5.29.2008

Você sabe como é ser uma garota?

Aposto que você daria tudo pra saber.
Como é ter a pele macia
os cabelos compridos
o corpo curvilíneo.

Como é tentar parecer forte nesse mundo,
sem perder a delicadeza.
Ser cobrada, tolhida
e demonstrar graça e beleza.

Ter vontade de agir desordenadamente
mas ter que seguir regras,
Ser feminina
ser fêmea,
vc quer saber?

Como é amar um homem,
como é sentir os dedos dele entre os cabelos
sentir o coração disparar
a vulva umedecer
as pernas relaxarem

Os perfumes
As unhas
A bolsa
Querer ser algo além

Você nunca vai saber o que sente uma garota

5.26.2008

José Saramago assiste pela primeira vez Blindness.





Estou contando os segundos pra ver esse filme. Principalmente depois que eu vi a reação do Saramago.
Confesso que me emocionei e tive vontade de beija-lo como fez Fernando Meirelles.

Você se acha chata?

(Detesto me definir, mas não resisti a responder essa pergunta.)
Muitas vezes. Sou cheia de manias. Tenho carências insolúveis. Sou teimosa. Reclamo de tudo. Critico tudo. Não gosto de queijo. Tenho normalmente reações fora do comum, isso deixa as pessoas um pouco constrangidas. Às vezes calma de mais, às vezes nervosa de mais. Não gosto que mexam nas minhas coisas. Sou egoísta. Detesto que toquem minha orelha, adoro tocar a orelha dos outros. Não imploro afeto. Não sou indiscreta nas minhas relações. Tenho poucos amigos, porque acho mais inteligente ser seletivo a respeito daqueles que você escolhe para contar seus segredos.
Então, se sou chata, não incomodo ninguém que não queira se incomodado. Chateio só aqueles que querem ser incomodados, por isso me querem ao seu lado. Acho sim, que, ás vezes, dou trabalho. Mas é como ter um Rolls Royce, se você não quiser ter que pagar o preço da manutenção, mude para um Passat.

5.21.2008

Manhã de domingo

Na manhã de hoje Carlos Campos demorou um pouco mais a abrir os olhos, depois de certa idade os olhos se tornam pesados, a pele se aglomera sobre as pálpebras. O peso recai sobre o velho escritor somado ao sono. O corpo cansado levanta lentamente, passando as mãos pelo rosto ele tenta afastar os sonhos.
Hoje Carlos completa 83 anos, mas a importância dessa data incidi sobre seus ombros através de uma carta roxa recebida há uma semana. Com uma bela letra caligrafada, o nome Paola, seu coração maduro pára, era o convite de casamento dela.
Após o desjejum matinal, o escritor senta-se à sua mesa de escritório, lugar onde executou os maiores trabalhos de sua vida. Carrega consigo a carta roxa que lhe pesa o coração e lhe trás recordações do passado, ele vê a sua frente sorrisos, lágrimas, brincadeiras, bebidas, cata-ventos, uma garotinha de olhos grandes, magra e sorridente.
Escritor que obteve grande sucesso, mas há muito tempo entrou em franca decadência. Mesmo recebendo suporte de seus amigos jornalistas em colunas eventuais, Carlos percebe sem assumir, que é hoje apenas uma sombra do que foi há 20 anos, é como se uma maldição tivesse esvaído todo seu talento literário. Hoje se senta à mesa para escrever a carta mais difícil de sua vida.
Ele não se orgulha do que fez, mas sabe que optou pelo melhor para todos ao abandonar a mãe de Paola. Ele sabia em seu íntimo que não iria trazer felicidade ás duas, ele sabia que sua esposa mais cedo ou mais tarde iria descobrir a filha ilegítima, e para proteger a mãe e a bela garotinha que ele guarda em sua lembrança teve que deixar-las ir.
Pedir desculpas? Justificar que não iria ao casamento por doença? O que dizer a pequena Paola que agora é mulher feita? Ele sabia que desejava o melhor, o sorriso mais gostoso que ela pudesse dar, mesmo que ele nunca tivesse perto pra ouvir, mesmo que há muito tempo não ouvisse sequer a voz dela.
Ele nunca se explicou, nunca facilitou para ela compreender sua ausência, e agora ela lhe dá esse presente, um convite de casamento.
Sentado há frente de seu computador, ao olhar para a tela em branco, o escritor se deu conta que não tinha mais nada a dizer. O que não foi dito o silêncio se encarregaria de dizer. Pois depois de tantos anos o que restava de sua paternidade? Ele não se sentia no direito de participar dessa celebração, ele não cometeria a imprudência de comparecer. Covardia? E para se punir, ou se abster, ele se omite mais uma vez. Não responde ao convite. Se cala e chora.

5.19.2008

Beethoven: String Quartet, Op.135 (4° movimento)



(se eu fosse música eu seria sem dúvida essa)

0,5 ml de lágrimas

Ouvindo Nina Simone,
Meu pensamento vagueia.
Quero acender um cigarro,
pensando bem
não vale tanto a pena.
Penso nos livros para ler,
nos livros que nuca li,
muitas páginas em branco.

Deito na cama
e me encolho
o máximo que posso,
meu joelho tocar meu peito,
e se eu ficar bem quieta escuto meu coração,
escuto o que ele diz.
Um silêncio muito grande se instalou.

