4.03.2009

Lambe Lambe

De Elisa Lucinda

[Fui a um sarau de poesia ontem e depois de ouvir muitas poesias – algumas de boa qualidade outras sofríveis – fiquei pensando: de todas as poesias que conheço qual recitaria em público? E me veio à cabeça a Elisa Lucinda, ai tive certeza, é essa poesia à baixo que recitaria.]

Passam muitas pessoas no saguão dos aeroportos.
Passam neste aeroporto da agora,
e eu, no meu pensamento,
não me comporto,
imagino elas fodendo:
fulano com fulano,
são casados, gozam, fazem planos?
E ela, quer logo que acabe?
E ele, penetra rosnando?
Fantasio as inúmeras possibilidades de encaixes,
em como foram as noites de amor que tiveram para fazer essas
crianças chinesas africanas alemãs francesas mexicanas libanesas
brasileiras cabo-verdianas espanholas cubanas holandesas
senegalesas turcas e gregas.

(meu pensamento é inconveniente mas ninguém sabe,
escrevo num café, estou, por fora, muito chique no cenário
e nitidamente estrangeira.)

Agora passam dois homens.
Sentam à mesa ao lado.

Falam germânico mas a tradução é da mais alta putaria,
Uma iguaria da mais pura sacanagem!
Eu sei, são gays. Eles não sabem que eu sei.
Pensam que escrevo o abstrato
E capricham descansados ao colo do idioma que não alcanço.
Mas sou poliglota na linguagem dos molhares,
cílios a mais antiga cortina do mais antigo teatro
na pátria universal dos gestos, meu bem!
Eles não escapam.
Um chupa muito o outro, que eu sei,
e o magrinho gosta de dar por cima e de lado.
Importante dizer que dentro desse meu pensamento safado
também não tem pecado.
Só me diverte
Ver o que todos negam,
O que não se diz no social,
Uma radiografia verbal da intimidade alheia é o que faço aqui,
Sem que ninguém suspeite,
Sem ninguém me permitir.

Aquele tem pau pequeno e, pior que isso,
e, mais que suas parceiras, acha isso um problema.
Aquele ali também tem, mas arde na cama e se empenha muito
compensando a diferença.
Aquela, num outro esquema,
diz não gostar da coisa
e fala sem parar.
Só uma pirocada de jeito para fazê-la calar.
A gostosa gordinha engole a espada todinhada
quele altão desajeitado,
cujo grosso membro se torna,
em meio às coxas dela, disfarçado.

E o velhinho punheteiro
De pau mole com jornal no colo?
Talvez seja o único a adivinhar o teor dos meus escritos,
dado que me olha dissimulado e constantede modo a nunca perder meus segredos de vista.

(Com licença mas é dessa matéria hoje minha poesia)

Enxerida, vejo a mulher com cabelo cortado à la moicano
Com a menina que iniciara a tiracolo,
Feliz sem ser por ela lambida
E sem saber no que estou pensando.

Passam as pessoas
no saguão do aeroporto,
fingem que fazem check-in
fingem viajar sérias e de férias,
fingem estar trabalhando...
mentira,
pra mim ta todo mundo trepando!

Frankfurt, 6 junho de 2002

3 comments:

Diletantes said...

Título: Comentário atoa

Interessante....o amor tornou-se sexo e perdeuto muito de sua eternidade. Lembra do "falas de amor, eu ouço tudo e calo. O amor da humanidade é uma mentira...."? O texto diz isso de maneira visceral.
Lembro-me de ter ouvido desta blogueira uma afirmação de desgosto quanto às poesias que falam de si, mas quando é que seu texto não fala de si? Ou melhor, quando é que o autor torna-se ausente de sua obra?

Rafaela said...

Raramente, mas temos que levar em conta os autores que escrevem somente através da técnica, sem o ‘eu’. Eu prefiro os que unem uma boa técnica com alguma subjetividade.
O problema dos poetas que só falam de si é que eles se sentem no direito de escreverem qualquer coisa que estejam sentindo, como se isso fosse o significado primordial da poesia, e pra mim isso não é verdade. Surgem, então, àquelas poesias cretinas cheias de metáforas e raciocínios incompreensíveis, são cheias de subjetividade e com pouca técnica, com pouca objetividade, eu acho esse tipo de poesia ruim porque ela fica hermética, e conseqüentemente desinteressante.
No caso da Elisa Lucinda ela consegue lidar com temas triviais mas com muita subjetividade e com uma bela construção poética, você lê e sente as frases vão se encaixando, sente o ritmo muito claramente, eu acho isso maravilhoso!

PS: sobre o que eu faço, eu sei que não escrevo bem poesia, mas fico tão feliz quando escrevo uma que não resisto em colocá-la aqui, mesmo ela sendo ruim, cabe aos leitores não lê-la. Vai entender, né? =/

Diletantes said...

Só pra chatear mesmo...

Penso no romantismo desta blogueira..."unir técnica à subjetividade", como se a técnica - seja entendida como cohecimento de ciência, ou como domínio de alguma habilidade, seja como capacidade de uso de ferramentas em prol de uma meta - não fosse a realização de alguma subjetividade intencionada. Concordo com a crítica ao narcisismo lírico.
Relendo o texto...sinto que falta algo aos poemas que posuem sexo em seu corpo. Falta tesão! Falta o aspecto excitante do sexo...naquele encontro de poesia pensei isso. Fala-se de "putas velhas" ou de belas virgens defloradas com tanto distanciamento que não se sabe se o suposto poeta é realmente homem encarnado. O "Lambe-Lambe" não é assim!
Baccione