9.26.2008

Meu cabelo entre os dedos, a tesoura em outra mão.

Acordo, cansada, o corpo teima em permanecer deitado, reluto. Levanto meu tronco, e procuro os chinelos, caminhando lentamente me acostumando com o ar frio tocando a pele, entrando pelo nariz, invadindo meu corpo. Meu estômago revira e reclama a falta de comida. Os braços pesam... Caminho em direção ao banheiro. A porta. Jogo-me no acento do sanitário, como quem entrega o corpo a uma boca aberta, aguardo. Entrego-me...
Oiço o ronco da cama, é ele a se revirar entre os lençóis. E penso na noite anterior; o telefonema, o bar, a música, o convite, o sexo. Meu corpo adormecido por baixo do seu, as pernas moles, e a dormência, a semiconsciência. Percebo enfim como é ser mulher, ao sentir meu corpo como fim em si mesmo, como um material a ser carregado e cuidado para propiciar prazer ao corpo do outro. E minha mente enclausurada que habita esse ‘corpo-pele’ busca lucidez. É nessa hora que me lembro dos dizeres de minha avó: “Raríssimas mulheres sentem prazer, filha. O homem, sim. Então a mulher precisa fingir um pouco, o que não tem essa importância que parece. Temos que cumprir nossas tarefas, o resto é supérfluo. Se houver prazer, melhor, mas e se não houver? Ora, ninguém vai morrer por isso.”
Levanto e olho no espelho. Procuro meu rosto no reflexo, e percebo como deixei de parecer comigo. Decido que preciso de um corte novo nos cabelos, abro a primeira gaveta e pego a tesoura. Meu cabelo entre os dedos, a tesoura em outra mão. Corto minha franja e ela sai um pouco torta. Olho-me. Toda a vida menosprezei os conselhos de minha avó, com misto de pena e desdém, mas agora percebo como é melhor ser uma deusa morta do que uma mulher viva.

9.19.2008

eu Nunca quis. mas parece ser Mais forte que eu

Busquei por toda parte em mim uma forma de fugir do óbvio, mas às vezes o inevitável é tão potente que nos enlaça puxando-nos para o fatal. Segurei o choro, segurei a fala, segurei meu corpo na esperança de não reagir, fechei os olhos com força e prendi a respiração, esperando passar, mas foi mais forte que eu. Eu não consegui, e admitir um fracasso é mais doloroso que continuar suportando.
O que é justiça? Onde se encontra esse safado de destino que tem o humor mais negro que eu já vi? Eu tentei resistir até o último momento, mas as vozes na minha cabeça não se calaram. Meu corpo padece quando minha mente entra em conflito. Minha mente padece quando meu impulso subverte meu desejo. E eu expio meus pecados constante e dolorosamente. Cá estou eu desesperada agonizante, dentro de mim mesma, lutando para destruir a casca inabalável que criei. Olha pra mim. Onde foi que eu cheguei?

9.03.2008

Muitas saudades de escrever no blog, mas não encontro tempo.

Os dias vêm e vão e eu sinto que não me freqüento mais, estou precisando passear por mim, me perder em meus caminhos e reencontrar meus personagens para conversar, aposto que eles também sentem saudade de mim. Mas enquanto persigo meu coelho que me leva a lugares inóspitos e sombrios - ao contrário do coelho de Alice -, vou seguindo o sábio conselho de minha amiga "Aconteça o que acontecer... Continue respirando" ...

9.01.2008

Living in a ghost world...

Acabei de assistir a esse filme e não hesitei em guardá-lo no blog. Malditos escritores (principalmente os de quadrinhos) que compreendem tão bem o universo dos excluídos, não consegui me manter imune.

8.21.2008

Blog, pra quê?

