1.27.2009

The boss


Fui a uma entrevista de emprego ontem. Demorei dois dias para decidir que roupa usar. Optei por um jeans de qualidade, uma camisa de botão de tecido fino, sapato de salto e brincos de argola (não sei por que, mas acho que brinco de argola passa credibilidade), e currículo debaixo do braço.
Chego ao local adiantada e tentando disfarçar meu nervosismo. Depois de esperar duas eternidades entrei na sala do futuro chefe. Detesto essas situações em que tenho que fingir o que não sou, calculo meus movimentos para parecer menos desajeitada, me esforço para ser mais educada do que realmente sou, tento mostrar que estou interessada no emprego sem ter certeza disso.
Sempre fui muito sincera. A verdade é um maldito hábito que cultivo.
O futuro chefe têm cabelos brancos e ralos, baixinho e com óculos grandes de aro redondo, parecia ingênuo e despretensioso, mesmo sentado atrás da imponente mesa de cerejeira. Simpatizei com ele.
Então começa a tortura, e eu sentada á sua frente tentando dizer a coisa certa (ressalto que nunca fui boa nisso).
Em certo momento o Sr. futuro chefe sai de trás da bancada com meu humilde currículo nas mãos e senta na quina da mesa, bem na minha frente. Nesse exato minuto o tempo parou. A sala congelou e o pingo de suor que descia na minha têmpora estacionou. Eu estava de cara com os ‘bagos’ do meu futuro chefe. Eles saltaram e se encaixaram perfeitamente ao lado esquerdo pelo canto da costura da calça, por cima da perna no momento exato em que ele sentou. Bem na altura dos meus olhos! Como não olhar? Estavam lá olhando pra mim, e eu pra eles.
E meu maldito senso de humor gritava na minha cabeça ‘Que velho bagudo!’ E eu lá firme! Impacível! Gelada, tentando parecer fina. E o chefe falando coisas que eu sei que devia ter prestado atenção. Como não rir?
É impressionante quando a gente acha que já passou por tudo na vida sempre aparece uma coisa pior.

Eu e o poeta

Um dia vou me envolver com um poeta.
Terei um relacionamento relâmpago,
intenso e carnal.

Serei maldosa e dissimulada
Só pelo prazer de me ver exposta em palavras,
Descrita
Aberta
rasgada

Irei provocá-lo
até fazer seu íntimo sentir necessidade
de me mal dizer em poesia.

Escrito em letras rápidas no papel,
respingado de suor, lágrimas,
esperma

Não deve existir nada como ser xingada em poesia!

Amor

Eu busco uma palavra para substituir o calejado ‘amor’. A meu ver ele já se esvaziou de sentido, sendo desperdiçado por ai - de outdoors a puteiros. Eu lamento.
Amor é uma palavra ingrata. Acho errado a usarmos para definir uma amplitude tão vasta de sentimentos, desde amor maternal ao sexual, tudo é chamado amor. Eu amo várias pessoas de formas e intensidades diferentes, para cada uma eu gostaria de inventar uma palavra.
Ou casais melosos que o gastam a exaustão, deixando qualquer pessoa que assista enjoada, principalmente se a garota tiver o degenerado hábito de prolongar as vogais: amoooooooooooooor vem cá! Conheço vários assim... Detesto.
Essa palavra devia ser sagrada, e só dita em ocasiões especiais. Em eventos sociais onde as pessoas se juntassem vestidas com as melhores roupas, exalando o melhor perfume, bebendo boa bebida de um buffet cheio de frescura. Só pelo prazer de ouvir um ‘eu te amo’ sincero, dito com o coração. Assim seriam os casamentos.
Mas eu entendo a dificuldade das pessoas com essa palavra. Não é fácil amar, e na maioria das vezes a gente nem tem certeza se ama ou não. Amor é verbo intransitivo, não têm sujeito, amar anula a pessoa que ama. Por isso é tão difícil amar.

