7.06.2009

Atestado de Pobreza

O Atestado ou Declaração de pobreza é um documento usado para comprovar que uma pessoa não tem condições de pagar os custos exigidos para ter acesso a alguns serviços como: assessoria jurídica e segunda via do RG, entre outros. Não é necessário apresentar nenhum documento junto com a Declaração de Pobreza.Garantir que as informações presentes na Declaração são verdadeiras é responsabilidade do declarante.


Ou seja, a única coisa nesse país que você não precisa passar pela burocracia pra provar é que é pobre. Deve ser porque isso é óbvio já que somos brasileiros!


DECLARAÇÃO DE POBREZA

Eu, ___________________ (nome), RG ______________(nº do RG) DECLARO, nos termos da Lei nº 7.115, de 29 de agosto de 1983 e, para os devidos fins, de que sou pobre na acepção jurídica do termo, não dispondo de condições econômicas para custear ___________(nome do serviço solicitado), sem sacrifício do sustento meu e de minha família.
Por ser a expressão da verdade, assumindo inteira responsabilidade pelas declarações acima sob as penas da lei, assino a presente declaração para que produza seus efeitos legais.

São Paulo, ____, de _____________ de 200__.

__________________________________

(assinatura)

A Loira do ônibus I

Há alguns dias atrás estava no ponto de ônibus da Faculdade, quando vejo apontar na esquina o 525 cantando pneus, que parou no meio fio com uma manobra certeira. Eu e o rapaz que estava ao meu lado nos entreolhamos com uma mistura de susto e admiração. Em uma fração de segundo desce o motorista indignado com o celular na mão, gritando aos quatro ventos todo tipo de impropérios que devidamente censurados se resumiriam em: “não vou mais dirigir esse carro, ele está estragado e não vou ficar mais concertando!”.
No banco da frente estava uma senhora que me chamou atenção, ela ia pelos seus 50 anos de idade. Cabelos loiros na altura do ombro, ralos, e quebradiços. Estava vestida de calça jeans apertada, blusa estampada justa, muita bijuteria barata, e sandália amarela de salto médio. Percebia-se nitidamente que havia se arrumado além da conta.
Ela observava o motorista com olhar de pesar, e ficava pedindo ao trocador para ir conversar com ele, mas o trocador mal dava atenção para suas lamentações. Em dado momento ela chamou pelo nome do motorista e não sendo atendida fez um beicinho e ensaiou um choro infantil que também não surtiu efeito algum.
O tumulto se estendeu. O motorista ficou andando para todo lado gritando ao telefone; o trocador parado, olhando, tentando não se envolver; e a mulher loira tentando chamar atenção hora do motorista, hora do trocador, sempre sem sucesso.

A Loira do ônibus II

Em um dado momento escutei a loira falando ao trocador “É por isso que eu sumo, cara. Ele não te falou que eu sumi? Então, ele fica assim e me dá porrada na cara. Ai não dá. Ele puxa meu cabelo e me dá tapa na cara. Quando ele fica assim eu sumo mesmo, se não apanho.” Não pude deixar de notar que ela falava isso com um certo orgulho. Eu que estava do lado de fora do ônibus ouvi nitidamente, mas o trocador que estava dentro não soltou nenhum pio.
Finalmente todos entraram no ônibus e o trocador fez sinal que já iriam partir. Indo contra todos meus instintos de sobrevivência, entrei no ônibus. Ela se sentou ao lado do motorista e eu sentei-me do outro. Lógico! Fui ouvindo enquanto ela destilava seu monólogo com as perninhas cruzadas e as mãos entrelaçadas no colo, muito elegante.
A Loira dizia que havia feito uma operação de implante dentário e que teve de vender suas jóias; ela dizia “jóias a gente não precisa, mas dente na boca é importante”. Ela prosseguiu dizendo que ficou um mês em casa e que estava precisando sair, por isso pegou aquele ônibus com ele (o motorista). Em certos momentos ela completava “não posso falar muito, minha boca ainda está doendo”, mas mal terminava a frase e já ementava outro assunto, e o motorista nem se dava ao trabalho de responder, e nem mandar ela se calar. E ela ia contando sobre a operação e o quanto tava doendo, e nunca se calava. Nunca se calava.
Não fui capaz de recriminar a Loira, pelo contrário senti uma intensa simpatia por ela. Desci do ônibus e ela já havia desistido de chamar atenção do motorista. Tive que me controlar pra não me despedir dela com um abraço.

Horóscopo


Meu horóscopo hoje me deu uma boa lição de como me relacionar com as pessoas:

"Eis que a Lua torna-se cheia, formando uma oposição ao Sol, no eixo 1/7 do seu mapa astrológico, entre os dias 05/07 (Ontem) e 07/07, Rafaela. Estes serão dias delicados, onde a palavra-chave é ajuste dos relacionamentos: quem sou eu e quem é o outro? Até que ponto eu vejo o outro como outra pessoa, até que ponto perco a objetividade e o vejo como um espelho de mim? Todos nós tendemos a projetar coisas de nossas almas sobre as outras pessoas, em maior ou menor grau, e em alguns momentos específicos. Convém, Rafaela, neste momento, você avaliar melhor se aquilo que você tanto critica ou elogia em seu próximo está realmente no outro ou se é algo seu que se encontra projetado. Este pode ser um maravilhoso momento de complementaridade, em que surge alguém com as peças que faltavam para você montar um quebra-cabeças, mas pode também ser um momento de confronto, em que dolorosamente alguém lhe enfia o dedo na ferida."

7.03.2009

Pina Bausch est morte.


Fiquei infinitamente mais tocada pela morte da Pina Bausch do que pela do Michel Jackson. Nada contra o dito Rei do Pop, mas suas contribuições para música para mim são mais do que duvidosas.
Há certas mortes que vêem para acolher, encerrar, mas outras, como é o caso da Pina Bausch, soam como uma grande perda.
Na minha humilde opinião foi um prejuízo para os apreciadores da fina Arte.

6.26.2009

Tira a calcinha e põe a calcinha... (ao mesmo tempo?)

(Sarah Lucas - Chicken Knickers)

Minha amada

(Étant Donnés - Duchamp - Última obra do artista, seria uma metáfora sobre a morte da arte? Ou uma despedida da amante que permanece entregue, sedenta e inatingível?)

Há cinco anos estudo Arte. E hoje mais do que nunca estou envolvida e decepcionada com ela. Arte é uma amante sensual e ingrata. Daquelas que usam perfume barato e lingerie vulgar, mas sabem dar prazer como ninguém.

6.16.2009

Sexo do Senhor!

Me perdoem os evangélicos, mas não poderia deixar de publicar essa pérola literária. Ouvi falar desse texto em que Edir Macedo (no livro Castigo Divino) explica como deve ocorrer uma relação sexual e nunca acreditei, até que me deparei com ele na íntegra em uma das minhas pesquisas pela internet. Fiquem com esse precioso raciocínio:

Posição Recomendada: O homem e a mulher devem lavar suas partes com 1 litro de água corrente misturado com uma colher de vinagre e outra de sal grosso. Após isso, a mulher deve abrir as pernas e esperar o membro enrijecido do seu parceiro para iniciar a penetração.

