
Admirei o obelisco com o imponente nome do shopping, entrei nas intrigantes portas que abrem sozinhas, e passei pelas vitrines cheias de roupas incríveis que nunca vou ter, chego enfim a tão desejada Saraiva, fazendo as contas de quanto ainda resta de limite no cartão.
Parada na porta observo o ambiente sóbrio e chic que é peculiar das livrarias, me sinto em casa pela primeira vez desde que entrei no shopping, mas a sensação do som contrasta com a imagem, está tocando Justin Timberlake? Ou seria um algum rapper americano? Uma livraria tocando música pop, um contraste muito rude pra mim.
Viro meu olhar para a direita, e o que vejo? A placa Arte, meu coração até dispara! Enfim a felicidade! Ao me aproximar dos livros grandes, coloridos e cheios de imagens percebo que as prateleiras são divididas em assuntos, moda ganhou duas prateleiras inteiras, fotografia também, quadrinhos têm várias, e lá em cima a história da arte com um pedaço de prateleira, examino os livros com cuidado e concluo, não tem nenhum livro muito relevante de crítica de arte. Ó decepção!
Acabo me distraindo com os outros livros, e logo acho a prateleira dos livros de bolso. Benditas editoras que lançam livros de bolso a 10 reais! Interesso-me por alguns e acabo escolhendo um chamado A Arte de Escrever do filósofo alemão Arthur Schopenhauer. Fico passeando pelas prateleiras com o livro na mão e escuto alguns diálogos. Em um momento um garoto se vangloria com outro por ter lido Código da Vinci, afirmando que é um dos melhores que já leu, o outro afirma com certo ar de argúcia que não costuma ler. Meu pobre coração dói.
Mudo de lado, e me dirijo a placa Literatura Brasileira, confesso que estou um pouco por fora do mercado literário brasileiro. Bem no canto, formando o que seria uma vitrine, encontro os dois livros da Bruna surfistinha, e várias biografias, Garrincha, Raul Seixas, Renato Russo, Paulo Freire (esse eu fiquei feliz de ver). È isso... Nossa literatura se resume a uma prostituta-escritora (nada contra a classe das prostitutas, pelo contrário), e um monte de biografias de gosto duvidoso.
Já desolada pela decepção, escuto mais um diálogo lamentável, um homem gordinho usando um jeans de marca apertadinho nos genitais dizendo a uma mulher feia que adorou Quem mexeu no meu queijo, e os dois discutem o valor filosófico dessa obra, e quando eu achei que não poderia piorar ele pega Casais inteligentes enriquecem juntos e mostra para a tal mulher dizendo: amor, olha que livro bom, e ela – é deve ser muito bom mesmo. Depois dessa eu não agüentei, larguei o livro do Schopenhauer e fui embora.


