Sinto uma estranheza inquietante como se o que sou hoje fosse um emaranhado de conseqüências que não contive. E agora olho pra mim assustada como resultado de todos os reflexos e desejos que ignorei. Há algo em mim que não é meu.
Meu reflexo no espelho me diz que parei em algum ponto entre a adolescência e a vida adulta, e meu divã me diz que nem saí da infância. Parei há muito tempo, e agora sou um amontoado de carne que sente o que quer, faz o que quer, totalmente sem controle. Algo em mim se quebrou.
Como conviver com o furo que me constitui? Se a partir desse furo saem de mim todos os males. Pandora tenta capturá-los enquanto eu tento recuperar ao menos a esperança. E de todos os males que me afligem a alma, o pior é ter sanidade para perceber que perco não só a esperança como meu amor.
Ela o observava dormindo. Ele deitado, grande e peludo distribuído pela cama entre braços pernas e pêlos caídos pelo colchão. Ela escutava sua respiração difícil. O ronco de sua garganta que saía como um grunhido. Parecia tão feio, tão frágil, ali parado sem vida. Era até difícil entender o que a fascinava tanto, o que o fazia ser tão especial pra ela mesmo depois das traições assumidas, depois das brigas, das cobranças imbecis. Aquele homem deitado não era nem parte do homem que ela se apaixonou um dia. Aquele homem que grunhia e sonhava não era o que ela merecia, não dessa forma, não desse jeito meio morto meio vivo. E só assim com ele parado, imóvel, irreconhecível, ela teria coragem de fazer o que planejava há algum tempo.
Ela se perguntava o que ele estava sonhando. Com quais mulheres? Quais princesas? Quais mundos maravilhosos? Será que ele sentia o que estava prestes a acontecer? Com as luzes do pequeno apartamento apagadas, a luz da lua entrando pela janela conduzindo o caminho até a cozinha. No fogão o azeite fervia em uma leiteira velha. Aquele líquido dourado, belo, e vivo... Borbulhando.
Ela desliga o fogão. Caminha pelo quarto sorrateiramente, segurando em suas mãos o pano de prato bordado pela sua tia que protegia seus dedos do calor da leiteira. Ela para ao lado da cama, fica nessa posição por um longo tempo. Até que olha para o ouvido dele.
(No momento estou incapacitada de escrever qualquer coisa que não seja referente a psicanálise.)
Tenho uma pena especial dos neuróticos obsessivos, eles são sado-masoquistas por excelência. E toda possível experiência de prazer ele: foge, posterga, esquiva e gera culpa a partir disso (culpa = autoestima baixa). “O sadismo consiste em violência em exercício de poder contra outra pessoa, que é tida como objeto”, “masoquismo é um sadismo voltado contra o próprio eu, utilizando a outra pessoa como Sujeito” FREUD.
Isso faz parte do desenvolvimento do neurótico obsessivo, que recalca lembranças (fantasiosas ou não) traumáticas cheias de afeto em determinado momento (relacionada ao complexo de Édipo).O neurótico obsessivo é aquele que concluiu muito bem seu Édipo. É o homem que tem adoração pela mãe, por exemplo. Aquele que fantasia tanto a sua progenitora que nem consegue descrevê-la com coerência, e muito menos se opor a ela. O “bom filho”.
A energia recalcada em determinado momento volta-se para o sujeito, então o próprio eu do sujeito se torna um objeto a ser torturado (masoquismo). O obsessivo produz essa defesa por deslocamento (diferente da histérica), o afeto é ligado a outras representações psíquicas que não a do trauma. O sujeito se inflige dor (olha a culpa aí), lembrando que todo sintoma carregava uma dose de satisfação. Esse conflito psíquico exprime-se por sintomas chamados de compulsivos: idéias obsedantes, compulsão a realizar atos indesejáveis, luta contra esses pensamentos e estas tendências, ritos conjuratórios, que refletem diretamente no corpo do indivíduo, em atitudes voluntárias ou involuntárias. È a ruminação mental, que gera todo tipo de comportamento, que circunda o trauma, mas nunca o encara de frente.
Agora, fuja se caso o obsessivo dirigir a hostilidade que ele investia sobre si para você. Temos a fase sádica do obsessivo, que pode ser tão cruel com o outro como é cruel consigo mesmo. E como bom neurótico, irá sempre fantasiar em cima de fatos e acontecimentos, montando e manipulando a ‘realidade’ como bem entender.
O obsessivo é o homem que é certinho, que gosta de limpar a casa, que tem mania de limpeza, mas uma mania muito específica, aquele detalhe deve estar limpo, aquele cantinho, o resto não importa. Para Winnicott (1990), a neurose obsessiva aponta para um estado de caos interior, de desintegração. A ordem estabelecida pelo obsessivo é a representação externa da negação do caos interior.
O obsessivo tende a se submeter, ele sempre vai eleger um objeto e se submeter a ele, um objeto de amor, ou de admiração. E é nesse momento que sua natureza masoquista fica mais evidente.
A vida do obsessivo será sempre cíclica, e ele se virá cometendo sempre os mesmos erros, fazendo as mesmas escolhas. E estará sempre as voltas com o amor e ódio diante do objeto de amor.