7.19.2009

Recruta Zero


A morte coreografada


Vimos um espetáculo de dança, música, pirotécnico, patético, televisivo, mesclado com atuações risíveis de dor e comoção. Vários negros com luvas brancas, figurinos meticulosamente calculados dizendo falas elaboradas e vazias, usando o que sobrou do difunto para se promoverem, como faziam com a criatura viva. A única parte realmente comovente foi ver a filha do morto se mostrando pela primeira vez, em prantos, tentando desesperadamente limpar a imagem do pai falecido, o qual a pouco tempo era considerado um pedófilo excêntrico e agora encarnou post mortem a figura do gênio incompreendido. E atrás um bando de urubus com cara de pesar tentando se mostrar condolentes e atenciosos coma pobre menina desfigurada.Show de horrores que durou intermenáveis duas semanas e que ainda pipoca na Tv cada vez com menos intensidade.Enquanto isso o pobre difunto sem nariz ou com nariz, preto ou braco, se mantém embalsamado em alguma cripta esperando o derradeiro descanço final, que só virá quando os urubus acabarem de comer o último pedaço de carne decrepta.Que deus o tenha.

Confissão


Eu sou a reencarnação da Simone Beauvoir!
Pronto!
Contei...

Penso em você Erêndira

_ Você se atreveria a mata-lá?
Tomado de supresa, Ulisses não soube o que responder.
_Talvez – disse – Você se atreve?
_Eu não posso – disse Erêndira - , é minha avó.
Então Ulisses examinou outra vez o enorme corpo adormecido, como que medindo sua quantidade de vida, e decidiu:
_Por você sou capaz de tudo.

(G. Garcia Marques)

Também me apaixonei por Erêndira.

7.06.2009

Domingo de macho

Luis Augusto é filho único de mãe traída. Nasceu e cresceu na casa de tias solteironas, que o fizeram desde cedo compreender o lugar (privilegiado) do macho dentro da família. Não demorou muito, Luis Augusto compreendeu o lugar do macho no mundo, e as dificuldades para manter essa posição. Este intrépido exemplar masculino começou logo a beber, e freqüentar lugares de baixo escalão. Saía com prostitutas e se gabava de ter o mais potente e comprido membro sexual. Lógico que essas afirmações eram apenas suposições, pois no seu íntimo Luis Augusto sentia-se inseguro sobre seu pênis, evitava ficar ao lado de outro homem no mictório, mas se fosse inevitável, esticava o pescoço e espiava para uma possível comparação. Mas o que mais incomodava ao impávido Augusto era a tortuosa envergadura de seu membro ereto, e para não correr o risco de ser desmascarado por alguma puta ressentida sempre se precavia apagando a luz na hora do sexo, e afirmava em rodas de amigos “gosto de luz apagada para poder pensar na bunda que quiser”.
A idade bateu a porta, e o tempo dentro de sua insipidez e escárnio fez nosso herói perceber a crueza da vida solitária. Luis Augusto realizou, por tanto, uma busca a esposa perfeita e depois de experimentar todos os tipos de mulheres que se achava no direito se casou com a que aparentava menos ameaça a sua virilidade fugaz.
Hoje o destemido Luís Augusto passa as tardes de domingo realizando a trindade masculina - sexo, futebol e cerveja - da forma mais pungente e indigna que sua falta de amor próprio propicia.

Atestado de Pobreza

O Atestado ou Declaração de pobreza é um documento usado para comprovar que uma pessoa não tem condições de pagar os custos exigidos para ter acesso a alguns serviços como: assessoria jurídica e segunda via do RG, entre outros. Não é necessário apresentar nenhum documento junto com a Declaração de Pobreza.Garantir que as informações presentes na Declaração são verdadeiras é responsabilidade do declarante.


Ou seja, a única coisa nesse país que você não precisa passar pela burocracia pra provar é que é pobre. Deve ser porque isso é óbvio já que somos brasileiros!


DECLARAÇÃO DE POBREZA

Eu, ___________________ (nome), RG ______________(nº do RG) DECLARO, nos termos da Lei nº 7.115, de 29 de agosto de 1983 e, para os devidos fins, de que sou pobre na acepção jurídica do termo, não dispondo de condições econômicas para custear ___________(nome do serviço solicitado), sem sacrifício do sustento meu e de minha família.
Por ser a expressão da verdade, assumindo inteira responsabilidade pelas declarações acima sob as penas da lei, assino a presente declaração para que produza seus efeitos legais.

São Paulo, ____, de _____________ de 200__.

