Anastácia acorda toda manhã um pouco mais cedo que o normal, só para ter o prazer de ficar na cama mais um pouco, como se estivesse transgredido alguma regra, ela acorda, desperta, e espera os 15 minutos decorrentes do seu adiantamento com grande satisfação. Depois se veste com carinho, ajeita a meia-calça com as mãos em movimentos delicados, orgulha-se de suas pernas, sempre se orgulhou. As meninas do ginásio a invejavam-na, pois o cobiçado professor Heitor de educação física uma vez elogiou a resistência de suas coxas, suas palavras ecoam em sua cabeça até hoje. E ela não controla o surgimento de um sorriso ao lembrar-se desse fato.
Ela se olha no espelho, ao contrário das pernas ela não gosta do que vê. Nunca gostou muito da carcaça com que nasceu, sente que aquela que ali está, do outro lado, não é ela. Um metro e meio de altura. Cinquenta quilos de carne, ossos, pele. Cabelo preto, comprido, liso, à força de tanto o esticar. Alguns cabelos brancos. Olhos escuros. Um nariz grande, redondo. Uma pele ruim, cheia de poros abertos, pontos negros, vermelhidões. Suas mamas parecem cada vez mais pequenas, cada vez mais caídas, como se fossem flores murchas dentro de uma jarra. O peso do tempo a preocupa. As vezes sente que desperdiçou parte da vida com o trabalho, teve poucas oportunidades de se envolver com homens. Ela lamenta.
Ao sair, pára em um sinal e um homem de meia idade sussura em seu ouvido: “Com esse cabelo preto deves ter um bom grelo. Lambia-to todo! Horrorizada Anastácia atravessa a rua, sentindo um calafrio percorrer suas costas. Derrepente se vê sobressaltada, e totalmente perdida na cidade em que nasceu e viveu toda a vida. Um ardor percorre seu sexo, e ele se humedece. Ela pensa em parar, em se virar. Vem a mente suas experiências com sexo; o ardor, a queimação, o incômodo causado pelo membro rígido que teima em entrar em um orifício que sempre permaneceu fechado. Seu estômago revira.
Ela acha absolutamente justificado o seu desprezo pelos homens. Por que Deus criou o corpo das mulheres para sofrer, ela sempre soube disso, são cólicas, dores no parto, dores no ato sexual. Será por isso que ela nunca sentiu prazer no sexo? Todos julgam-na frígida, mas ela sabe que Deus amaldiçoou as mulheres. Por isso não se importa com os prazeres carnais, eles não são para as mulheres. Mas em seu íntimo ela queria que ao menos uma vez os homens sentissem dor no sexo, para saberem um pouco do que são feitas as mulheres.