4.27.2010

A Mais Nobre Decadência.

Nair é a senhora mais admirável que conheço. Ela apaixonou-se por meu tio que era locutor em um Circo, e movida pelo amor foi com ele viajar pelas cidades da região a bordo do Circo mambembe. Ela já tinha uma filha, e é surpreendente ver que um homem na década de 70 assumisse uma mulher nessas condições. Quanto voltaram ela estava grávida, e viveram juntos por um tempo perto da casa de minha avó. Mas como é a vida real, e na vida real não tem final feliz, não existe príncipe encantado e os homens são todos uns imbecis, meu tio largou Nair e foi pro Rio de Janeiro.

Sem trabalho, sem marido, com duas filhas pra criar, Nair se prostituiu. Mas soube fazer isso com a dignidade de poucas. Ela recebia seus clientes na madrugada, em sua própria casa e nunca permitia que eles tivessem contato com suas filhas. Assim na surdina, e consciente do que fazia Nair colocava as meninas pra dormir, tomava banho se perfumava, e esperava o próximo amante de ocasião.

As meninas cresceram belas mulheres, hoje as duas são casadas e tem filhos. E Nair está envelhecendo sozinha, abandonada. Sua pele muito branca é repleta se sulcos, rachaduras; os cabelos são ralos e opacos; e as sobrancelhas desenhadas a lápis por uma mão trêmula faz o contorno de um olhar inteligente. Mas por trás dessa aparência sofrida dá pra ver os traços da bela mulher que foi. Os trejeitos de mulher segura de si ainda existem nessa velha decadente e admirável. Desejo um dia saber, como Nair, decair com elegância - ao contrário do que faço hoje - e planejar uma nobre decadência pomposa e majestosa como qualquer decadência merece ser atuada.

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