__________________________________

(assinatura)

A Loira do ônibus I

Há alguns dias atrás estava no ponto de ônibus da Faculdade, quando vejo apontar na esquina o 525 cantando pneus, que parou no meio fio com uma manobra certeira. Eu e o rapaz que estava ao meu lado nos entreolhamos com uma mistura de susto e admiração. Em uma fração de segundo desce o motorista indignado com o celular na mão, gritando aos quatro ventos todo tipo de impropérios que devidamente censurados se resumiriam em: “não vou mais dirigir esse carro, ele está estragado e não vou ficar mais concertando!”.
No banco da frente estava uma senhora que me chamou atenção, ela ia pelos seus 50 anos de idade. Cabelos loiros na altura do ombro, ralos, e quebradiços. Estava vestida de calça jeans apertada, blusa estampada justa, muita bijuteria barata, e sandália amarela de salto médio. Percebia-se nitidamente que havia se arrumado além da conta.
Ela observava o motorista com olhar de pesar, e ficava pedindo ao trocador para ir conversar com ele, mas o trocador mal dava atenção para suas lamentações. Em dado momento ela chamou pelo nome do motorista e não sendo atendida fez um beicinho e ensaiou um choro infantil que também não surtiu efeito algum.
O tumulto se estendeu. O motorista ficou andando para todo lado gritando ao telefone; o trocador parado, olhando, tentando não se envolver; e a mulher loira tentando chamar atenção hora do motorista, hora do trocador, sempre sem sucesso.

A Loira do ônibus II

Em um dado momento escutei a loira falando ao trocador “É por isso que eu sumo, cara. Ele não te falou que eu sumi? Então, ele fica assim e me dá porrada na cara. Ai não dá. Ele puxa meu cabelo e me dá tapa na cara. Quando ele fica assim eu sumo mesmo, se não apanho.” Não pude deixar de notar que ela falava isso com um certo orgulho. Eu que estava do lado de fora do ônibus ouvi nitidamente, mas o trocador que estava dentro não soltou nenhum pio.
Finalmente todos entraram no ônibus e o trocador fez sinal que já iriam partir. Indo contra todos meus instintos de sobrevivência, entrei no ônibus. Ela se sentou ao lado do motorista e eu sentei-me do outro. Lógico! Fui ouvindo enquanto ela destilava seu monólogo com as perninhas cruzadas e as mãos entrelaçadas no colo, muito elegante.
A Loira dizia que havia feito uma operação de implante dentário e que teve de vender suas jóias; ela dizia “jóias a gente não precisa, mas dente na boca é importante”. Ela prosseguiu dizendo que ficou um mês em casa e que estava precisando sair, por isso pegou aquele ônibus com ele (o motorista). Em certos momentos ela completava “não posso falar muito, minha boca ainda está doendo”, mas mal terminava a frase e já ementava outro assunto, e o motorista nem se dava ao trabalho de responder, e nem mandar ela se calar. E ela ia contando sobre a operação e o quanto tava doendo, e nunca se calava. Nunca se calava.
Não fui capaz de recriminar a Loira, pelo contrário senti uma intensa simpatia por ela. Desci do ônibus e ela já havia desistido de chamar atenção do motorista. Tive que me controlar pra não me despedir dela com um abraço.

Horóscopo


Meu horóscopo hoje me deu uma boa lição de como me relacionar com as pessoas:

"Eis que a Lua torna-se cheia, formando uma oposição ao Sol, no eixo 1/7 do seu mapa astrológico, entre os dias 05/07 (Ontem) e 07/07, Rafaela. Estes serão dias delicados, onde a palavra-chave é ajuste dos relacionamentos: quem sou eu e quem é o outro? Até que ponto eu vejo o outro como outra pessoa, até que ponto perco a objetividade e o vejo como um espelho de mim? Todos nós tendemos a projetar coisas de nossas almas sobre as outras pessoas, em maior ou menor grau, e em alguns momentos específicos. Convém, Rafaela, neste momento, você avaliar melhor se aquilo que você tanto critica ou elogia em seu próximo está realmente no outro ou se é algo seu que se encontra projetado. Este pode ser um maravilhoso momento de complementaridade, em que surge alguém com as peças que faltavam para você montar um quebra-cabeças, mas pode também ser um momento de confronto, em que dolorosamente alguém lhe enfia o dedo na ferida."

7.03.2009

Pina Bausch est morte.


Fiquei infinitamente mais tocada pela morte da Pina Bausch do que pela do Michel Jackson. Nada contra o dito Rei do Pop, mas suas contribuições para música para mim são mais do que duvidosas.
Há certas mortes que vêem para acolher, encerrar, mas outras, como é o caso da Pina Bausch, soam como uma grande perda.
Na minha humilde opinião foi um prejuízo para os apreciadores da fina Arte.