Dói porque tem que doer. Porque tem dia que a vida te chacoalha e dói.
Dói porque você tem que sentir que está vivo.
E incerto.
Não que a certeza seja algo de bom.
Nunca foi, ao menos pra mim.
Mas nunca gostei de incertezas, tão pouco.
Entretanto, vos digo, que está doendo.
Apertado, bem naquele ponto que fica no meio, ali.
Aquela angústia sabe?
Porque o dia de amanhã me reserva coisas tão estranhamente sem sentido e tudo mais.
Ando brincando de inventar verdades. De dizer que amo.
Ah, tudo isso pra esconder aquela solidão que corrói de um modo que não se explica.
Não se enganem, estou bem sozinha.
Porque ainda não aprendi a viver junto. Vivendo junto fico gritando por liberdade como se fosse a melhor escolha do universo.
Sabemos eu, sabemos você que não é.
Heróismo, medo, chamem como quiser.
Chamo de heróismo. Por estar de cabeça erguida e contrabalancear tudo com um certo humor quase que corrosivo.
Pessimismo, sei. Realismo, não.
O dia de ficar não chegou.
Não. Não é agora, não. Eu sei que não é.
Sei também que estamos, como há um ano atrás vivendo de verdades inventadas.
Ora. Se o ser que me fará ficar chegar, nada me impede. nada.
Nada mais do que laços desatados e músicas que nos prendem a qualquer sentimento que não existe.
Um dia. O porvir. Não sei.
Existo. Tempo presente e só.
Não sei. Não quero o que foi. Não sei o que será.
É clarice, Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível fazer sentido, eu não, eu quero uma verdade inventada.
Queremos não é?
É. mas o que faz sentido me pega hoje, a meia noite e meia. A realística verdade me consome e a verdade inventada já não tem tanta magia.
Mas, não quero o que é passivel fazer sentido, ainda.
O que é passivel fazer sentido não me parece bom.
Continuo com a verdade inventada. Mentiras sinceras. Poções de ilusão.
E fingimos e acreditamos que somos então felizes.
não somos, ninguém é.
Estou. Existo.
Ser?
ah, pede demais quando diz isso.
Existo como outro ser. Díspar de mim porque sei bem que não sou isso. Nunca fui.
Mas quem sou de fato. Não importa senão a mim. E sei.
E o mundo saberá quando for prudente e quando não precisar mais de verdades inventadas. Minhas mentiras são tão incrivelmente sinceras que nem eu desacredito.
Em todo caso, dói.
Mas não é insuportável a dor de viver.
Dor mesmo seria estar meio morta e não sentir nada.
Sinto?
Dor. E só.
Quanto ao resto dos sentimentos, a vontade de ficar e desnventar verdades...
...quando for a hora certa.
Se,
a hora certa chegar.
Entretanto, não me preocupo.
Existo sendo isso, não faz diferença, estou viva. não?
tenho esperança. E isso alimenta a tudo. E é isso que dá sentido a tudo.
Porque eu e a amargura nunca fomos amigas.
E os poetas se fazem de um certo barro estranho que os faz acreditar no incerto e gostar disso.
Viver inventado não dói. Sabemos voltar quando necessário.
Sabemos ser matéria viva de esperança quando tudo desaba. E sabemos não ser nada.
No fundo. Somos.
E isso basta.
E seremos felizes porque o horizinte é longo. A vida é bela. E a melancolia não é tão existente e má quanto se parece.
Esperança.
A tenho. E basta.