O que pretendo nesse blog é um auto-retrato, unindo fragmentos meus, pensamentos e sensações. Faço uma Colage com tudo que há em mim, do mais profundo ao extremamente superficial. Coloco minha pele estirada nessa tela, pra me entender um pouco, e me delimitar com um debrum feito pela medida de outras pessoas. Transformo ar, sonhos, e olhares em material de pesquisa, a partir das minhas sensações descrevo meu universo, o inverto e o miro em um espelho e enfim o observo se definir. Busco meus alteregos, e sensações mais ricas para tentar me encontrar no cerne do meu ser. E com palavras e descrições vou traçando o quadro da minha personalidade.
Sinta-se à vontade para observar.

8.14.2008

Que tal nos olharmos no espelho e tentar vermos o que realmente somos?

Eu vou começar:
Sou morena, me acho demais, mais do que devia. Fui muito mimada quando era criança e me rebelei na adolescência. Passei a ser a ovelha negra da família, queria curtir a vida de forma intensa. Fiz tanta loucura e era tão impulsiva que engravidei aos dezessete anos. Abortei naturalmente no meio do ano. No final fui aprovada em um vestibular e me mudei para outra cidade. Morei sem pai e mãe por dois anos. Foi quando engravidei novamente para suprir a carência que o aborto me causou como mulher. Voltei para casa de meus pais e vivi, por quatro meses para minha filha, que é a minha vida. Voltei para faculdade, só que em outro curso. Quando minha filha fez dois anos consegui me enxergar novamente como uma pessoa separada dela. Somos companheiras e unidas, mas somos duas e não uma pessoa só. Foi quando percebi que estava deixando minhas ambições e meus sonhos de lado pela maternidade.
Tenho 23 anos e ás vezes imagino que tenho mais por cobrar de mim devido à maternidade. Se pudesse pedir uma coisa a um gênio da lâmpada pediria para lavar minha alma. Acho que me descuidei dela um pouco. Sinto-me sobrecarregada, os ombros pesados por não sei o que é. Mas pesa.
Muitas vezes concordo com a Marisa Monte: 'apagaram tudo, pintaram tudo de cinza' e me dá vontade de chorar, mas não sei o motivo. Sei, algo me incomoda, mas não consigo identificar para cortar de minha vida. Talvez sejam algemas que me prendem a algo, ou uma bagagem pesada que não seja útil a mim.
Sempre fiz minhas vontades, mas agora sempre que faço algo que quero me sinto culpada. Não entendo o porquê. Muitas vezes não consigo respirar também. Tem algo me sufocando.

(continuação)

Meu medo é que seja minha filha. Não ela como pessoa, mas minhas obrigações com ela. A responsabilidade de ser mãe. Espero realmente que não seja isto. Que sejam meus pais e a família desestruturada que tenho. Ou que seja apenas uma fase para que eu possa me engrandecer como ser humano.
Sinto muita falta de rir como ria antes. Rir com muita vontade. Meu sorriso era minha marca registrada. Todos falavam. Hoje sorrio menos e com menos intensidade.
O sexo vem me acompanhando ao longo de minha juventude. Interessei-me por ele muito nova, apesar de perder a virgindade aos 17. Mas me masturbava desde os 12, 13. Depois que terminei um namoro de 7 anos descobri que não era feliz totalmente no sexo com o pai da minha filha. Mas me reencontrei com meu primeiro namorado e enfim transamos. Entendemos-nos muito bem na cama. Ele me faz sentir-me viva e desejada. Nos braços dele sou mulher, mas tenho vergonha de assumir um relacionamento sério com ele porque ele é pobre, é feio, mas é a verdade. Não falei isto para ele, mas se ele tivesse uma situação melhor, eu ficaria com ele.
Hoje estou na metade do curso de jornalismo. Eu sempre quis fazer isto ou psicologia. Estagio em um lugar legal. Tenho um dinheirinho por mês que dá para sobreviver, mas não dá para me realizar. Estou buscando a independência feminina do século XX. A sociedade nos impôs isto. Mas me encaixo no perfil de mulher que não precisa de homem. Pelo menos me imaginava assim quando era criança. Tô na luta! Tentando ser o que eu quero ser. Mas não me lembro muito bem do quero ser. Então estou perdida!