O homem após penetrar a mulher, não deve encostar seu peito nos seios dela, pois a fêmea deve estar orando ao Senhor para que seu óvulo esteja sadio ao encontrar o espermatozóide. Depois do ato sexual, os dois devem orar, pedindo perdão pelo prazer proibido do orgasmo. Como penitência, o açoite com vara de bambu é aceito em forma de purificação.

Angu Doce

Nem sempre ir ao supermercado é uma experiência banal. Outro dia me bateu um desejo, desses que não só as grávidas usufruem. Necessitava com todas as minhas forças comer angu doce. Sim, essa iguaria característica dos lares menos favorecidos economicamente.
Constatei com pesar que não haviam os ingredientes necessários a feitura desse quitute. Dirigi-me ao supermercado mais próximo, apesar da dor nos pés devido as bolhas que me saltavam nos calcanhares. Malditos sapatos novos!
Enfiei-me, então, entre as prateleiras de cereais. Estava absorta na interessante tarefa de comparação de preços e marcas de fubá, quando escuto um grito histérico. E um grito histérico em tempos de pandemia de gripe e aumento da passagem de ônibus merece nossa atenção.
Fiquei atenta ao que estava acontecendo e olhando para o chão, o que vejo? Um rato! Sim senhores, um rato grande, marrom, de rabo comprido, nojento, atravessando correndo o corredor por baixo das prateleiras.
Fiquei paralisada, me esqueci de tudo: do fubá, da dor do calcanhar, da crise mundial, do aumento da passagem. Estava em choque. Peguei qualquer fubá, me dirigi ao caixa e jurei que nunca mais pisaria naquele supermercado imundo. Mas é lógico que esse juramente durou até a tarde do dia seguinte quando precisei comprar pão.
Para os que ainda têm estômago para comer ai vai a receita de angu doce.

Ingredientes:
8 colheres de fubá;
4 colheres de açúcar;
250 ml de leite;
Pitada de sal;

Modo de preparo
Jogue o leite frio em uma panela, e acrescente o fubá, depois o açúcar, e vá mexendo. Pingue mais leite aos poucos até atingir uma consistência pastosa. É bom colocar uma pitada de sal para dar mais gosto. Coloque em um recipiente, espere esfriar e coma com café ou chá.

5.27.2009

Nesta baiuca não reinará mais o silêncio e o vazio.

Não escrevo há semanas, no começo por opção, mas depois por imposição do tempo – ou a falta dele-. Mas agora torno medida de honra escrever esse final de semana. Irei escrever para mim e por mim, como sempre fiz!
Nem que eu use como assunto a última cistite que tive! Ou disserte sobre minha última bolha no pé. Nem que tenha que fantasiar um acontecimento, como muitas vezes fiz!
Deixo aqui marcado um pacto com meu fedido blog que desse final de semana minha afasia não passa!!!

Claude Cahun


Ela raspou a cabeça;
Fazia peças que desconstruía a imagem das princesas dos contos de fadas;
Era amiga de artistas surrealistas;
Fazia trabalhos fotográficos que questionavam o estatuto do machismo;
Lutou na resistência contra o nazismo;
Executou trabalhos revolucionários em fotografia;
Foi presa e torturada;
Era homossexual assumida;
E isso tudo entre 1894 e 1954;

Essas informações são para nós mulheres - privadas do domínio sobre nós mesmas - lembrarmos quando formos ao salão e sairmos indignadas, nos sentindo castradas, porque o viadinho do cabeleireiro cortou um dedo a mais do cabelo do que gostaríamos.



5.06.2009

Sem poesia!

Ando nada poética por esses tempos, acho que é reflexo da falta de poesia no meu cotidiano. Não por culpa minha, ou por culpa dos acontecimentos em si, acho que são as pessoas que andam pouco criativas em suas atitudes. Tem havido uma sucessão maçante de atitudes previsíveis e desinteressantes. As pessoas continuam com as mesmas inseguranças de sempre, as mesmas mentiras de sempre, as mesmas tolices de sempre, os mesmos delírios de sempre. Por que a gente não tenta, nem que seja por um segundo, sair do padrão e surpreender? O comum é se aborrecer? Então vamos ignorar. O padrão é ignorar? Então vamos nos aborrecer!
Estou na expectativa de ser surpreendida.
Deixem de ser chatos!

Bajofondo



Minha descoberta musical de 2009. Não consigo sair na rua sem estar ouvindo de fundo essa batida, ela vai ritmando meus passos e vou vendo o mundo como um clipe de tango eletrônico. Vou andando e transformando as pessoas a minha volta em personagens dessa história: amores, desamores e figurantes. Como se todos fossem cúmplices do meu prazer auditivo pessoal. Puro egoísmo sonoro.

4.08.2009

Artemisia Gentileschi

(Judith Beheading Holofernes 1611-12)

Meu blog não se presta a ser uma enciclopédia, longe disso, no máximo uma fonte de referências de meu (mal?) gosto pessoal, nada mais que isso. Não estou aqui pra ensinar nada a ninguém, pelo contrário. Mas vou abrir uma exceção a uma mulher que me encantou desde a primeira vez que ouvi seu nome: Artemisia Gentileschi.
Ela viveu em uma época em que a pintura como todas as outras áreas do conhecimento eram dominadas pelos homens. Não que as mulheres não fossem capazes, mas infelizmente a elas era vetada a entrada como aprendiz nos ateliês dos mestres.
Artemísia nasceu em 1593, filha de um pintor talentoso de Roma e com ele aprendeu as técnicas de claro/escuro do Barroco da época. Quando era muito jovem, por volta dos 15 anos, foi entregue aos cuidados de um amigo do pai, um homem mais abastado para que pudesse prosseguir nos estudos de Arte. Artemísia fora então violentada e explorada por esse homem. Um processo judicial demorado sobre o fato foi aberto deixando a vítima mais constrangida. Se hoje um processo de investigação de um estupro é penoso imagina no século XXVII!
No final o estuprador chamado Agostinho Tassi saiu praticamente imune por ser um homem bem colocado socialmente, soube manejar a situação a seu favor. E Artemisia seguiu sua vida, casou-se, mas teve que trabalhar muito para sustentar sua família, pois seu marido viciado em jogo apenas contribuía para que as dívidas se acumulassem...
Meu reconhecimento a genialidade de Artemísia parte do pressuposto não só dela ser uma excelente artista, por saber se comunicar muito bem com a linguagem visual - como vemos no quadro acima-, mas também por ser uma das primeiras feministas que se tem notícia. Além de seu talento não reconhecido, sua força! Podemos dizer que Artemisia é uma mulher que sabia da necessidade de se cortar a cabeça de alguns homens, e isso merece nosso respeito.

4.03.2009

Lambe Lambe

De Elisa Lucinda

[Fui a um sarau de poesia ontem e depois de ouvir muitas poesias – algumas de boa qualidade outras sofríveis – fiquei pensando: de todas as poesias que conheço qual recitaria em público? E me veio à cabeça a Elisa Lucinda, ai tive certeza, é essa poesia à baixo que recitaria.]

