5.21.2008

Manhã de domingo

Na manhã de hoje Carlos Campos demorou um pouco mais a abrir os olhos, depois de certa idade os olhos se tornam pesados, a pele se aglomera sobre as pálpebras. O peso recai sobre o velho escritor somado ao sono. O corpo cansado levanta lentamente, passando as mãos pelo rosto ele tenta afastar os sonhos.
Hoje Carlos completa 83 anos, mas a importância dessa data incidi sobre seus ombros através de uma carta roxa recebida há uma semana. Com uma bela letra caligrafada, o nome Paola, seu coração maduro pára, era o convite de casamento dela.
Após o desjejum matinal, o escritor senta-se à sua mesa de escritório, lugar onde executou os maiores trabalhos de sua vida. Carrega consigo a carta roxa que lhe pesa o coração e lhe trás recordações do passado, ele vê a sua frente sorrisos, lágrimas, brincadeiras, bebidas, cata-ventos, uma garotinha de olhos grandes, magra e sorridente.
Escritor que obteve grande sucesso, mas há muito tempo entrou em franca decadência. Mesmo recebendo suporte de seus amigos jornalistas em colunas eventuais, Carlos percebe sem assumir, que é hoje apenas uma sombra do que foi há 20 anos, é como se uma maldição tivesse esvaído todo seu talento literário. Hoje se senta à mesa para escrever a carta mais difícil de sua vida.
Ele não se orgulha do que fez, mas sabe que optou pelo melhor para todos ao abandonar a mãe de Paola. Ele sabia em seu íntimo que não iria trazer felicidade ás duas, ele sabia que sua esposa mais cedo ou mais tarde iria descobrir a filha ilegítima, e para proteger a mãe e a bela garotinha que ele guarda em sua lembrança teve que deixar-las ir.
Pedir desculpas? Justificar que não iria ao casamento por doença? O que dizer a pequena Paola que agora é mulher feita? Ele sabia que desejava o melhor, o sorriso mais gostoso que ela pudesse dar, mesmo que ele nunca tivesse perto pra ouvir, mesmo que há muito tempo não ouvisse sequer a voz dela.
Ele nunca se explicou, nunca facilitou para ela compreender sua ausência, e agora ela lhe dá esse presente, um convite de casamento.
Sentado há frente de seu computador, ao olhar para a tela em branco, o escritor se deu conta que não tinha mais nada a dizer. O que não foi dito o silêncio se encarregaria de dizer. Pois depois de tantos anos o que restava de sua paternidade? Ele não se sentia no direito de participar dessa celebração, ele não cometeria a imprudência de comparecer. Covardia? E para se punir, ou se abster, ele se omite mais uma vez. Não responde ao convite. Se cala e chora.

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