretina! Por culpa dela emagreci 5 kg nos últimos meses. Ela me entupia de mamão com aveia e todo tipo de laxante natural, dizia que mulher que não caga bem não tem saúde pra ter filhos. Quem disse que eu quero ter filhos? Velha ordinária!
Eu sabia da personalidade instável dele, sabia que ele possuía os dois defeitos clássicos masculinos: alcoolismo e infidelidade. Sabia que ele não tinha o costume de lavar suas próprias cuecas, e isso pra mim é falha de caráter. Sabia do gosto duvidoso por filmes de ação e gomas de mascar. Sabia que ele gozava rápido demais. E pra fechar tinha o péssimo hábito de suar o nariz em público, inclusive em restaurantes! Bem, não posso dizer que fui enganada, e sim que me enganei.”
Depois de passar e repassar todos os erros e arrependimentos de sua relação Keith Maria se atirou sobre o belíssimo bolo de seu casamento e o fez desaparecer em menos 20 minutos.

Conceição

Depois de uma paixão, assolapada e imbecil, uma mulher, quando finalmente deixa de gostar de um homem, passa por várias fases. Há a fase da surpresa. Há a fase do alívio. Há a fase do nojo. Há, por fim, a fase do vazio.
Com Dr. Juarez dos recursos humanos, foram 6 meses de intensa desordem emocional e uma dezena de meias-calças rasgadas nos pregos protuberantes da mesa do escritório. Depois dos 6 meses e alguns telefonemas desesperados de ameaça ao casamento sólido e tedioso do Dr. Juarez, Maria Conceição está finalmente consciente e feliz em sua própria pele, e com o fim de seu caso sem futuro. Um belo dia Conceição banhada de suor, sentada na recepção, coroada por um ventilador de pás empoeiradas que rodava ritmicamente ressoando um ranger hipnotizante, levanta o olhar e diante da porta entreaberta vê Dr. Juarez almoçando um hambúrguer com fritas e coca média em sua mesa de escritório. Ele tenta abrir o catchup com os caninos em vão, experimenta então os pré-molares, também fracassa, e quando finalmente consegue um minúsculo buraco a pressão excessiva feita pelos dedos gordinhos sobre o saquinho o faz esguichar e sujar toda a camisa. Maria da Conceição percebeu, nesse preciso instante, que, relativo ao seu chefe, apesar de tudo o que acontecera, apesar de tudo o que estava para vir, não seria capaz de passar pela fase do nojo. Pois referente àquela criatura a sua frente a única coisa que conseguiria sentir é piedade.