Passam muitas pessoas no saguão dos aeroportos.
Passam neste aeroporto da agora,
e eu, no meu pensamento,
não me comporto,
imagino elas fodendo:
fulano com fulano,
são casados, gozam, fazem planos?
E ela, quer logo que acabe?
E ele, penetra rosnando?
Fantasio as inúmeras possibilidades de encaixes,
em como foram as noites de amor que tiveram para fazer essas
crianças chinesas africanas alemãs francesas mexicanas libanesas
brasileiras cabo-verdianas espanholas cubanas holandesas
senegalesas turcas e gregas.

(meu pensamento é inconveniente mas ninguém sabe,
escrevo num café, estou, por fora, muito chique no cenário
e nitidamente estrangeira.)

Agora passam dois homens.
Sentam à mesa ao lado.

Falam germânico mas a tradução é da mais alta putaria,
Uma iguaria da mais pura sacanagem!
Eu sei, são gays. Eles não sabem que eu sei.
Pensam que escrevo o abstrato
E capricham descansados ao colo do idioma que não alcanço.
Mas sou poliglota na linguagem dos molhares,
cílios a mais antiga cortina do mais antigo teatro
na pátria universal dos gestos, meu bem!
Eles não escapam.
Um chupa muito o outro, que eu sei,
e o magrinho gosta de dar por cima e de lado.
Importante dizer que dentro desse meu pensamento safado
também não tem pecado.
Só me diverte
Ver o que todos negam,
O que não se diz no social,
Uma radiografia verbal da intimidade alheia é o que faço aqui,
Sem que ninguém suspeite,
Sem ninguém me permitir.

Aquele tem pau pequeno e, pior que isso,
e, mais que suas parceiras, acha isso um problema.
Aquele ali também tem, mas arde na cama e se empenha muito
compensando a diferença.
Aquela, num outro esquema,
diz não gostar da coisa
e fala sem parar.
Só uma pirocada de jeito para fazê-la calar.
A gostosa gordinha engole a espada todinhada
quele altão desajeitado,
cujo grosso membro se torna,
em meio às coxas dela, disfarçado.

E o velhinho punheteiro
De pau mole com jornal no colo?
Talvez seja o único a adivinhar o teor dos meus escritos,
dado que me olha dissimulado e constantede modo a nunca perder meus segredos de vista.

(Com licença mas é dessa matéria hoje minha poesia)

Enxerida, vejo a mulher com cabelo cortado à la moicano
Com a menina que iniciara a tiracolo,
Feliz sem ser por ela lambida
E sem saber no que estou pensando.

Passam as pessoas
no saguão do aeroporto,
fingem que fazem check-in
fingem viajar sérias e de férias,
fingem estar trabalhando...
mentira,
pra mim ta todo mundo trepando!

Frankfurt, 6 junho de 2002

3.31.2009

Somos crioulos do morro

Tenho pouquíssima tolerância a estrangeirismos, sou uma nacionalista besta e deslocada. Adoro a cultura do meu país, adoro nossa língua, nossos costumes. Eu sei que não somos perfeitos, sei que nos falta sofisticação e elegância, talvez um pouco de estudo, mas só dou o direito desse tipo de crítica aos brasileiros, nada de estrangeiros dizendo como somos e como vamos.
Com estrangeiros tenho pouca paciência, com os brasileiros metidos a estrangeiros não sobra um pingo de compreensão. Nada mais pavoroso do que ver um brasileiro se comunicando em outra língua, tentando desesperadamente parecer mais sofisticado do que realmente é. O pior é quando a língua eleita é o inglês, porque achar que ninguém está entendendo é um equívoco bizarro. Aos equivocados eu digo: minhas crianças, inglês é língua universal, até nas escolas de zona rural há professorinha de inglês.
Ou se a pessoa tem a sorte de aprender alguma língua pouco comum se aventura a falar e escrever na tal língua com todos, sem tomar conhecimento que ao invés de impressionar está passando por parvo, por estar falando uma coisa que absolutamente ninguém está compreendendo. Uma palavrinha ou outra vá lá, mas frases inteiras? Ai já é demais.
Eu entendo a influência de outras línguas em nosso idioma, isso é interessante para o enriquecimento dela, mas não compreendo a desvalorização da nossa cultura quando um jovem prefere usar gírias em inglês ao invés de tentar se expressar na sua língua natal.
Não sei se estou sendo careta, ou reacionária. A questão é que um dia desses um ser adepto aos estrangeirismos teve a pachorra de me dizer que o Brasil não tem cultura própria, com alguns minutos de conversa percebi que o infeliz não fazia idéia do que se tratava a palavra cultura, mas mesmo assim me chocou.
Ver um brasileiro se expressando em outra língua pra mim é como ver um negro no apartheid usando linguagem de branco. Vamos tentar valorizar mais a nossa “crioulice”, e parar de se envergonhar dela. Como dizia o mestre Bezerra da Silva: somos crioulos doutor, mas ninguém roubou nada!

Madame Nazaret

(by Diane Arbus)

Madame Nazaret era a segunda mãe das meninas, enchia-as de mimos e carinhos. Sabia conduzir a situação para que elas fizessem o que queria sem nem perceberem. Nazaret tinha o dom raro de fazer tudo parecer mais bonito, mais poético. Ela conduzia os negócios como ninguém. Manejava os desejos dos homens e os medos das garotas, era respeitada por todos e alguns clientes até a chamavam de mãe.
Estipulava leis rígidas em sua casa, tanto para os clientes quanto para as garotas. Ela acreditava que vendia amor, e que o seu casarão se transformava no paraíso duas vezes por ano, quando oferecia festas homéricas.
Madame Nazaret era uma matrona corpulenta, cheirava a maquiagem ordinária. já passava dos 50 anos, mas isso ninguém sabia ao certo, jamais revelava sua idade. Era conhecida pela sua ruidosa gargalhada, que em noites animadas era ouvida à alguns quarteirões do casarão, o que escandalizava as beatas e as senhoras conservadoras em seus respeitáveis lares.
Chamava atenção por sua brancura de nácar, e seu grande peito de soprano era coroado por uma magnólia artificial. Usava sempre vestidos escuros de veludo muito apertado, que contrastavam com os olhos de água quase translúcidos, e os cabelos pretos caídos como um manto da cabeça. Usava brincos pendentes, e um sinal pintado a lápis na face direita.
Ela recebia todo tipo de autoridades locais e há quem diga que até o governador andou freqüentando seu jardim.
Chamava as meninas de passarinhas, pois chegavam assustadas e fugidias, mas logo se emplumavam e soltavam belos cantos. Nazaret se emocionava com o amadurecimento das passarinhas e as impulsionada a alcançar vôos mais altos.
Ela ensinava tudo sobre os homens às meninas, e parecia que ela os conhecia como ninguém. Madame Nazaret as direcionava tanto nas carícias na cama quanto no relacionamento fora dela. Só de bater os olhos em um novo cliente Mandame Nazaret sabia exatamente o que precisava e o direcionava ao ninho da passarinha certa. Nunca errava.
Essa resistência à vida Nazaret aprendeu só a custo dos erros do coração. Quando ainda mocinha entregou-se ao homem errado que aos poucos a ensinou pelo caminho mais árduo e penoso como lidar com as armadilhas do amor.