(esse texto foi roubado, mas não poderia deixar de colocá-lo aqui, a verdadeira dona dele me entenderá)

8.11.2008

Estudos sobre fotografia.

(Estou lendo um livro sobre fotografia e senti vontade de organizar meu raciocínio. Estão aqui algumas considerações feitas por mim, uma pseudo-fotógrafa)
A caverna de Platão e a relação com a realidade faz-me tecer uma relação com a fotografia, que se compara a essa busca frustrada pela realidade. A fotografia modificou a realidade, a partir do modernismo, essa realidade (dentro da caverna) propõe novos conteúdos para serem vistos, e mais, observados. A fotografia é um fragmento do mundo. Miniatura de uma realidade. Ela é a técnica que mais se relaciona com a realidade visível.
Imagens que idealizam, como fotografias de moda, não são menos agressivas que as fotografias que valorizam a depressão. Existe sempre um conteúdo de agressividade implícito em qualquer utilização da câmera. Para Diane Arbus, o ato de fotografar era feio, ruim, e isso a interessava. O fotografo pode ser considerado um ser perverso, pois ele se distancia de seu modelo e lança sobre ele apenas um olhar desfragmentado pelo meio técnico fotográfico, não há entre ele e o modelo um relação mais abrasada como há na pintura por exemplo. O ato de fotografar pode ser considerado um ato violento. Podemos perceber, portanto um lado fetichista no ato de fotografar, e ser fotografado. Fotografar é um ato de não intervenção, voyeurismo puro.
A fotografia é um instrumento de poder, tanto do fotógrafo que detém o poder de congelar o tempo, a imagem, quanto o objeto fotografado que se torna imortal. A fotografia sempre foi considerada um bem de luxo. O evento ou pessoa fotografada se torna eterno, por isso é tão importante fotografar-se durante a vida, principalmente crianças. O fato fotografado também se valoriza, e o evento que é registrado por meio de foto sobrevive para sempre, e isso dá um peso e importância histórica que nenhum outro meio dá.
Podemos dizer que hoje estamos mergulhados em um consumismo estético acentuado, provocado pela utilização muitas vezes agressiva da imagem, somos viciados em imagem, sofremos uma poluição imagética mental. Esse fenômeno torna claro o prazer erótico contido na fotografia tanto de quem a tira quanto de quem a observa.
Hoje em dia tudo que existe, existe para começar ou terminar em uma fotografia.

8.07.2008

Gostaria de fazer um desabafo

Tenho uma namorada de 19 anos, que tem sido a fonte de minhas preocupações. Quando a conheci, há cinco anos, me pareceu a mulher certa, dotada de uma beleza encantadora, mas desprovida de inteligência, e isso me reconforta. Sempre gostei de manter meus relacionamentos sob controle e com ela não havia nenhuma dificuldade.
Apesar da forma respeitosa com que nos tratamos, que faria o maior incrédulo acreditar que nos amamos, eu sabia em meu intimo que havia deixado de amá-la há muito tempo, e o desejo por outras mulheres havia ressurgido de forma quase incontrolável. Pensei em contar pra ela sobre minhas vontades, pensei em dizer a verdade, dizer que a traí, mas fui covarde. Sei que ela desconfiava, mas nunca se manifestou.
Houve um dia que um pensamento me dominou: a passividade dela e compreensão com meus ímpetos só poderiam ser fruto de uma intensa culpa. Por que ela era tão compreensiva? Sei que não sou o melhor ser humano do mundo, e sei que ela teve que ceder a muitas imposições descabidas feitas por mim durante o relacionamento.
Quanto mais ela se dedica a nossa relação, mais desconfiava. A dúvida da traição me dominou. Ela passou a fonte de minhas preocupações. Será que ela resistiria à investida de outra pessoa? Por que ela se manteria fiel a mim todos esses anos? Tão indiferente e impecável.
Em meio a essa pressão eu a traí mais uma vez com uma amiga em comum, não me orgulho disso, mas pensei em mim naquele momento, e a vontade de sentir a boca de outra garota me tomou. Sentir a pele, o corpo o desejo de outra pessoa e não o habitual foi irresistível. Não quero que você leitor me perdoe, nem que me compreenda, mas apenas me escute, e perceba que a minha traição foi o estopim do meu ciúme.
Hoje eu sei que minha namorada é tão capaz de me trair como eu fui, dói quando ela é carinhosa, e às vezes quando fecho os olhos eu a vejo nos braços de outra pessoa. Percebi as duras penas que a traição é um doce veneno que subtrai aos poucos as defesas de quem o toma.

