Entediava-me com as amigas do colégio, e tinha pouca paciência para as da rua. O que me entretinha eram os livros, passava horas a fio com a cabeça enfiada neles. Assim que chegava do colégio sossegava a fome e corria para a biblioteca. A biblioteca que me refiro, era a que ficava dentro da oficina/casa do tio Levy, homem alto, barbudo, moreno, passava-se perfeitamente por um terrorista iraquiano, morava em um quartinho imundo, minúsculo, com prateleiras enferrujadas, e abarrotadas de livros de todo tipo, desde os espíritas aos clássicos da literatura. Lá eu tive acesso ao mundo mágico das letras que me transportava a qualquer lugar. Eu lia livros sobre garotas da minha idade, vikins, história geral, geografia, romances, contos, em fim, não tinha limite à variedade e minha paixão por eles. A biblioteca do tio Levy tinha cheiro de coisa velha, misturado com os cheiros peculiares da sua relojoaria, sim, meu tio era relojoeiro, essa clássica profissão quase tão respeitável quanto os chaveiros, até hoje quando entro em uma oficina que cheira a coisa velha meu coração fica apertadinho de saudade. Era com certeza muito mais agradável ler em sua relojoaria do que brincar com as gêmeas, as Dadá.
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