3.20.2009

Pequeno delito


Que mulher nunca sonhou em entrar em uma loja cara, ir ao provador e colocar aquela blusinha incrível dentro da bolsa? Ou surrupiar aquela presilha de cabelo da loja entulhada de gente? Quem nunca quis enfiar na bolsa aquela barra de chocolates finos da biscoiteria? Quem nunca planejou sair do restaurante sem pagar? Ou passar despercebido pelo guichê do estacionamento?
Querer levar vantagem sobre os outros é genuíno da nossa espécie!
Há pouco tempo estive com uma velha amiga e ela me disse que deu um prejú de R$700,00 a uma grande loja de departamentos. Ela me explicou seu método passo-a-passo, ela entrava na loja, escolhia as roupas que não tinham aquele botão de segurança, e enfiava na bolsa. Depois pegava algumas outras e ia no trocador, lá ela ajeitava as roupas dentro da bolsa, conferia se não tinham botão e saía da loja como se nada tivesse acontecido. Ela me mostrou seus troféus um por um dizendo o preço que não pagou. Aposto que ela não decoraria se tivesse pagado.
Eu jamais teria coragem de fazer tal coisa, sou do tipo que não colava no colégio porque ficava nervosa demais pra abrir o papelzinho. Mas essa semana fui comprar umas coisinhas pra mim. Entrei numa loja de roupa conhecida na cidade, e fiquei zanzando igual uma palhaça e ninguém veio me atender. Não tem nada que me irrite mais do que falta de educação, ou ser ignorada por atendente nojentinha. Lembrando de minha amiga dizendo: “Mas a coisa mais fácil é entrar em uma loja dessas que o atendimento é péssimo, pegar uma peça e ir pro trocador e por na bolsa.” Peguei, então, a roupa que me interessou e fui pro trocador. Quando cheguei lá pensei “vou vestir e se ficar bom meto-a dentro da bolsa e saio, e ainda faço cara de desdém, do tipo ‘nada aqui serve pra mim’”. Mas na hora que eu estava no trocador a roupa ficou tão horrível que eu não quis ter o trabalho de roubá-la. Saí da loja decepcionada e envergonhada achando que todo mundo sabia o que eu planejava. Sou tão fiasco como ladra que fracasso até sem roubar nada.

Keith Maria


Keith Maria foi abandonada pelo noivo no altar. O noivo não compareceu ao casamento, apenas mandou um recado pelo irmão dizendo que mudou de idéia. Só isso. Keith foi pra casa, não quis falar com ninguém, não quis receber condolências de ninguém, a única coisa que ela quis consigo foi o bolo de três andares recheados com pasta de ameixa e doce de leite com coco e cobertura ornamentada com o melhor chantilly extra cremoso.
Keith Maria já no taxi, ainda vestida de noiva, começou a desenvolver este precioso raciocínio:
Minha mãe me avisou! ‘Não case com esse cara que usa boné, homens que usam boné não prestam! ’ Faz sentido, boné é coisa de criança ou homem careca, se o cara não é uma coisa nem outra só pode significar infância tardia. E nada pior do que homem com síndrome de Peter Pan, aquele tipo eterno crianção.
Sabe o que é pior de ter relacionamento amoroso? É ter que mentir. Eu menti do começo ao fim; disse que ele não irá ficar calvo, que o pênis dele não era tão torto assim, ‘Não querido, seu pênis não é de gancho’. Que gostava do sexo oral dele. Que era virgem quando o conheci. Se eu for por inferno por mentir, a culpa vai ser dele! Sobre o lance da virgindade, bem... Quer dizer, teve o Marcos, mas ele não conta porque tinha o pirú pequeno. Enfim, a questão é que eu menti mais que viúva de padre!
E sabe do que eu mais me arrependo? Não ter mandado aquela porca da minha sogra ir à merda. Ela ficou lá na igreja com um sorrisinho no rosto. Cretina! Por culpa dela emagreci 5 kg nos últimos meses. Ela me entupia de mamão com aveia e todo tipo de laxante natural, dizia que mulher que não caga bem não tem saúde pra ter filhos. Quem disse que eu quero ter filhos? Velha ordinária!
Eu sabia da personalidade instável dele, sabia que ele possuía os dois defeitos clássicos masculinos: alcoolismo e infidelidade. Sabia que ele não tinha o costume de lavar suas próprias cuecas, e isso pra mim é falha de caráter. Sabia do gosto duvidoso por filmes de ação e gomas de mascar. Sabia que ele gozava rápido demais. E pra fechar tinha o péssimo hábito de suar o nariz em público, inclusive em restaurantes! Bem, não posso dizer que fui enganada, e sim que me enganei.”
Depois de passar e repassar todos os erros e arrependimentos de sua relação Keith Maria se atirou sobre o belíssimo bolo de seu casamento e o fez desaparecer em menos 20 minutos.

Conceição

Depois de uma paixão, assolapada e imbecil, uma mulher, quando finalmente deixa de gostar de um homem, passa por várias fases. Há a fase da surpresa. Há a fase do alívio. Há a fase do nojo. Há, por fim, a fase do vazio.
Com Dr. Juarez dos recursos humanos, foram 6 meses de intensa desordem emocional e uma dezena de meias-calças rasgadas nos pregos protuberantes da mesa do escritório. Depois dos 6 meses e alguns telefonemas desesperados de ameaça ao casamento sólido e tedioso do Dr. Juarez, Maria Conceição está finalmente consciente e feliz em sua própria pele, e com o fim de seu caso sem futuro. Um belo dia Conceição banhada de suor, sentada na recepção, coroada por um ventilador de pás empoeiradas que rodava ritmicamente ressoando um ranger hipnotizante, levanta o olhar e diante da porta entreaberta vê Dr. Juarez almoçando um hambúrguer com fritas e coca média em sua mesa de escritório. Ele tenta abrir o catchup com os caninos em vão, experimenta então os pré-molares, também fracassa, e quando finalmente consegue um minúsculo buraco a pressão excessiva feita pelos dedos gordinhos sobre o saquinho o faz esguichar e sujar toda a camisa. Maria da Conceição percebeu, nesse preciso instante, que, relativo ao seu chefe, apesar de tudo o que acontecera, apesar de tudo o que estava para vir, não seria capaz de passar pela fase do nojo. Pois referente àquela criatura a sua frente a única coisa que conseguiria sentir é piedade.

2.28.2009

cinéfilos anônimos

Quem freqüenta locadoras de vídeo sabe que existe uma ordem secreta de cinéfilos solitários. Pessoas que tem como hábito assistir pelo menos um filme por semana. E o mais interessante nessa seita é que seus adeptos se reconhecem. Eu, por exemplo, freqüentei bastante uma locadora de minha cidade natal nesses últimos meses e percebi claramente essas pobres almas. Com um rapaz em especial criei uma ligação, ele me acompanhava com os olhos e observava minhas escolhas, um belo dia – não me lembro bem por quê - conversamos e logo começamos a nos ajudar nas escolhas dos filmes. Toda semana nos víamos, o flerte ia muito bem nos nossos encontros casuais devidamente premeditados pelo hábito.
Um belo dia estávamos no guichê lado a lado quando a atendente gordinha com cara entediada se dirigiu a ele, e por uma fatalidade consultando sua ficha nos anais do sistema, com uma voz robotizada disse: “O Sr. Está com 3 pornôs aqui em aberto. Será necessário efetuar o pagamento pra fazer mais locações.”
Eu lancei uma olhar de soslaio a ele, que retrucou com um rubor na face, estava visivelmente envergonhado. Ele tentou se explicar pelo o que dizia à atendente, que se tratava de uma locação feita pelo primo, em algum momento, por algum motivo que não me ficou bem claro. A atendente não se deu nem ao trabalho de responder a desajeitada explicação, e o rapaz em meio ao fiasco da elucidação enfiou a mão na carteira e pagou os filmes.
Eu não tenho nada contra os adeptos da pornografia, mas não pude conter um risinho de deboche vendo a situação embaraçosa que meu paquera se meteu.
Depois disso ele nunca mais voltou aos nossos encontros casuais premeditados.
Para quando o bege ficar marcado de vermelho...

Velhas amantes

Não gosto de livros novos, com páginas esbranquiçadas e de difícil manejo. Abre-se com dificuldade, e temos que vira-lo para ler as letrinhas que teimam em se esconder no encontro virginal das páginas.
Gosto dos livros antigos porque são pra mim como velhas amantes, já marcados pelas mãos de todos que desfrutaram de seus prazeres. Gosto dos livros que se abrem facilmente com uma mulher sedenta de amor. Apaixono-me por eles, principalmente quando exalam um perfume marcante e irresistível, perfume de livro velho. Trato-os como minhas concubinas, mais amadas e deliciosas da terra.

2.15.2009

Trecho do livro Amor em tempos de cólera

Trânsito Ariza vendo seu filho condoer-se de amor a espera da resposta da carta dada a sua amada, diz sábias palavras :
"Aproveitou a pausa da convalescença para repreendê-lo pela passividade com que esperava a resposta à carta. Lembrou a ele qua os fracos não entram jamais no reino do amor, que é um reino impiedoso e mesquinho, e que as mulheres só se entregam aos homens de ânimo resoluto por que lhes infundem a segurança pela qual tanto anseiam para enfrentar a vida."
Sábias palavras!

2.11.2009

Assistam


Escrevo

escrevo errado por que penso errado
já que sou errada e nasci de um erro
escrevo errado pra ficar mais leve
pra viver mais solta

escrevo errado por que não sei
como é sentir
já que me esqueci
de como se faz

escrevo para assumir meus erros
tirar minhas mágoas
pra entender meus acertos

erro por ser humana
ser eu
serumano

1.27.2009

The boss


Fui a uma entrevista de emprego ontem. Demorei dois dias para decidir que roupa usar. Optei por um jeans de qualidade, uma camisa de botão de tecido fino, sapato de salto e brincos de argola (não sei por que, mas acho que brinco de argola passa credibilidade), e currículo debaixo do braço.
Chego ao local adiantada e tentando disfarçar meu nervosismo. Depois de esperar duas eternidades entrei na sala do futuro chefe. Detesto essas situações em que tenho que fingir o que não sou, calculo meus movimentos para parecer menos desajeitada, me esforço para ser mais educada do que realmente sou, tento mostrar que estou interessada no emprego sem ter certeza disso.
Sempre fui muito sincera. A verdade é um maldito hábito que cultivo.
O futuro chefe têm cabelos brancos e ralos, baixinho e com óculos grandes de aro redondo, parecia ingênuo e despretensioso, mesmo sentado atrás da imponente mesa de cerejeira. Simpatizei com ele.
Então começa a tortura, e eu sentada á sua frente tentando dizer a coisa certa (ressalto que nunca fui boa nisso).
Em certo momento o Sr. futuro chefe sai de trás da bancada com meu humilde currículo nas mãos e senta na quina da mesa, bem na minha frente. Nesse exato minuto o tempo parou. A sala congelou e o pingo de suor que descia na minha têmpora estacionou. Eu estava de cara com os ‘bagos’ do meu futuro chefe. Eles saltaram e se encaixaram perfeitamente ao lado esquerdo pelo canto da costura da calça, por cima da perna no momento exato em que ele sentou. Bem na altura dos meus olhos! Como não olhar? Estavam lá olhando pra mim, e eu pra eles.
E meu maldito senso de humor gritava na minha cabeça ‘Que velho bagudo!’ E eu lá firme! Impacível! Gelada, tentando parecer fina. E o chefe falando coisas que eu sei que devia ter prestado atenção. Como não rir?
É impressionante quando a gente acha que já passou por tudo na vida sempre aparece uma coisa pior.

Eu e o poeta

Um dia vou me envolver com um poeta.
Terei um relacionamento relâmpago,
intenso e carnal.

Serei maldosa e dissimulada
Só pelo prazer de me ver exposta em palavras,
Descrita
Aberta
rasgada

Irei provocá-lo
até fazer seu íntimo sentir necessidade
de me mal dizer em poesia.

Escrito em letras rápidas no papel,
respingado de suor, lágrimas,
esperma

Não deve existir nada como ser xingada em poesia!

Amor

Eu busco uma palavra para substituir o calejado ‘amor’. A meu ver ele já se esvaziou de sentido, sendo desperdiçado por ai - de outdoors a puteiros. Eu lamento.
Amor é uma palavra ingrata. Acho errado a usarmos para definir uma amplitude tão vasta de sentimentos, desde amor maternal ao sexual, tudo é chamado amor. Eu amo várias pessoas de formas e intensidades diferentes, para cada uma eu gostaria de inventar uma palavra.
Ou casais melosos que o gastam a exaustão, deixando qualquer pessoa que assista enjoada, principalmente se a garota tiver o degenerado hábito de prolongar as vogais: amoooooooooooooor vem cá! Conheço vários assim... Detesto.
Essa palavra devia ser sagrada, e só dita em ocasiões especiais. Em eventos sociais onde as pessoas se juntassem vestidas com as melhores roupas, exalando o melhor perfume, bebendo boa bebida de um buffet cheio de frescura. Só pelo prazer de ouvir um ‘eu te amo’ sincero, dito com o coração. Assim seriam os casamentos.
Mas eu entendo a dificuldade das pessoas com essa palavra. Não é fácil amar, e na maioria das vezes a gente nem tem certeza se ama ou não. Amor é verbo intransitivo, não têm sujeito, amar anula a pessoa que ama. Por isso é tão difícil amar.