8.01.2008

Pessoas instigantes

Sou indiferente a maioria das pessoas, outras me desagradam mas há uma parcela mínima que me instiga.
Outro dia fiz uma lista mental das mulheres mais bonitas em minha opinião, e no meio de uma profusão de rostos me veio um que não consegui superar: como é bonita a cantora Zélia Duncan! Belo rosto, somado a uma bela voz, que casa bem com as rugas, e um jeito de mulher feliz, realizada.
Gostaria de ter as rugas maduras dela, e esse ar de mulher que sabe o que é.

Carta ao Dr. House.

Querido House,

Tenho uma confissão a fazer: tenho uma queda por você. Sim, isso é uma carta de amor, mas vou tentar não ser piegas, nós não temos paciência pra isso.
Sei que temos que ficar juntos, e como percebi essa verdade antes de você me sinto na obrigação de te alertar.
Você tem o humor mais fino que já encontrei em um homem, e quem me conhece sabe que eu não resisto a um senso de humor.
Não é minha intenção te idealizar, sei que você tem defeitos; è egoísta, característica que divide com todos meus ex namorados, acredite, eu estou acostumada a lidar com isso.
Apesar de ser um belo coroa de olhos azuis, por se dedicar muito ao trabalho não faz o tipo mulherengo, e isso traria paz e tranqüilidade a nossa relação. Com exceção das discussões calorosas que teríamos antecedendo ao sexo, é claro. Perdoe minhas fantasias, é que eu não reprimo meus desejos.
Acho que seríamos uma interessante mistura de anseio e indiferença, intenção e displicência.
Quem me conhece perceberia também que esse meu encanto não passa da minha velha carência de figura paterna. Mas ignorando minha saúde mental eu me candidato a ser sua namorada.
Ligue-me qualquer dia desses.

Com carinho

Rafaela

PS: Acho sua bengala um charme.

Comédia Dell'Arte

Colombina terminou um longo e complicado namoro há um mês. Seu ex namorado, Arlequim, era agressivo e impulsivo, e em brigas por ciúmes às vezes ela saia com hematomas, pequenos arranhões, roxos produzidos por beliscões. Ela tinha trabalho de esconder da família, mas conseguia.
Apesar da intempestuosidade do temperamento de seu namorado, Colombiana o amava e se sentia amada, segura. Seu coração derretia por ele.
Mas ela não pôde ficar indiferente quando Arlequim tentou a impedir de entrar na Faculdade – que era em outra cidade – e pela primeira vez ela quis terminar.
Na véspera de sua partida ele ficou enlouquecido e tentou matar a ambos em um acidente de carro. Ela conheceu o mostro que conviveu durante 5 anos. Mentiu, e conseguiu o acalmar. Teve que fugir no outro dia bem cedo, deixou o namorado e o amor que sentia pra trás.
Agora, reiniciando sua vida se rejubila por estar livre. Sente o prazer surpreendente de sair de um relacionamento doentio, completamente ilesa. Ela não sente culpa, não sente raiva. Agora ela está sem amarras, sem grilhões. Prova o prazer da liberdade, não imaginava como estava sedenta dela.
Uma amiga, ciente da situação, convida Colombina a uma festa no apartamento de um rapaz. Colombina bebe e tenta interagir com os convidados, a maioria bastante desinteressante. Um garoto grande e desajeitado tenta ser engraçado, mas a deixa entediada.
Em determinado momento ocorre um tumulto: uma garota se excedeu na bebida e caiu, levando consigo boa parte das garrafas de cerveja do congelador. Os convidados estouram em risadas. Colombina ensaia uma forma de ir embora, e nesse exato momento, em meio a confusão chega mais um convidado, um garoto de nariz engraçado e espessa barba escura, e Colombina sente o que temia sentir, seu coração derretendo. Ela estava novamente preza a uma pessoa. O amor.

