7.06.2009

A Loira do ônibus II

Em um dado momento escutei a loira falando ao trocador “É por isso que eu sumo, cara. Ele não te falou que eu sumi? Então, ele fica assim e me dá porrada na cara. Ai não dá. Ele puxa meu cabelo e me dá tapa na cara. Quando ele fica assim eu sumo mesmo, se não apanho.” Não pude deixar de notar que ela falava isso com um certo orgulho. Eu que estava do lado de fora do ônibus ouvi nitidamente, mas o trocador que estava dentro não soltou nenhum pio.
Finalmente todos entraram no ônibus e o trocador fez sinal que já iriam partir. Indo contra todos meus instintos de sobrevivência, entrei no ônibus. Ela se sentou ao lado do motorista e eu sentei-me do outro. Lógico! Fui ouvindo enquanto ela destilava seu monólogo com as perninhas cruzadas e as mãos entrelaçadas no colo, muito elegante.
A Loira dizia que havia feito uma operação de implante dentário e que teve de vender suas jóias; ela dizia “jóias a gente não precisa, mas dente na boca é importante”. Ela prosseguiu dizendo que ficou um mês em casa e que estava precisando sair, por isso pegou aquele ônibus com ele (o motorista). Em certos momentos ela completava “não posso falar muito, minha boca ainda está doendo”, mas mal terminava a frase e já ementava outro assunto, e o motorista nem se dava ao trabalho de responder, e nem mandar ela se calar. E ela ia contando sobre a operação e o quanto tava doendo, e nunca se calava. Nunca se calava.
Não fui capaz de recriminar a Loira, pelo contrário senti uma intensa simpatia por ela. Desci do ônibus e ela já havia desistido de chamar atenção do motorista. Tive que me controlar pra não me despedir dela com um abraço.

No comments: