11.14.2010

Quem és tú? I

A delicada e misteriosa Alice me chamou para um conversa regada a chá. Sentei-me a sua frente e fitei seu grades olhos ingênuos e sorridentes, nunca me deixei enganar pela ingenuidade de olhares, dos mais doces é que saem as maiores surpresas. De dedos fininhos e muito brancos ela me passou delicadamente a xicara, o pires, e serviu o chá com um movimento de pulso e muita agilidade como quem quisesse seduzir, lembrou-me as antigas gueixas que dominavam a arte da sedução em pequenos gestos.

O chá servido Alice se reclinou e sorveu o conteúdo quente da xicara fechando os olhos com imenso prazer, fiz o mesmo e me surpreendi com o sabor nunca antes experimentado por mim. E perguntei: Do que é o chá?

Ela disse: camaleão. Calei-me.

Ao longe escuto vozes de um grupo que passa, mas envolto a uma neblina, não vejo ao certo quem sã. Pergunto a Alice, quem são eles? E ela diz: É tudo gente morta. Nesse momento me dou conta que provavelmente estou morta também e que aquela pequena garota de cachos loiros talvez seja minha companhia para a eternidade. Não me lembro o que houve antes daquele momento, e o que haverá de vir não me importa. Estava por demasiado interessada naquela pequena menina que tomava chá e comia biscoitos de forma tão despreocupada. Perguntei, por que estamos aqui? E ela retrucou: depende, quem és tu? E essa pergunta me tomou por completo, como se um vento frio entrasse pelos meus dedos e percorressem meu corpo fugindo pelo topo da cabeça. Não sei quem sou eu, e se não sei quem eu sou provavelmente não saberei o que faço, e por quê. E o vazio e infinito de possibilidades quando não se sabe quem é me deixou tonta, larguei a xícara.

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