1.20.2009

Mamy

Nesse momento minha mãe está se casando com um idiota na minha cidade natal. É uma união civil simples. Ela mandou-me o convite mas fiz questão de não estar presente, até mesmo porque não dou a mínima para essa união, e arrisco dizer que não irá durar ate o inverno.
Pois bem, digo a vocês uma verdade que encaro desde a infância, minha mãe tem o talento de farejar um idiota a quilômetros de distância. E eu acompanhei essa sucessão de imbecis durante meu crescimento. Chego a me recordar de alguns em particular.
Certa noite, eu devia ter por volta dos 9 anos, ela levou o namorado imbecil da vez na casa das minhas tias (onde morávamos), o sentou nas cadeiras da varanda e me chamou para conhecê-lo. Só de olhar pra cara da criatura percebi que se tratava de um idiota; cabelo partido ao meio e lambuzado de gel, camisa xadrez e butinas. Minha mãe estava visivelmente nervosa perto dele, querendo parecer divertida e agradável, e morrendo de medo que eu causasse uma má impressão no jeca. Eu me sentei e ele começou a fazer o velho questionário maçante que os idiotas fazem às crianças 'Onde você estuda?', 'Sua professora é legal?', 'Qual matéria você mais gosta?', nessa eu equivocadamente respondi matemática, e ele não titubeou em me perguntar ' você já estudou a tabuada?' Eu - sim. O idiota então me tomou a tabuada durante uma hora. ‘3x 4?’ ‘7x9?’ '5x3?'. Ele sabia como matar uma criança de tédio! Acho que minha mãe não ficou muito tempo com ele, não o vi depois disso. Ainda bem!
Houve um outro que ligava constantemente lá pra casa, minhas tias não aguentavam mais. Depois de algum tempo descobrimos, ou minha mãe contou, não lembro, que se tratava do mecânico que tinha uma oficina na rua de baixo. Ele era vulgarmente conhecido pelo singelo apelido de 'pézão’, e eu gostava de chama-lo de 'pé-grande', pois a sua semelhança com o macaco ficcional era inegável. Houve uma noite em que minha mãe se arrumou cuidadosamente para sair, eu sabia que se tratava de um encontro. Fiquei à espreita para ver com quem, e quando ela saiu eu fui correndo ao quarto da frente esgueirar-me na fresta da janela para ver com quem ela saia. Chegando lá dou de cara com a minha tia bisbilhotando na janela, me junto a ela e vejo minha mãe entrando num caminhão enorme destes de rodas gigantes, mas estava sem a caçamba. Eu e minha tia caímos de risada, e ela disse ‘Que decadência!’.
Pouco tempo depois eu soube que o pé-grande se casou com uma bela professora da rua de baixo. Tirem a conclusão que quiserem.
O pior idiota que minha mãe encontrou foi sem dúvida meu pai, e eu tenho para mim que ela ficou tão emocionada com sua façanha que decidiu ter uma filha dele. Afinal não é todo dia que se encontra um imbecil de peso! Ela quis marcar o ápise da carreira dela comigo.
E hoje, ela esta mais uma vez cometendo um erro na vida dela. E eu como sempre assisto ela se fuder de camarote.

Nota de esclarecimento

Os homens quando encontram uma mulher de verdade brocham. Não sabem olhar no olho, não sabem ouvir verdade. Estão acostumados com as bonecas dos filmes pôrnos, que gemem e se mexem automaticamente, com suas cavidades vaginais fluorescentes de tão lisas. Se oferecem facilmente, sem resistência. Ou bundas grotescamente descomunais, que sacodem ao som tribal de alguma batida.
Essas são as mulheres que habitam o imaginário desses pobres homens, que quando descobrem o que é o real esvaziam os escrotos automaticamente, como um susto. Se lambuzam todos de esperma meloso, pois não estão a-cos-tu-ma-dos às mulheres de verdade, e que dizem a verdade. E ao final da pachorra lançam um olhar pedante, como se pedissem desculpa por serem tão bostas.

Calma la mi pueblo!!! Estamos hablando de Obama, y no de Chávez!


