11.14.2010

O príncipe enfeitiçado


O príncipe estava enfeitiçado, e de sua boca saía todo tipo de animal peçonhento, a cada espirro várias moscas soltavam-se pelo ar diretamente de seu nariz. Toda vez que o belo príncipe tentava falar, no lugar das vogais e consoantes saíam sapos e cobras de sua boca. Esses animais saíam pelo reino e mordiam, picavam a população, alguns óbitos já haviam ocorrido. E o príncipe do alto de sua realeza obrigava a todos os súditos a o acudirem tentando parar o surto de todas as formas, uns rezavam, uns gritavam, outros catavam os animais, mas as cobras e lagartos não paravam de sair de suas entranhas. Até mesmo a feiticeira da corte foi chamada para acudir a situação, que a essa altura já estava fora de controle, os animeis espalhados por todo o castelo se juntando em casais e procriando em cantinhos do trono.

A feiticeira chegou meia noite se sentou num canto e observou o belo príncipe regurgitar uma série de sapos, cobras, escorpiões, baratas e lagartos, contorcendo-se de dor. A feiticeira sem dizer uma palavra observou, e com o badalar dos sinos, sinalizando a terceira hora da madrugada ela pegou seu punhal se aproximou do príncipe que estava deitado no chão já fraco, pegou sua cabeça cuidadosamente agarrou seus belos cabelos loiros, puxou sua língua e a cortou. Acabaram os animais.

Quem és tú? I

A delicada e misteriosa Alice me chamou para um conversa regada a chá. Sentei-me a sua frente e fitei seu grades olhos ingênuos e sorridentes, nunca me deixei enganar pela ingenuidade de olhares, dos mais doces é que saem as maiores surpresas. De dedos fininhos e muito brancos ela me passou delicadamente a xicara, o pires, e serviu o chá com um movimento de pulso e muita agilidade como quem quisesse seduzir, lembrou-me as antigas gueixas que dominavam a arte da sedução em pequenos gestos.

O chá servido Alice se reclinou e sorveu o conteúdo quente da xicara fechando os olhos com imenso prazer, fiz o mesmo e me surpreendi com o sabor nunca antes experimentado por mim. E perguntei: Do que é o chá?

Ela disse: camaleão. Calei-me.

Ao longe escuto vozes de um grupo que passa, mas envolto a uma neblina, não vejo ao certo quem sã. Pergunto a Alice, quem são eles? E ela diz: É tudo gente morta. Nesse momento me dou conta que provavelmente estou morta também e que aquela pequena garota de cachos loiros talvez seja minha companhia para a eternidade. Não me lembro o que houve antes daquele momento, e o que haverá de vir não me importa. Estava por demasiado interessada naquela pequena menina que tomava chá e comia biscoitos de forma tão despreocupada. Perguntei, por que estamos aqui? E ela retrucou: depende, quem és tu? E essa pergunta me tomou por completo, como se um vento frio entrasse pelos meus dedos e percorressem meu corpo fugindo pelo topo da cabeça. Não sei quem sou eu, e se não sei quem eu sou provavelmente não saberei o que faço, e por quê. E o vazio e infinito de possibilidades quando não se sabe quem é me deixou tonta, larguei a xícara.

Quem és tú? II


Fechei os olhos demoradamente e quando abri me dei conta que ao longe no outro lado da longa mesa havia alguém que dormia com a cabeça quase toda dentro do chapéu. Perguntei a Alice quem era esse que sentava-se conosco, ela disse que era o Chapeleiro. Ao ouvir seu nome a figura do outro lado da mesa acorda num sobressalto e começa a manipular as loiças e bules automaticamente com a cabeça ainda dentro do chapéu. As mãos nervosas passeiam cegamente pela mesa procurando os apetrechos para servir o chá. Boa parte da porcelana cai e se quebra gerando um barulho ensurdecedor, mas nem Alice nem Chapeleiro parecem se preocupar. Por fim ele encontra um bule quase cheio e enche um pires de chá e o toma pelo canto cuidadosamente. Observo a cena embriagada com aquela figura que suga o conteúdo do pires de forma barulhenta e ao final diz: Vejo-te. Pulei na cadeira de susto.
Pergunto então: Como pode me ver se está com os olhos tampados? Ele para, reclina a cabeça, e repete com mais convicção: Vejo-te. Não duvido que me veja, mas sei que o que via estava distorcido pelas bordas do chapéu, e pela impressão do que estava vendo. Quando se olha por dentro do chapéu, pode-se ver qualquer coisa. Vê o que quiser.

10.16.2010

Paixão

Vi uma série de historias nos últimos tempos, entre séries e filmes, e me dei conta que o tema principal de todos eles é a paixão. Sentir-se apaixonado é o melhor dos sofrimentos. Estar na presença de quem se ama e sentir a retribuição da ternura, o carinho, o cuidado, o afeto. O amor é egoísta e busca sua satisfação, estar apaixonado de forma madura é incognoscível. Quem ama quer ser amado na mesma medida ou mais, como uma sede. E nada mais devastador que a indiferença do objeto de amor. Ansiar por um olhar e ele nunca vir, é a espera mais eterna que pode existir.