1.20.2009

Mamy

Nesse momento minha mãe está se casando com um idiota na minha cidade natal. É uma união civil simples. Ela mandou-me o convite mas fiz questão de não estar presente, até mesmo porque não dou a mínima para essa união, e arrisco dizer que não irá durar ate o inverno.
Pois bem, digo a vocês uma verdade que encaro desde a infância, minha mãe tem o talento de farejar um idiota a quilômetros de distância. E eu acompanhei essa sucessão de imbecis durante meu crescimento. Chego a me recordar de alguns em particular.
Certa noite, eu devia ter por volta dos 9 anos, ela levou o namorado imbecil da vez na casa das minhas tias (onde morávamos), o sentou nas cadeiras da varanda e me chamou para conhecê-lo. Só de olhar pra cara da criatura percebi que se tratava de um idiota; cabelo partido ao meio e lambuzado de gel, camisa xadrez e butinas. Minha mãe estava visivelmente nervosa perto dele, querendo parecer divertida e agradável, e morrendo de medo que eu causasse uma má impressão no jeca. Eu me sentei e ele começou a fazer o velho questionário maçante que os idiotas fazem às crianças 'Onde você estuda?', 'Sua professora é legal?', 'Qual matéria você mais gosta?', nessa eu equivocadamente respondi matemática, e ele não titubeou em me perguntar ' você já estudou a tabuada?' Eu - sim. O idiota então me tomou a tabuada durante uma hora. ‘3x 4?’ ‘7x9?’ '5x3?'. Ele sabia como matar uma criança de tédio! Acho que minha mãe não ficou muito tempo com ele, não o vi depois disso. Ainda bem!
Houve um outro que ligava constantemente lá pra casa, minhas tias não aguentavam mais. Depois de algum tempo descobrimos, ou minha mãe contou, não lembro, que se tratava do mecânico que tinha uma oficina na rua de baixo. Ele era vulgarmente conhecido pelo singelo apelido de 'pézão’, e eu gostava de chama-lo de 'pé-grande', pois a sua semelhança com o macaco ficcional era inegável. Houve uma noite em que minha mãe se arrumou cuidadosamente para sair, eu sabia que se tratava de um encontro. Fiquei à espreita para ver com quem, e quando ela saiu eu fui correndo ao quarto da frente esgueirar-me na fresta da janela para ver com quem ela saia. Chegando lá dou de cara com a minha tia bisbilhotando na janela, me junto a ela e vejo minha mãe entrando num caminhão enorme destes de rodas gigantes, mas estava sem a caçamba. Eu e minha tia caímos de risada, e ela disse ‘Que decadência!’.
Pouco tempo depois eu soube que o pé-grande se casou com uma bela professora da rua de baixo. Tirem a conclusão que quiserem.
O pior idiota que minha mãe encontrou foi sem dúvida meu pai, e eu tenho para mim que ela ficou tão emocionada com sua façanha que decidiu ter uma filha dele. Afinal não é todo dia que se encontra um imbecil de peso! Ela quis marcar o ápise da carreira dela comigo.
E hoje, ela esta mais uma vez cometendo um erro na vida dela. E eu como sempre assisto ela se fuder de camarote.

Nota de esclarecimento

Os homens quando encontram uma mulher de verdade brocham. Não sabem olhar no olho, não sabem ouvir verdade. Estão acostumados com as bonecas dos filmes pôrnos, que gemem e se mexem automaticamente, com suas cavidades vaginais fluorescentes de tão lisas. Se oferecem facilmente, sem resistência. Ou bundas grotescamente descomunais, que sacodem ao som tribal de alguma batida.
Essas são as mulheres que habitam o imaginário desses pobres homens, que quando descobrem o que é o real esvaziam os escrotos automaticamente, como um susto. Se lambuzam todos de esperma meloso, pois não estão a-cos-tu-ma-dos às mulheres de verdade, e que dizem a verdade. E ao final da pachorra lançam um olhar pedante, como se pedissem desculpa por serem tão bostas.

Calma la mi pueblo!!! Estamos hablando de Obama, y no de Chávez!


A meu ver expectativa excessiva precede inevitavelmente uma grande decepção. Vejo a onda de aceitação de Obama, e toda a sua festa na posse da Casa Branca com certo receio. Apesar de feliz por ver um presidente negro americano, coisa que há 4 anos atrás seria impensável, agora é realidade. E acho que devemos isso à famigerada era Bush, que obrigou o americano – branco, classe média, consumista, alienado - a se posicionar de forma mais inteligente em relação a escolha de seus governantes e a política externa.
Mas a política americana sempre teve um perfil muito definido, e mesmo sendo um democrata, o negro Obama não irá negar o passado político, e não irá salvar o mundo.
É até mesmo previsível suas atitudes. Ele irá tentar controlar a crise com pacotes econômicos do governo, injetar grana no mercado e medidas preventivas do gênero. Irá manter a diplomacia nas relações externas, sem conceder grandes aberturas, ou promover grandes mudanças nas relações mercadológicas com os países subdesenvolvidos (ruim pra gente). Quanto a guerra de Israel e Palestina, acho que ele não irá intervir diretamente, os EUA tem um acordo diplomático antigo com os judeus, seria estupidez tomar partido dos palestinos e sofrer retalhacões na economia em um momento tão delicado.
Por isso, temo que daqui a alguns meses o mundo comece a se sentir traído, pois esperamos demais de um homem só, que não é um herói, é apenas um bom presidente que surge no momento em que os EUA mais precisa.

E.C.A.

Me enoja a vida acadêmica, não sou o tipo de pessoa que se adapta bem a ambientes regados por relações de interesses. Na academia os intelectuais se esforçam para atingir a erudição e consequentemente uma colocação social, dar aulas, e nunca pelo conhecimento, ou pelo prazer e desenvolver um pensamento próprio. E o que mais observo é a relação de rivalidade e inveja que cercam esse ambiente, tanto os alunos que aprendem a agir por interesse quanto os professores nas suas relações entre si e com os alunos, todos buscando criar relações para atingir determinado objetivo, que ao meu ver sempre são de moral duvidosa.
Na teoria a academia deveria desenvolver pesquisa para contribuir com a comunidade, com o país. Mas me diga quantas pesquisas realmente são de cunho prático? Professores sanguessugas é o que não falta, só pensam em dinheiro - se acham no direito ou de esnobar determinados alunos por questões pessoais, ou não trabalhar a carga horária completa, e quando você os procura pra uma orientação em pesquisa se depara com uma grande má vontade, como se não fossem pagos pra isso, se posicionando como se estivessem fazendo um favor ao aluno.
A cada dia que passa sinto mais repúdio pela academia do nosso país, pois aos poucos vou conhecendo o que há por trás de tanta ostentação e ineficiência.

Little love

Quando fico muito tempo sem preencher meu coração desenvolvo subsídios para me distrair, produzo paixonites imaginárias. E de tempos em tempos troco de amor. São eles na maioria intelectuais e artistas, que nunca ví pessoalmente e provavelmente nunca vou ver. Minha última vítima do amor platônico foi o jornalista Luís Nachibin, esse me rendeu boas viagens, mas já me envolvi com o Zeca Baleiro nos bastidores de um show; com o Obama na casa Branca; com o Axl Rose quando eu tinha 15 anos; com o Eduardo Bueno no lançamento de seu livro; o Dr. House quando tive uma obstrução intestinal; com o Bukowski em um bar de beira de estrada, dentre outros.
Então para saciar meu tempo ocioso me perco em pensamentos e construo situações que exercitam minha criatividade e aquecem meu coração, e me fazem sentir como uma garotinha idiota de 13 anos.