A meu ver expectativa excessiva precede inevitavelmente uma grande decepção. Vejo a onda de aceitação de Obama, e toda a sua festa na posse da Casa Branca com certo receio. Apesar de feliz por ver um presidente negro americano, coisa que há 4 anos atrás seria impensável, agora é realidade. E acho que devemos isso à famigerada era Bush, que obrigou o americano – branco, classe média, consumista, alienado - a se posicionar de forma mais inteligente em relação a escolha de seus governantes e a política externa.
Mas a política americana sempre teve um perfil muito definido, e mesmo sendo um democrata, o negro Obama não irá negar o passado político, e não irá salvar o mundo.
É até mesmo previsível suas atitudes. Ele irá tentar controlar a crise com pacotes econômicos do governo, injetar grana no mercado e medidas preventivas do gênero. Irá manter a diplomacia nas relações externas, sem conceder grandes aberturas, ou promover grandes mudanças nas relações mercadológicas com os países subdesenvolvidos (ruim pra gente). Quanto a guerra de Israel e Palestina, acho que ele não irá intervir diretamente, os EUA tem um acordo diplomático antigo com os judeus, seria estupidez tomar partido dos palestinos e sofrer retalhacões na economia em um momento tão delicado.
Por isso, temo que daqui a alguns meses o mundo comece a se sentir traído, pois esperamos demais de um homem só, que não é um herói, é apenas um bom presidente que surge no momento em que os EUA mais precisa.

E.C.A.

Me enoja a vida acadêmica, não sou o tipo de pessoa que se adapta bem a ambientes regados por relações de interesses. Na academia os intelectuais se esforçam para atingir a erudição e consequentemente uma colocação social, dar aulas, e nunca pelo conhecimento, ou pelo prazer e desenvolver um pensamento próprio. E o que mais observo é a relação de rivalidade e inveja que cercam esse ambiente, tanto os alunos que aprendem a agir por interesse quanto os professores nas suas relações entre si e com os alunos, todos buscando criar relações para atingir determinado objetivo, que ao meu ver sempre são de moral duvidosa.
Na teoria a academia deveria desenvolver pesquisa para contribuir com a comunidade, com o país. Mas me diga quantas pesquisas realmente são de cunho prático? Professores sanguessugas é o que não falta, só pensam em dinheiro - se acham no direito ou de esnobar determinados alunos por questões pessoais, ou não trabalhar a carga horária completa, e quando você os procura pra uma orientação em pesquisa se depara com uma grande má vontade, como se não fossem pagos pra isso, se posicionando como se estivessem fazendo um favor ao aluno.
A cada dia que passa sinto mais repúdio pela academia do nosso país, pois aos poucos vou conhecendo o que há por trás de tanta ostentação e ineficiência.

Little love

Quando fico muito tempo sem preencher meu coração desenvolvo subsídios para me distrair, produzo paixonites imaginárias. E de tempos em tempos troco de amor. São eles na maioria intelectuais e artistas, que nunca ví pessoalmente e provavelmente nunca vou ver. Minha última vítima do amor platônico foi o jornalista Luís Nachibin, esse me rendeu boas viagens, mas já me envolvi com o Zeca Baleiro nos bastidores de um show; com o Obama na casa Branca; com o Axl Rose quando eu tinha 15 anos; com o Eduardo Bueno no lançamento de seu livro; o Dr. House quando tive uma obstrução intestinal; com o Bukowski em um bar de beira de estrada, dentre outros.
Então para saciar meu tempo ocioso me perco em pensamentos e construo situações que exercitam minha criatividade e aquecem meu coração, e me fazem sentir como uma garotinha idiota de 13 anos.

Bananas is my business


Há uma lenda mitológica Grega que data do começo dos tempos onde haviam seres que tinham duas cabeças, quatro braços, e quatro pés. Esses seres eram tão poderosos que os Deuses decidiram dividi-los em dois, originando assim os seres humanos. Todos ser humano tem, portanto, sua outra metade.
Meu ceticismo genuíno diz que não existem almas gêmeas. Nunca vi um casal perfeito, mesmo os duradouros e harmônicos eu consegui entender a dinâmica. Porque TODO relacionamento é uma barganha, pura troca de interesses. Há algumas trocas que são muito vantajosas, então o negócio funciona, lucra e se expande. Às vezes o lucro gerado pela troca é tanto, que já é possível fazer alguns investimentos. Temos assim o cálculo prospectivo do casal, colocando no pacote ítens adquiridos como: casamento, filhos, imóveis, viagens. Esse é o modelo de relacionamento de sucesso. Troca + investimento = lucro mútuo.
E todos nós solteiros temos que estar atentos ao mercado consumidor, nas variações cambiais, para que nossos investimentos não se desvalorizem. Lembrando sempre da lei de oferta e procura, o produto que tem muita procura, se valoriza. Produto que não gera interesse se desvaloriza no mercado.
É isso, limousine e grana suja, nada de alma gêmeas, é tudo business honey.