7.21.2008

26 de Agosto de 1985

Estou no meu inferno astral, e preste a completar mais um aninho de vida, e como sempre a infelicidade tomou conta do meu ser nessa data tão querida.
Fazer aniversário nunca foi uma tarefa fácil pra mim, sempre fiquei confusa sem saber direito o que fazer, o que pensar.
É muito cruel passar de uma idade pra outra em apenas um dia, cria uma sensação ruim do tempo, que ele é traiçoeiro. Ninguém tem noção de mudança de idade sem ser no dia do aniversário. Você passa um ano se acostumando com o numero da idade que tem e de um dia pro outro temos que somar um. Mas como? De onde veio esse ano que eu não vi?
Nunca gostei muito de festa de aniversário, alias a única vez que eu me lembro de ter tido uma foi aos 10 anos, ela foi filmada e eu faço questão de não assistir a fita e ver o freak show que é minha família.
Aos 15 eu participei da festa de 15 anos da minha amiga. Fiz maquiagem, escovei o cabelo, coquei vestido rodado e tudo. Fiquei horrorosa. Nunca mais quis ver a fita também.
Meu aniversário de 18 anos não foi menos decepcionante, pois achava que seria o marco da minha vida, que daquele dia em diante tudo iria mudar, eu seria finalmente adulta, maior de idade, mas eu percebi que continuava a mesma. A mesma Rafaela de sempre... Oh decepção!
Na casa dos vinte, na qual me encontro não está diferente, pelo contrário, tudo uma mesmice. E mais uma vez a sensação que estou sendo usurpada na minha existência. Nada de felicidades, só mais anos de vida que coleciono inutilmente desde os 10 anos. Mais rugas, mais responsabilidades, menos presentes. Por mim continuava fazendo 10 anos até hoje.

Estou em luto pelo meu aniversário.

7.01.2008

Ditadura do orgasmo!

Seria tão bom se os templos religiosos se prestassem a fazer mais que ecoar cânticos aos Deuses. Seria tão enriquecedor se ao invés de decorar as passagens da bíblia de forma surpreendente os religiosos a interpretassem criticamente. Seria imensurável se o espaço de uma casa religiosa se voltasse para questões teológicas, estudos das religiões, dos textos sagrados, e não ser apenas um aglomerado de gente em busca de um bem-estar egoísta. As pessoas deveriam compreender que a busca de um Deus é mais antiga que a civilização ocidental, e a busca pelo consolo supremo é mais antiga que a fala. “O consolador” é uma entidade criada para acalentar as nossas tristezas. Sofremos desde a primeira inspiração. Isso vale tanto para o garoto pobre que nasceu na favela do Rio, quanto para o garoto rico que nasceu na Suíça. Todos sofrem. O que vale é aprender a conviver com as impossibilidades, e parar de dar dinheiro para os psicólogos oportunistas escritores de auto-ajuda.

6.07.2008

Shoppings, as novas cavernas.


