9.26.2008

Meu cabelo entre os dedos, a tesoura em outra mão.

Acordo, cansada, o corpo teima em permanecer deitado, reluto. Levanto meu tronco, e procuro os chinelos, caminhando lentamente me acostumando com o ar frio tocando a pele, entrando pelo nariz, invadindo meu corpo. Meu estômago revira e reclama a falta de comida. Os braços pesam... Caminho em direção ao banheiro. A porta. Jogo-me no acento do sanitário, como quem entrega o corpo a uma boca aberta, aguardo. Entrego-me...
Oiço o ronco da cama, é ele a se revirar entre os lençóis. E penso na noite anterior; o telefonema, o bar, a música, o convite, o sexo. Meu corpo adormecido por baixo do seu, as pernas moles, e a dormência, a semiconsciência. Percebo enfim como é ser mulher, ao sentir meu corpo como fim em si mesmo, como um material a ser carregado e cuidado para propiciar prazer ao corpo do outro. E minha mente enclausurada que habita esse ‘corpo-pele’ busca lucidez. É nessa hora que me lembro dos dizeres de minha avó: “Raríssimas mulheres sentem prazer, filha. O homem, sim. Então a mulher precisa fingir um pouco, o que não tem essa importância que parece. Temos que cumprir nossas tarefas, o resto é supérfluo. Se houver prazer, melhor, mas e se não houver? Ora, ninguém vai morrer por isso.”
Levanto e olho no espelho. Procuro meu rosto no reflexo, e percebo como deixei de parecer comigo. Decido que preciso de um corte novo nos cabelos, abro a primeira gaveta e pego a tesoura. Meu cabelo entre os dedos, a tesoura em outra mão. Corto minha franja e ela sai um pouco torta. Olho-me. Toda a vida menosprezei os conselhos de minha avó, com misto de pena e desdém, mas agora percebo como é melhor ser uma deusa morta do que uma mulher viva.

9.19.2008

eu Nunca quis. mas parece ser Mais forte que eu

Busquei por toda parte em mim uma forma de fugir do óbvio, mas às vezes o inevitável é tão potente que nos enlaça puxando-nos para o fatal. Segurei o choro, segurei a fala, segurei meu corpo na esperança de não reagir, fechei os olhos com força e prendi a respiração, esperando passar, mas foi mais forte que eu. Eu não consegui, e admitir um fracasso é mais doloroso que continuar suportando.
O que é justiça? Onde se encontra esse safado de destino que tem o humor mais negro que eu já vi? Eu tentei resistir até o último momento, mas as vozes na minha cabeça não se calaram. Meu corpo padece quando minha mente entra em conflito. Minha mente padece quando meu impulso subverte meu desejo. E eu expio meus pecados constante e dolorosamente. Cá estou eu desesperada agonizante, dentro de mim mesma, lutando para destruir a casca inabalável que criei. Olha pra mim. Onde foi que eu cheguei?

9.03.2008

Muitas saudades de escrever no blog, mas não encontro tempo.

Os dias vêm e vão e eu sinto que não me freqüento mais, estou precisando passear por mim, me perder em meus caminhos e reencontrar meus personagens para conversar, aposto que eles também sentem saudade de mim. Mas enquanto persigo meu coelho que me leva a lugares inóspitos e sombrios - ao contrário do coelho de Alice -, vou seguindo o sábio conselho de minha amiga "Aconteça o que acontecer... Continue respirando" ...

9.01.2008

Living in a ghost world...

Acabei de assistir a esse filme e não hesitei em guardá-lo no blog. Malditos escritores (principalmente os de quadrinhos) que compreendem tão bem o universo dos excluídos, não consegui me manter imune.