Você aconselharia alguém a ser escritor?


Coisa triste é descobrir que os ídolos morrem. Ando lendo muito Bukowski e descobri que o safado já morreu. Como eu gostaria de tomar uma cerveja com ele! Sei até como seria, pois tenho o dom de prever como se darão meus relacionamentos, e principalmente como vão terminar. Normalmente acerto, coisa triste isso.
Eu entraria no apartamento de fundos dele com uma garrafa de whisky nas mãos. Pararia na porta para me acostumar com a enxurrada de informação visual e o fedor, pois havia algum tempo que a empregada não aparecia. Com certeza havia ficado com raiva de alguma coisa sacana que Buk disse.
Ele ficaria puto pela visita matinal ás 13:30h, mas se sentiria satisfeito quando visse a garrafa. Nos sentaríamos, beberíamos, conversaríamos sobre literatura e política. A certa altura ele tentaria me bolinar, mas eu ficaria impassível, serena, e debochada. Ele por sua vez, insinuaria que queria que eu fosse embora, eu, como não tenho muitos escrúpulos voltaria no outro dia com outra garrafa.
Bukowski não gosta de mulheres, e eu não gosto dos homens. Nós formaríamos, portanto, uma boa dupla.

1.12.2009

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A relação ‘dono de bolg’ x ‘blog’ é complexa, quase tão complexa quanto qualquer processo de criação. As desavenças e conflitos emergidos da distância entre o que se pretende e o que se obtém são muitos. Por isso estou com um bloqueio com meu blog, não consigo escrever. Parece-me meio ridículo, quase patético, mas nesses últimos tempos estou me controlando para não acabar com ele.

12.23.2008

A Outra


Quase tive um orgasmo quando descobri (no final do filme) que ele se trata da história da mãe da Elizabeth I. Eu havia recomendado o filme Elizabeth a era de ouro nesse blog há alguns meses, e recomendo esse aos que se interessarem descobrir de onde vem o gênio de Elizabeth.

12.19.2008

Silêncio

Sentada em frente a Tv oiço coisas que fazem meu corpo todo estremecer. Sinto um arrepio gelado me percorrer, e cravo as unhas nas almofadas da sala. Na cidade do Rio de Janeiro uma média de quatro mulheres são estupradas por dia. Meu estômago revira.
Não consigo ficar complacente a certos tipos de violência. Sou mulher. Tenho vagina. Tenho sangue nas veias, e ele corre mais acelerado quando penso nesse tipo de covardia.
Que tipo de pessoa com sexualidade doentia faria uma coisa dessas? Que tipo de perversão sexual levaria um homem a agir assim e continuar respirando?
Sinceramente, sou fêmea. E não entendo.
Perplexa...
O silêncio fala por si só.

Irritando Rafaela Oliveira


Sou o tipo de pessoa que tem um fraquejo pela irritação, sei disso. Convivo com um eterno incomodo. Mas o que mais me tira do sério são as pessoas, ou melhor, as coisas que as pessoas fazem (ou deixam de fazer).
Nessa época do ano eu fico mais suceptível a irritabilidade. E o que mais me deprime é a maldita decoração de Natal. Nada contra as bolinhas e o festão, sou contra o exagero. Se não tiver dinheiro para fazer uma coisa de bom gosto tenha a dignidade de não fazer nada!
Esse mês entrei no supermercado perto da minha casa e dei de cara com um boneco de Papai Noel murcho e feio, ai pensei: Que marmota! O franzino velhinho constituia-se de um boneco grande e magro, mal vestido, com uma barba falsa todo embolada. Em volta um festão. Estava lamentável... Foi difícil segurar o riso. Eu preferí fingir que não o ví e passei reto. Ainda hoje me esforço para ignorar aquela figura "excêntrica” quando vou ao supermercado. Mas essa rede de supermercados com certeza não preza pelo bom gosto. Isso é perceptível na música que ecoa em seus corredores, sempre um pop music estilo FM. Aliás supermercado não é lugar para ter música. Se eu quero ouvir música vou para um bar ou boate. Ningém pensa: puxa, estava querendo ouvir uma música hoje... Vou ao supermercado.