Bananas is my business


Há uma lenda mitológica Grega que data do começo dos tempos onde haviam seres que tinham duas cabeças, quatro braços, e quatro pés. Esses seres eram tão poderosos que os Deuses decidiram dividi-los em dois, originando assim os seres humanos. Todos ser humano tem, portanto, sua outra metade.
Meu ceticismo genuíno diz que não existem almas gêmeas. Nunca vi um casal perfeito, mesmo os duradouros e harmônicos eu consegui entender a dinâmica. Porque TODO relacionamento é uma barganha, pura troca de interesses. Há algumas trocas que são muito vantajosas, então o negócio funciona, lucra e se expande. Às vezes o lucro gerado pela troca é tanto, que já é possível fazer alguns investimentos. Temos assim o cálculo prospectivo do casal, colocando no pacote ítens adquiridos como: casamento, filhos, imóveis, viagens. Esse é o modelo de relacionamento de sucesso. Troca + investimento = lucro mútuo.
E todos nós solteiros temos que estar atentos ao mercado consumidor, nas variações cambiais, para que nossos investimentos não se desvalorizem. Lembrando sempre da lei de oferta e procura, o produto que tem muita procura, se valoriza. Produto que não gera interesse se desvaloriza no mercado.
É isso, limousine e grana suja, nada de alma gêmeas, é tudo business honey.

Você aconselharia alguém a ser escritor?


Coisa triste é descobrir que os ídolos morrem. Ando lendo muito Bukowski e descobri que o safado já morreu. Como eu gostaria de tomar uma cerveja com ele! Sei até como seria, pois tenho o dom de prever como se darão meus relacionamentos, e principalmente como vão terminar. Normalmente acerto, coisa triste isso.
Eu entraria no apartamento de fundos dele com uma garrafa de whisky nas mãos. Pararia na porta para me acostumar com a enxurrada de informação visual e o fedor, pois havia algum tempo que a empregada não aparecia. Com certeza havia ficado com raiva de alguma coisa sacana que Buk disse.
Ele ficaria puto pela visita matinal ás 13:30h, mas se sentiria satisfeito quando visse a garrafa. Nos sentaríamos, beberíamos, conversaríamos sobre literatura e política. A certa altura ele tentaria me bolinar, mas eu ficaria impassível, serena, e debochada. Ele por sua vez, insinuaria que queria que eu fosse embora, eu, como não tenho muitos escrúpulos voltaria no outro dia com outra garrafa.
Bukowski não gosta de mulheres, e eu não gosto dos homens. Nós formaríamos, portanto, uma boa dupla.

1.12.2009

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A relação ‘dono de bolg’ x ‘blog’ é complexa, quase tão complexa quanto qualquer processo de criação. As desavenças e conflitos emergidos da distância entre o que se pretende e o que se obtém são muitos. Por isso estou com um bloqueio com meu blog, não consigo escrever. Parece-me meio ridículo, quase patético, mas nesses últimos tempos estou me controlando para não acabar com ele.

12.23.2008

A Outra


Quase tive um orgasmo quando descobri (no final do filme) que ele se trata da história da mãe da Elizabeth I. Eu havia recomendado o filme Elizabeth a era de ouro nesse blog há alguns meses, e recomendo esse aos que se interessarem descobrir de onde vem o gênio de Elizabeth.

12.19.2008

Silêncio

Sentada em frente a Tv oiço coisas que fazem meu corpo todo estremecer. Sinto um arrepio gelado me percorrer, e cravo as unhas nas almofadas da sala. Na cidade do Rio de Janeiro uma média de quatro mulheres são estupradas por dia. Meu estômago revira.
Não consigo ficar complacente a certos tipos de violência. Sou mulher. Tenho vagina. Tenho sangue nas veias, e ele corre mais acelerado quando penso nesse tipo de covardia.
Que tipo de pessoa com sexualidade doentia faria uma coisa dessas? Que tipo de perversão sexual levaria um homem a agir assim e continuar respirando?
Sinceramente, sou fêmea. E não entendo.
Perplexa...
O silêncio fala por si só.

Irritando Rafaela Oliveira


Sou o tipo de pessoa que tem um fraquejo pela irritação, sei disso. Convivo com um eterno incomodo. Mas o que mais me tira do sério são as pessoas, ou melhor, as coisas que as pessoas fazem (ou deixam de fazer).
Nessa época do ano eu fico mais suceptível a irritabilidade. E o que mais me deprime é a maldita decoração de Natal. Nada contra as bolinhas e o festão, sou contra o exagero. Se não tiver dinheiro para fazer uma coisa de bom gosto tenha a dignidade de não fazer nada!
Esse mês entrei no supermercado perto da minha casa e dei de cara com um boneco de Papai Noel murcho e feio, ai pensei: Que marmota! O franzino velhinho constituia-se de um boneco grande e magro, mal vestido, com uma barba falsa todo embolada. Em volta um festão. Estava lamentável... Foi difícil segurar o riso. Eu preferí fingir que não o ví e passei reto. Ainda hoje me esforço para ignorar aquela figura "excêntrica” quando vou ao supermercado. Mas essa rede de supermercados com certeza não preza pelo bom gosto. Isso é perceptível na música que ecoa em seus corredores, sempre um pop music estilo FM. Aliás supermercado não é lugar para ter música. Se eu quero ouvir música vou para um bar ou boate. Ningém pensa: puxa, estava querendo ouvir uma música hoje... Vou ao supermercado.

Mas voltando à questão da decoração natalina, vamos falar sobre as casas enfeitadas com o conceito equivocado de que quantidade é qualidade. Há pessoas que não economizam, querem valorizar a bela sacada e a enchem de luzes coloridas, piscas musicais, cascatas, tudo misturado aos festões e bolas (que pouco aparecem), Papai Noel subindo, Papai Noel descendo, Papai Noel dançando. Um inferno visual piscante!

Meu prédio também está enfeitado (contra minha vontade, claro). No corredor principal o zelador colocou festões prata pendurados em arco no teto. Eles estão visivelmente gastos. Ele comete essa injúria todo ano, coloca vários festões e bolas de todo tipo misturados sem raciocínio (deu pra vizualizar?).

No caso da decoração infeliz do meu prédio, seria mais eficaz se eles colocassem uma faixa na frente escrita: aqui mora gente pobre. Mas pelo o que conheço dessas pessoas, elas logo iriam pendurar umas bolinhas e uns festões velhos para ficar mais bonitinho.

Dai-me paciência!