Carta ao homem da minha vida

A sensação mais estranha que uma pessoa pode sentir é saudade de algo que não aconteceu. Uma nostalgia de um passado que deveria ter acontecido. Sinto saudade de tudo que não fizemos, de todos os abraços, e passeios, e conversas noite adentro que não ocorreram.
Aos poucos vamos nos tornando tempo, o amor é tempo, as relações é tempo, o vazio é tempo. Tempo em excesso se torna nada. Sinto um grande vazio nos distanciando, um buraco negro que engole a cada minuto minha juventude, e já percebo os arranhões do tempo na minha pele, a amargura se instalando em substituição das fantasias que o tempo se alimenta.
Sinto uma profunda nostalgia do que não vivi, uma saudade besta de alguma coisa que se perdeu.
Ficar sozinha trás uma paz angustiante que quero evitar a qualquer custo, sou capaz de me engolir, necessito do seu olhar. Não me vejo sem você, me falta o corpo, só tenho alma.
(...)

9.22.2010

Subterranean Homesick Alien



Favor, lembrem de mim quando escutarem essa música.
Grata!

9.21.2010

A mulher perdigueira

A mulher perdigueira sofre um terrível preconceito no amor.
Como se fosse um crime desejar alguém com toda intensidade. Ela não deveria confessar o que pensa ou exigir mais romance. Tem que se controlar, fingir que não está incomodada, mentir que não ficou machucada por alguma grosseria, omitir que não viu a cantada do seu parceiro para outra.
Ela é vista como uma figura perigosa. Não pode criar saudade das banalidades, extrapolar a cota de telefonemas e perguntas. É condenada a se desculpar pelo excesso de cuidado. Pedir perdão pelo ciúme, pelo descontrole, pela insistência de sua boca.
Exige-se que seja educada. Ora, só o morto é educado.
O homem inventou de discriminá-la. Em nome do futebol. Para honrar a saída com os amigos. Para proteger suas manias. Diz que não quer uma mulher o perseguindo. Que procura uma figura submissa e controlada que não pegue no seu pé
Eu quero uma mulher segurando meus dois pés. Porque amar não é vexame, escandalo mesmo é a indiferença.

Autor: Fabricio Carpinejar

8.29.2010

Meu divã

Sinto uma estranheza inquietante como se o que sou hoje fosse um emaranhado de conseqüências que não contive. E agora olho pra mim assustada como resultado de todos os reflexos e desejos que ignorei. Há algo em mim que não é meu.

Meu reflexo no espelho me diz que parei em algum ponto entre a adolescência e a vida adulta, e meu divã me diz que nem saí da infância. Parei há muito tempo, e agora sou um amontoado de carne que sente o que quer, faz o que quer, totalmente sem controle. Algo em mim se quebrou.

Como conviver com o furo que me constitui? Se a partir desse furo saem de mim todos os males. Pandora tenta capturá-los enquanto eu tento recuperar ao menos a esperança. E de todos os males que me afligem a alma, o pior é ter sanidade para perceber que perco não só a esperança como meu amor.

7.10.2010

Coleção de desejos

“Procura-se mulher fálica, autoritária e dominadora, para relacionamento desgastante e doloroso.”

“Procura-se homem com poucas manias, poucos desejos, poucas esperanças, e muitas fantasias.”

“Procura-se pessoa carente, triste e desiludida para exploração emocional.”

“Procura-se homem mais velho, para amizade ou paternidade.”

“Procura-se um milhão de metros quadrados de conforto e comodidade.”

“Procura-se pessoa bissexual para aventuras irresponsáveis, para fins de mascarar o sofrimento.”

“Procura-se roupa que quando sobre a pele modifique o interior.”

“Procura-se o batom vermelho perfeito que impeça o envelhecimento e a morte.”

“Procura-se alguma coisa pra sempre, e uma pessoa que nunca erre.”

“Procura-se o livro de regras do jogo da vida.”

7.02.2010

V

Ela o observava dormindo. Ele deitado, grande e peludo distribuído pela cama entre braços pernas e pêlos caídos pelo colchão. Ela escutava sua respiração difícil. O ronco de sua garganta que saía como um grunhido. Parecia tão feio, tão frágil, ali parado sem vida. Era até difícil entender o que a fascinava tanto, o que o fazia ser tão especial pra ela mesmo depois das traições assumidas, depois das brigas, das cobranças imbecis. Aquele homem deitado não era nem parte do homem que ela se apaixonou um dia. Aquele homem que grunhia e sonhava não era o que ela merecia, não dessa forma, não desse jeito meio morto meio vivo. E só assim com ele parado, imóvel, irreconhecível, ela teria coragem de fazer o que planejava há algum tempo.
Ela se perguntava o que ele estava sonhando. Com quais mulheres? Quais princesas? Quais mundos maravilhosos? Será que ele sentia o que estava prestes a acontecer? Com as luzes do pequeno apartamento apagadas, a luz da lua entrando pela janela conduzindo o caminho até a cozinha. No fogão o azeite fervia em uma leiteira velha. Aquele líquido dourado, belo, e vivo... Borbulhando.
Ela desliga o fogão. Caminha pelo quarto sorrateiramente, segurando em suas mãos o pano de prato bordado pela sua tia que protegia seus dedos do calor da leiteira. Ela para ao lado da cama, fica nessa posição por um longo tempo. Até que olha para o ouvido dele.