Mas voltando à questão da decoração natalina, vamos falar sobre as casas enfeitadas com o conceito equivocado de que quantidade é qualidade. Há pessoas que não economizam, querem valorizar a bela sacada e a enchem de luzes coloridas, piscas musicais, cascatas, tudo misturado aos festões e bolas (que pouco aparecem), Papai Noel subindo, Papai Noel descendo, Papai Noel dançando. Um inferno visual piscante!

Meu prédio também está enfeitado (contra minha vontade, claro). No corredor principal o zelador colocou festões prata pendurados em arco no teto. Eles estão visivelmente gastos. Ele comete essa injúria todo ano, coloca vários festões e bolas de todo tipo misturados sem raciocínio (deu pra vizualizar?).

No caso da decoração infeliz do meu prédio, seria mais eficaz se eles colocassem uma faixa na frente escrita: aqui mora gente pobre. Mas pelo o que conheço dessas pessoas, elas logo iriam pendurar umas bolinhas e uns festões velhos para ficar mais bonitinho.

Dai-me paciência!

12.15.2008

A despedida

Ela não o via há muito tempo. Ele se fora da mesma forma que entrou em sua vida, sem pedir, sem conversar. Homens de poucas palavras era assim que ela gostava. Quando ele partiu ela teve que se acostumar não com a ausência de seu amor, mas com a sua própria presença. Ela lapidou por muitos anos seu talento para viver em função do outro. Sempre teve esse dom: se dedicar os homens. Coisa ensinada pela sua mãe com todo esmero, e ela sorveu cada palavra.
Sempre soube agradá-los, servi-los. Gemer quando necessário, sorrir no momento certo. E com o tempo Tereza foi aprendendo a tocá-los. Ela sabia faze-los sentir prazer, e o fazia com o mesmo talento quanto um bom concertista.
Mas ele a abandonou para ficar com outra mulher. E isso feriu seu orgulho de fêmea. Não entendeu o que deixou de fazer, ou e que se excedeu. Agiu perfeitamente como as regras. Amou-o como uma receita.
Hoje, Tereza, teve a oportunidade que estava há meses. Ele se foi, levando consigo sua razão de viver, e agora ele estava de volta por conta de uma desculpa inventada por ela. Uma reforma, a qual seus livros deixados estariam sobrando na re-decoração da sala de jantar.
Ela o esperou vestida com vestido florido, lambuzada de lavanda, com os lábios carmins. Ensaiou a desculpa que estava de saída.
Ao chegar, ele sentou-se na sala como se ainda fosse sua. Estava surpreendentemente á vontade. Exalando um cheiro inebriante de homem, que fez Tereza arrepiar. A camisa um pouco aberta, ela vislumbrava os pelos de seu peito.
Após algumas palavras sem importância, e 2 copos de licor ela se deixou tomar, como se ainda fosse dele. Entregando-se por inteira a todas as antigas emoções. Cada toque, cada suspiro trazia consigo uma recordação, e Tereza não agüentou, desabou em lágrimas. Enquanto seu amor a penetrava concentrado em seu sexo, Tereza o olhava e percebia entre lágrimas como ainda o amava, e quanto ele não era mais seu. Quando ele percebeu que ela estava a chorar a abraçou carinhosamente, dizendo que também sentia saudades, tentando aplacar seu choro. E foi nesse momento que Tereza teve certeza que jamais ficariam juntos novamente.
Há coisas que só as mulheres entendem, mesmo que os homens queiram nunca irão compreender.

12.12.2008

Hable con ella

Uma coisa no Amoldovar é totalmente clara e latente: sua admiração pelas mulheres. Me parece que ele não as comprende bem, e isso gera nele um grande facínio. As mulhres de Almodovar são deusas distantes e intocáveis, belas e fortes, estão acima do bem e do mal.

Assistí a esse filme em um fôlego só, como se estivesse segurando um suspiro. Só o soltei quando vi esse balé ao final, e junto com o suspiro veio um choro sincero, como há muito não fazia. Lavei minha alma.

12.08.2008

TABACARIA

Cuidado ao vestir o personagem, ás vezes ele não sai de cena e o ator se perde no enredo da trama.

