A menina com seus 5 a 7 anos logo percebe a necessidade de atender a regras de beleza e etiqueta. As que nasceram belas não devem nem se lembrar dessa fase, mas as que - como eu - não eram um primor de beleza lembram-se com algum pesar. Por exemplo, as horas de tortura para desembaraçar os cabelos genuinamente crespos, e me recordo da dor no couro-cabeludo por conta das buchinhas muito apertadas usadas o dia todo para conter o turbilhão de fios que tenho na cabeça. Minha prima tem os olhos puxados, e sempre brincamos que ela ficou assim por causa das xuxinhas muito apertadas.
Aos 12 percebemos que não é de bom tom brincar de bola como os meninos, rolar no barro, subir em árvores (principalmente quando estamos de saia). As mães cometem esse sacrilégio, colocam saia nas meninas para elas brincarem. Quem nunca passou a vergonha de algum garoto debochar por viu nossa calcinha? Aprendemos que as meninas são mais frágeis e delicadas (mentira!), que devem se comportar com mais cautela. E ai entra o ponto crucial da adolescência; manter a virgindade intacta e imaculada. Isso somado a um momento de ebulição hormonal, e descobertas sexuais. Aos meninos essa exploração sexual juvenil é permitida e incentivada, nas meninas é um crime.
Mais tarde começam os primeiros namoros e as primeiras desilusões, e com elas a frustração de perceber que atingir os ideais de mulher bem amada e feliz é mais difícil na vida real do que nos contos de fada. Os homens são todos sapos, não há príncipes. É necessário muita luta e perseverança pra fazer um relacionamento dar certo. Tudo é mais fácil nos comerciais de margarina.
E hoje além dessas exigências estéticas, sociais, há também as do mercado de trabalho. Ser bem sucedida é o sonho de toda garota com um mínimo de inteligência. E onde entram os filhos nessa história?
Nós mulheres estamos atingindo grandes mudanças no nosso papel social, mas há muito a ser pensado e repensado, porque hoje vivemos um pouco da liberdade que reivindicamos no passado, mas ainda estamos presas a padrões arraigados, e em meio a isso tudo a desestruturação da família. Não sei onde isso vai parar.

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