Já é do conhecimento de todos que eu não gosto de shopping, mas como toda boa juizdeforana entediada fui conhecer o novo Independência shopping, envolvida pela vontade de encontrar uma livraria maravilhosa.
Admirei o obelisco com o imponente nome do shopping, entrei nas intrigantes portas que abrem sozinhas, e passei pelas vitrines cheias de roupas incríveis que nunca vou ter, chego enfim a tão desejada Saraiva, fazendo as contas de quanto ainda resta de limite no cartão.
Parada na porta observo o ambiente sóbrio e chic que é peculiar das livrarias, me sinto em casa pela primeira vez desde que entrei no shopping, mas a sensação do som contrasta com a imagem, está tocando Justin Timberlake? Ou seria um algum rapper americano? Uma livraria tocando música pop, um contraste muito rude pra mim.
Viro meu olhar para a direita, e o que vejo? A placa Arte, meu coração até dispara! Enfim a felicidade! Ao me aproximar dos livros grandes, coloridos e cheios de imagens percebo que as prateleiras são divididas em assuntos, moda ganhou duas prateleiras inteiras, fotografia também, quadrinhos têm várias, e lá em cima a história da arte com um pedaço de prateleira, examino os livros com cuidado e concluo, não tem nenhum livro muito relevante de crítica de arte. Ó decepção!
Acabo me distraindo com os outros livros, e logo acho a prateleira dos livros de bolso. Benditas editoras que lançam livros de bolso a 10 reais! Interesso-me por alguns e acabo escolhendo um chamado A Arte de Escrever do filósofo alemão Arthur Schopenhauer. Fico passeando pelas prateleiras com o livro na mão e escuto alguns diálogos. Em um momento um garoto se vangloria com outro por ter lido Código da Vinci, afirmando que é um dos melhores que já leu, o outro afirma com certo ar de argúcia que não costuma ler. Meu pobre coração dói.
Mudo de lado, e me dirijo a placa Literatura Brasileira, confesso que estou um pouco por fora do mercado literário brasileiro. Bem no canto, formando o que seria uma vitrine, encontro os dois livros da Bruna surfistinha, e várias biografias, Garrincha, Raul Seixas, Renato Russo, Paulo Freire (esse eu fiquei feliz de ver). È isso... Nossa literatura se resume a uma prostituta-escritora (nada contra a classe das prostitutas, pelo contrário), e um monte de biografias de gosto duvidoso.
Já desolada pela decepção, escuto mais um diálogo lamentável, um homem gordinho usando um jeans de marca apertadinho nos genitais dizendo a uma mulher feia que adorou Quem mexeu no meu queijo, e os dois discutem o valor filosófico dessa obra, e quando eu achei que não poderia piorar ele pega Casais inteligentes enriquecem juntos e mostra para a tal mulher dizendo: amor, olha que livro bom, e ela – é deve ser muito bom mesmo. Depois dessa eu não agüentei, larguei o livro do Schopenhauer e fui embora.

5.29.2008

Você sabe como é ser uma garota?

Aposto que você daria tudo pra saber.
Como é ter a pele macia
os cabelos compridos
o corpo curvilíneo.

Como é tentar parecer forte nesse mundo,
sem perder a delicadeza.
Ser cobrada, tolhida
e demonstrar graça e beleza.

Ter vontade de agir desordenadamente
mas ter que seguir regras,
Ser feminina
ser fêmea,
vc quer saber?

Como é amar um homem,
como é sentir os dedos dele entre os cabelos
sentir o coração disparar
a vulva umedecer
as pernas relaxarem

Os perfumes
As unhas
A bolsa
Querer ser algo além

Você nunca vai saber o que sente uma garota

5.26.2008

José Saramago assiste pela primeira vez Blindness.





Estou contando os segundos pra ver esse filme. Principalmente depois que eu vi a reação do Saramago.
Confesso que me emocionei e tive vontade de beija-lo como fez Fernando Meirelles.

Você se acha chata?