Da janela pra fora chove,
o mundo chove.
E o ruído da TV se confunde com a chuva,
mudar de canal ou ir fazer chá?

Olho o telefone, nenhuma ligação.
Às vezes o escuto tocando
é só minha imaginação.
Será que alguém vem me salvar?
Nem o telefone nem a porta.
Espero.
Escolho o chá.

Deito na cama,
aperto a almofada contra o peito
enquanto tomo chá quente
meu peito se aquece
como há muito não se aquecia.
Duas lágrimas escorrem,
apenas 2 lágrimas,
0,5 ml de lágrima,
e nada mais.

5.17.2008

Ensaio da Rafaela sobre a cegueira.


Ontem fui a um show, repleto de jovens universitários. Pessoas bonitas que se divertem, pessoas que têm a vida toda pela frente, pessoas com sonhos e desejos. O típico ambiente que aparece nos comerciais de refrigerante.
Pois bem... Eu estava em um estado estranho, quase em transe, e fiquei observando essas pessoas e notei a tristeza que emana delas. Como os jovens são tristes!
Em um determinado momento vi um casal se beijando, tão paixonadamente que não consegui tirar os olhos, era um beijo lânguido, curtido, gostoso. Eu logo imaginei que se tratava de namorados, e uma paixão ardente, quase táctil. Mas ao final do beijo o rapaz ficou de frente pra mim me olhando fixamente, fiquei constrangida, depois o casal se despediu como velhos conhecidos e cada um foi para um lado, como se o que era verdadeiramente importante já houvesse acontecido e não restava mais nada. Achei estranho...
Vi várias outras cenas parecidas com essa, casais bonitos que se separavam com muita displicência, me fez me sentir mal.
Vi essa mesma tristeza nos olhos das pessoas que estavam comigo, percebi que a maioria estava fingindo que estava bem, que estava se divertindo. Percebi a angustia que em alguns foge pelos olhos. É a mentira que o álcool facilita, mas o olhar revela.
Esses casais que se beijam e buscam o melhor em estar com alguém em um curto espaço de tempo. O que eles temem? Como se passasse daquilo já não valesse a pena, que olhar no olho da pessoa que você beijou fosse perigoso. Medo de se apaixonar? Medo de se envolver?
Pobres pessoas que se enganam e perdem o melhor da vida. Tenho uma mistura de pena e medo da cegueira das pessoas.

5.08.2008

Período menstrual

Como qualquer mulher eu odeio menstruar. Quem nunca se constrangeu ao ter sua intimidade revelada quando o absorvente não dá conta do fluxo? Nada mais embaraçoso.
Ter que usar absorventes, que eu tenho pra mim foram projetados por homens, principalmente aqueles que afinam no final, não existe nada mais desconfortável.
Mas esse mês é diferente. Minha menstruação chegou segunda-feira por volta do meio dia. Ela chegou para me limpar.
A menstruação pra mim sempre simbolizou renovação, é o período do mês em que nós mulheres trocamos de fase, como a lua. Todo o preparativo vital para gerar vida é criado dentro de nós, nos preparamos para receber o melhor, o mais abençoado. Mas se por ventura não somos fecundadas, essa forca vital deve ser renovada, e todo o sangue que cria e mantém, é colocado para fora já morto.
Meu corpo conversa comigo, e eu o compreendo muito bem. Minha menstruação está retirando o que não foi fecundado em mim, e assim que ela acabar na próxima segunda eu sei que estarei renovada, pronta para gerar vida novamente. Até lá participo dessa tarefa corporal de retirar o velho e aguardar o novo.
E quem sabe um dia meu calor vital seja correspondido e eu gere vida! Quem sabe um dia...

5.07.2008

Milágrimas



(grupo Orquídeas do Brasil, interpretando uma música de Itamar Assumpção, letra a baixo para cantar junto!)

Em caso de dor, ponha gelo
Mude o corte do cabelo
Mude como modelo
Vá ao cinema, dê um sorriso
Ainda que amarelo
Esqueça seu cotovelo

Se amargo for já ter sido
Troque já este vestido
Troque o padrão do tecido
Saia do sério, deixe os critérios
Siga todos os sentidos
Faça fazer sentido

A cada milágrimas sai um milagre

Em caso de tristeza vire a mesa
Coma só a sobremesa
Coma somente a cereja
Jogue para cima, faça cena
Cante as rimas de um poema
Sofra apenas, viva apenas

Sendo só fissura, ou loucura
Quem sabe casando cura
Ninguém sabe o que procura
Faça uma novena, reze um terço
Caia fora do contexto, invente seu endereço

A cada milágrimas sai um milagre

Mas se apesar de banal
Chorar for inevitável
Sinta o gosto do sal
Sinta o gosto do sal
Gota a gota, uma a uma
Duas, três, dez, cem mil lágrimas, sinta o milagre
A cada milágrimas sai um milagre

5.05.2008

Cobaias de Deus

Hoje alguém me disse que queria uma chance.
Eu pensei, eu também quero muitas coisas. Quero um sapato novo, quero um cigarro, quero meus amigos, quero paz, quero ser amada.
Às vezes a gente não tem tudo que deseja.