9.30.2007

Rafaelinha

Entediava-me com as amigas do colégio, e tinha pouca paciência para as da rua. O que me entretinha eram os livros, passava horas a fio com a cabeça enfiada neles. Assim que chegava do colégio sossegava a fome e corria para a biblioteca. A biblioteca que me refiro, era a que ficava dentro da oficina/casa do tio Levy, homem alto, barbudo, moreno, passava-se perfeitamente por um terrorista iraquiano, morava em um quartinho imundo, minúsculo, com prateleiras enferrujadas, e abarrotadas de livros de todo tipo, desde os espíritas aos clássicos da literatura. Lá eu tive acesso ao mundo mágico das letras que me transportava a qualquer lugar. Eu lia livros sobre garotas da minha idade, vikins, história geral, geografia, romances, contos, em fim, não tinha limite à variedade e minha paixão por eles. A biblioteca do tio Levy tinha cheiro de coisa velha, misturado com os cheiros peculiares da sua relojoaria, sim, meu tio era relojoeiro, essa clássica profissão quase tão respeitável quanto os chaveiros, até hoje quando entro em uma oficina que cheira a coisa velha meu coração fica apertadinho de saudade. Era com certeza muito mais agradável ler em sua relojoaria do que brincar com as gêmeas, as Dadá.

9.05.2007

Seu Peixe



Meu peixe, o Zuiudo, se suicidou quando eu tinha 10 anos. Ele se jogou de onde morava (um pote de vidro) direto na minha gaveta de roupas. Foi chocante pra mim, quando em um gesto corriqueiro abri a gaveta para pegar uma muda de roupa e me deparei com o cadáver do peixe.
Imaginei-o pegando impulso, pulando pela boca do pote e caindo inevitavelmente na minha gaveta, que para tristeza da minha mãe, sempre estava aberta. Fiquei imaginando por quanto tempo ele ficou se debatendo em cima das minhas roupas, tentando desesperadamente sobreviver.
Durante muito tempo tive a certeza de que a sua morte foi culpa minha. Analisei a situação e percebi a sua monótona vida: morava em um pote de vidro, demasiado pequeno para ele, sem outros peixes para conviver, sem outros objetos para interagir. Não é de se estranhar que ele cometesse suicídio. Eu matei meu peixe de tédio!
Achava que por não ter proporcionado a ele uma vida mais confortável e feliz ele resolveu se matar, o pobre peixe vivia abandonado em cima da cômoda, com a mesma paisagem distorcida para olhar, o pouco espaço sufocante. E eu o alimentava inocentemente sem perceber o quanto ele sofria. Como somos mesquinhos com o sofrimento dos outros.
Hoje depois de crescida percebo que a morte do Zuiudo não foi minha culpa, por não estar em um aquário devidamente estruturado o coitado ficou sem ar, e não teve outra solução a não ser se aventurar fora do pote, e explorar esse mundo misterioso do ‘lado de fora’, infelizmente não teve sorte. Pobre Zuiudo, que Deus o tenha em bom lugar, pelo menos melhor do que o que eu o deixei.
Amém

Notícia

Hoje tive a lamentável noticia: de acordo coma igreja católica, o limbo não existe mais. Depois de uma breve confusão mental, eu me perguntei: então pra onde eu vou? Já que com meu pouco entendimento sobre essa cultura católica me dizia que o limbo era destinado aos não batizados. Sendo assim eu decidi fazer como o Raul Seixas: “já que o céu está cheio, eu vou levar um lero com o diabo, antes que o inferno fique cheio também”. Ou antes que a igreja resolva acabar com mais alguma coisa.
Sei lá, esse novo papa parece com o Hannibal, não dá pra confiar em um papa que parece com um psicopata ficcional.

Cinderela compulsiva desequilibrada.



Na Terra Encantada do Reino do Orkut moravam várias princesas, que não obstante se enchiam de roupas, e jóias, e poses, e caras, para parecerem mais bonitas na foto. Mostravam os lugares mais legais que estiveram como dote!!! Posavam às vezes todas juntas às vezes separadas, mas sempre na melhor pose. Tudo em busca do príncipe encantado, mas é difícil se livrar dos sapos!!!
No Reino Encantado do Orkut as pessoas são felizes e sorridentes, tem muitos amigos, e muito carinho... No Reino Encantado do Orkut as pessoas são importantes umas pras outras, se gostam, dão demonstrações públicas de carinho, escrevem grandes declarações de amor... Mas só no Reino Encantado do Orkut.
Lá tudo é azul cor do céu!! Lá você pode ser quem quiser!! Lá não tem tristeza nem choro, só um pouco de saudade às vezes, saudade que cura com umas poucas palavras!!! No Reino Encantado do Orkut todo mundo é amigo de todo mundo, sem preconceito, sem diferença de classes. Lá as pessoas conversam e se dão bem... Lá todo mundo é feliz.
Mas só na Terra Encantada do Reino do Orkut.