(Detesto me definir, mas não resisti a responder essa pergunta.)
Muitas vezes. Sou cheia de manias. Tenho carências insolúveis. Sou teimosa. Reclamo de tudo. Critico tudo. Não gosto de queijo. Tenho normalmente reações fora do comum, isso deixa as pessoas um pouco constrangidas. Às vezes calma de mais, às vezes nervosa de mais. Não gosto que mexam nas minhas coisas. Sou egoísta. Detesto que toquem minha orelha, adoro tocar a orelha dos outros. Não imploro afeto. Não sou indiscreta nas minhas relações. Tenho poucos amigos, porque acho mais inteligente ser seletivo a respeito daqueles que você escolhe para contar seus segredos.
Então, se sou chata, não incomodo ninguém que não queira se incomodado. Chateio só aqueles que querem ser incomodados, por isso me querem ao seu lado. Acho sim, que, ás vezes, dou trabalho. Mas é como ter um Rolls Royce, se você não quiser ter que pagar o preço da manutenção, mude para um Passat.

5.21.2008

Manhã de domingo

Na manhã de hoje Carlos Campos demorou um pouco mais a abrir os olhos, depois de certa idade os olhos se tornam pesados, a pele se aglomera sobre as pálpebras. O peso recai sobre o velho escritor somado ao sono. O corpo cansado levanta lentamente, passando as mãos pelo rosto ele tenta afastar os sonhos.
Hoje Carlos completa 83 anos, mas a importância dessa data incidi sobre seus ombros através de uma carta roxa recebida há uma semana. Com uma bela letra caligrafada, o nome Paola, seu coração maduro pára, era o convite de casamento dela.
Após o desjejum matinal, o escritor senta-se à sua mesa de escritório, lugar onde executou os maiores trabalhos de sua vida. Carrega consigo a carta roxa que lhe pesa o coração e lhe trás recordações do passado, ele vê a sua frente sorrisos, lágrimas, brincadeiras, bebidas, cata-ventos, uma garotinha de olhos grandes, magra e sorridente.
Escritor que obteve grande sucesso, mas há muito tempo entrou em franca decadência. Mesmo recebendo suporte de seus amigos jornalistas em colunas eventuais, Carlos percebe sem assumir, que é hoje apenas uma sombra do que foi há 20 anos, é como se uma maldição tivesse esvaído todo seu talento literário. Hoje se senta à mesa para escrever a carta mais difícil de sua vida.
Ele não se orgulha do que fez, mas sabe que optou pelo melhor para todos ao abandonar a mãe de Paola. Ele sabia em seu íntimo que não iria trazer felicidade ás duas, ele sabia que sua esposa mais cedo ou mais tarde iria descobrir a filha ilegítima, e para proteger a mãe e a bela garotinha que ele guarda em sua lembrança teve que deixar-las ir.
Pedir desculpas? Justificar que não iria ao casamento por doença? O que dizer a pequena Paola que agora é mulher feita? Ele sabia que desejava o melhor, o sorriso mais gostoso que ela pudesse dar, mesmo que ele nunca tivesse perto pra ouvir, mesmo que há muito tempo não ouvisse sequer a voz dela.
Ele nunca se explicou, nunca facilitou para ela compreender sua ausência, e agora ela lhe dá esse presente, um convite de casamento.
Sentado há frente de seu computador, ao olhar para a tela em branco, o escritor se deu conta que não tinha mais nada a dizer. O que não foi dito o silêncio se encarregaria de dizer. Pois depois de tantos anos o que restava de sua paternidade? Ele não se sentia no direito de participar dessa celebração, ele não cometeria a imprudência de comparecer. Covardia? E para se punir, ou se abster, ele se omite mais uma vez. Não responde ao convite. Se cala e chora.

5.19.2008

Beethoven: String Quartet, Op.135 (4° movimento)



(se eu fosse música eu seria sem dúvida essa)