7.10.2010

Coleção de desejos

“Procura-se mulher fálica, autoritária e dominadora, para relacionamento desgastante e doloroso.”

“Procura-se homem com poucas manias, poucos desejos, poucas esperanças, e muitas fantasias.”

“Procura-se pessoa carente, triste e desiludida para exploração emocional.”

“Procura-se homem mais velho, para amizade ou paternidade.”

“Procura-se um milhão de metros quadrados de conforto e comodidade.”

“Procura-se pessoa bissexual para aventuras irresponsáveis, para fins de mascarar o sofrimento.”

“Procura-se roupa que quando sobre a pele modifique o interior.”

“Procura-se o batom vermelho perfeito que impeça o envelhecimento e a morte.”

“Procura-se alguma coisa pra sempre, e uma pessoa que nunca erre.”

“Procura-se o livro de regras do jogo da vida.”

7.02.2010

V

Ela o observava dormindo. Ele deitado, grande e peludo distribuído pela cama entre braços pernas e pêlos caídos pelo colchão. Ela escutava sua respiração difícil. O ronco de sua garganta que saía como um grunhido. Parecia tão feio, tão frágil, ali parado sem vida. Era até difícil entender o que a fascinava tanto, o que o fazia ser tão especial pra ela mesmo depois das traições assumidas, depois das brigas, das cobranças imbecis. Aquele homem deitado não era nem parte do homem que ela se apaixonou um dia. Aquele homem que grunhia e sonhava não era o que ela merecia, não dessa forma, não desse jeito meio morto meio vivo. E só assim com ele parado, imóvel, irreconhecível, ela teria coragem de fazer o que planejava há algum tempo.
Ela se perguntava o que ele estava sonhando. Com quais mulheres? Quais princesas? Quais mundos maravilhosos? Será que ele sentia o que estava prestes a acontecer? Com as luzes do pequeno apartamento apagadas, a luz da lua entrando pela janela conduzindo o caminho até a cozinha. No fogão o azeite fervia em uma leiteira velha. Aquele líquido dourado, belo, e vivo... Borbulhando.
Ela desliga o fogão. Caminha pelo quarto sorrateiramente, segurando em suas mãos o pano de prato bordado pela sua tia que protegia seus dedos do calor da leiteira. Ela para ao lado da cama, fica nessa posição por um longo tempo. Até que olha para o ouvido dele.