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara

(Fernando Pessoa)

Anna Banana

Esse final de semana estive presente em um desses rituais 'social-civilizado'. E conheci por intermédio de uma amiga a Srta. Anna Banana, rapariga que roubou minha atenção. Ela se vestia com uma bela indumentária constituída de um elegante tubinho preto com scarpins, exalando um cheiro acre de roupa há muito guardada. Sem brincos ou braceletes cravados de pedras preciosas, como ostentavam as outras garotas. Ela trazia nos cabelos apenas um desalinho, que refletia também em sua postura.
Porém me encantou sua tentativa de fazer parte do todo, de parecer mais alinhada do que realmente estava, de parecer mais elegante do que realmente era.
Observei-a sentada ao meu lado de pernas cruzadas, mãos sobrepostas ao colo, bebericando de um líquido rosáceo, provavelmente champanhe com licor de cassis. Ostentando uma aparente feição de calma estampada no rosto. Um inabalável sorriso dissimulado, e um olhar que titubeia entre a fixação e a sonolência.
O garçom se aproxima oferece canapés a bela Dama Banana, e com um gesto languido com a mão esquerda ela dispensa o aperitivo, pronunciando calmamente um ‘não-obrigada’.
Ela se vira e olha em meus olhos com displicência como se aquele gesto fosse o mais recorrente de sua vida.
Como não se deixar encantar com tamanha engenhosidade?

Grana suja


Há uma lenda mitológica Grega que diz do começo dos tempos, onde haviam seres com duas cabeças, quatro pés e quatro braços. Esses eram seres tão poderosos que os Deuses mandaram dividi-los em dois, originando os seres humanos. Todo ser humano tem, portanto, sua outra metade.
Meu ceticismo genuíno me diz que não existem almas gêmeas. Nunca vi um casal perfeito, mesmo os duradouros e harmoniosos eu consegui compreender a dinâmica. Porque TODO relacionamento é uma barganha, pura troca de interesses.
Há algumas trocas que são muito vantajosas, então o negócio funciona, lucra e se expande. Às vezes, o lucro gerado pela troca se expande tanto que já é possível fazer alguns investimentos, gerando assim o cálculo prospectivo do casal, colocando no pacote itens adquiridos como: casamento, filhos, imóveis, viagens. Esse é o modelo de relacionamento de sucesso. Troca + investimento = lucro.
E para nós solteiros temos que estar atentos ao mercado consumidor, nas variações cambiais, para nossos investimentos não se desvalorizarem. Lembrando sempre da lei da oferta e procura! O produto raro que tem muita procura se valoriza, produto que não gera interesse se desvaloriza no mercado.
É isso, limousine e grana suja, nada de alma gêmea. É tudo business honey.

Eu Barcelona


Detesto quando me deparo com obras que sei que poderia ter feito, se me dessem a oportunidade e um pouco de tempo eu sei que as faria. Foi esse caso o filme que vi a pouco no cinema, Vicky Cristina Barcelona de Woody Allen.
Vi-me retratada nessa película na pele das duas protagonistas. Vi meus pensamentos e opiniões sendo debatidos na tela, todo o universo que me permeia sendo tratado da forma mais jocosa ao estilo woodialiano.
Vi meus dramas pessoais, e minhas angústias amorosas sofridas a pouco. Vi meu desejo de liberdade, e meu temperamento difícil. Vi que não é fácil lidar com a instabilidade, e eu não sou a única a sofrer com isso. Vi minhas descobertas artísticas, e minhas inquietações, e meu medo de onde isso tudo vai me levar.
Mas o que mais amei foi o comentário de Allen ao se deparar com o sucesso do filme:
"Terminei este filme há vários meses, e, quando termino um filme, não sinto mais o menor interesse nele. Já recebi ótimas críticas de filmes que não ganharam um dólar nas bilheterias. Recebi críticas negativas de outros, e isso nunca significou nada. O fato de lhe chamarem de grande não faz você ser grande, e o fato de dizerem que um trabalho é terrível não o torna terrível. Eu me lembro de, anos atrás, voltar para casa depois de ter um grande triunfo com 'A Última Noite de Boris Grushenko' ('Love and Death') e, mesmo assim, a garota do apartamento em frente não quis sair comigo. Eu estava em casa, sozinho, comendo comida chinesa diretamente da embalagem, sem nada a fazer exceto assistir à televisão. O sucesso nunca significa nada".