12.15.2008

A despedida

Ela não o via há muito tempo. Ele se fora da mesma forma que entrou em sua vida, sem pedir, sem conversar. Homens de poucas palavras era assim que ela gostava. Quando ele partiu ela teve que se acostumar não com a ausência de seu amor, mas com a sua própria presença. Ela lapidou por muitos anos seu talento para viver em função do outro. Sempre teve esse dom: se dedicar os homens. Coisa ensinada pela sua mãe com todo esmero, e ela sorveu cada palavra.
Sempre soube agradá-los, servi-los. Gemer quando necessário, sorrir no momento certo. E com o tempo Tereza foi aprendendo a tocá-los. Ela sabia faze-los sentir prazer, e o fazia com o mesmo talento quanto um bom concertista.
Mas ele a abandonou para ficar com outra mulher. E isso feriu seu orgulho de fêmea. Não entendeu o que deixou de fazer, ou e que se excedeu. Agiu perfeitamente como as regras. Amou-o como uma receita.
Hoje, Tereza, teve a oportunidade que estava há meses. Ele se foi, levando consigo sua razão de viver, e agora ele estava de volta por conta de uma desculpa inventada por ela. Uma reforma, a qual seus livros deixados estariam sobrando na re-decoração da sala de jantar.
Ela o esperou vestida com vestido florido, lambuzada de lavanda, com os lábios carmins. Ensaiou a desculpa que estava de saída.
Ao chegar, ele sentou-se na sala como se ainda fosse sua. Estava surpreendentemente á vontade. Exalando um cheiro inebriante de homem, que fez Tereza arrepiar. A camisa um pouco aberta, ela vislumbrava os pelos de seu peito.
Após algumas palavras sem importância, e 2 copos de licor ela se deixou tomar, como se ainda fosse dele. Entregando-se por inteira a todas as antigas emoções. Cada toque, cada suspiro trazia consigo uma recordação, e Tereza não agüentou, desabou em lágrimas. Enquanto seu amor a penetrava concentrado em seu sexo, Tereza o olhava e percebia entre lágrimas como ainda o amava, e quanto ele não era mais seu. Quando ele percebeu que ela estava a chorar a abraçou carinhosamente, dizendo que também sentia saudades, tentando aplacar seu choro. E foi nesse momento que Tereza teve certeza que jamais ficariam juntos novamente.
Há coisas que só as mulheres entendem, mesmo que os homens queiram nunca irão compreender.

12.12.2008

Hable con ella

Uma coisa no Amoldovar é totalmente clara e latente: sua admiração pelas mulheres. Me parece que ele não as comprende bem, e isso gera nele um grande facínio. As mulhres de Almodovar são deusas distantes e intocáveis, belas e fortes, estão acima do bem e do mal.

Assistí a esse filme em um fôlego só, como se estivesse segurando um suspiro. Só o soltei quando vi esse balé ao final, e junto com o suspiro veio um choro sincero, como há muito não fazia. Lavei minha alma.

12.08.2008

TABACARIA

Cuidado ao vestir o personagem, ás vezes ele não sai de cena e o ator se perde no enredo da trama.

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara

(Fernando Pessoa)

Anna Banana

Esse final de semana estive presente em um desses rituais 'social-civilizado'. E conheci por intermédio de uma amiga a Srta. Anna Banana, rapariga que roubou minha atenção. Ela se vestia com uma bela indumentária constituída de um elegante tubinho preto com scarpins, exalando um cheiro acre de roupa há muito guardada. Sem brincos ou braceletes cravados de pedras preciosas, como ostentavam as outras garotas. Ela trazia nos cabelos apenas um desalinho, que refletia também em sua postura.
Porém me encantou sua tentativa de fazer parte do todo, de parecer mais alinhada do que realmente estava, de parecer mais elegante do que realmente era.
Observei-a sentada ao meu lado de pernas cruzadas, mãos sobrepostas ao colo, bebericando de um líquido rosáceo, provavelmente champanhe com licor de cassis. Ostentando uma aparente feição de calma estampada no rosto. Um inabalável sorriso dissimulado, e um olhar que titubeia entre a fixação e a sonolência.
O garçom se aproxima oferece canapés a bela Dama Banana, e com um gesto languido com a mão esquerda ela dispensa o aperitivo, pronunciando calmamente um ‘não-obrigada’.
Ela se vira e olha em meus olhos com displicência como se aquele gesto fosse o mais recorrente de sua vida.
Como não se deixar encantar com tamanha engenhosidade?

Grana suja


Há uma lenda mitológica Grega que diz do começo dos tempos, onde haviam seres com duas cabeças, quatro pés e quatro braços. Esses eram seres tão poderosos que os Deuses mandaram dividi-los em dois, originando os seres humanos. Todo ser humano tem, portanto, sua outra metade.
Meu ceticismo genuíno me diz que não existem almas gêmeas. Nunca vi um casal perfeito, mesmo os duradouros e harmoniosos eu consegui compreender a dinâmica. Porque TODO relacionamento é uma barganha, pura troca de interesses.
Há algumas trocas que são muito vantajosas, então o negócio funciona, lucra e se expande. Às vezes, o lucro gerado pela troca se expande tanto que já é possível fazer alguns investimentos, gerando assim o cálculo prospectivo do casal, colocando no pacote itens adquiridos como: casamento, filhos, imóveis, viagens. Esse é o modelo de relacionamento de sucesso. Troca + investimento = lucro.
E para nós solteiros temos que estar atentos ao mercado consumidor, nas variações cambiais, para nossos investimentos não se desvalorizarem. Lembrando sempre da lei da oferta e procura! O produto raro que tem muita procura se valoriza, produto que não gera interesse se desvaloriza no mercado.
É isso, limousine e grana suja, nada de alma gêmea. É tudo business honey.

Eu Barcelona


Detesto quando me deparo com obras que sei que poderia ter feito, se me dessem a oportunidade e um pouco de tempo eu sei que as faria. Foi esse caso o filme que vi a pouco no cinema, Vicky Cristina Barcelona de Woody Allen.
Vi-me retratada nessa película na pele das duas protagonistas. Vi meus pensamentos e opiniões sendo debatidos na tela, todo o universo que me permeia sendo tratado da forma mais jocosa ao estilo woodialiano.
Vi meus dramas pessoais, e minhas angústias amorosas sofridas a pouco. Vi meu desejo de liberdade, e meu temperamento difícil. Vi que não é fácil lidar com a instabilidade, e eu não sou a única a sofrer com isso. Vi minhas descobertas artísticas, e minhas inquietações, e meu medo de onde isso tudo vai me levar.
Mas o que mais amei foi o comentário de Allen ao se deparar com o sucesso do filme:
"Terminei este filme há vários meses, e, quando termino um filme, não sinto mais o menor interesse nele. Já recebi ótimas críticas de filmes que não ganharam um dólar nas bilheterias. Recebi críticas negativas de outros, e isso nunca significou nada. O fato de lhe chamarem de grande não faz você ser grande, e o fato de dizerem que um trabalho é terrível não o torna terrível. Eu me lembro de, anos atrás, voltar para casa depois de ter um grande triunfo com 'A Última Noite de Boris Grushenko' ('Love and Death') e, mesmo assim, a garota do apartamento em frente não quis sair comigo. Eu estava em casa, sozinho, comendo comida chinesa diretamente da embalagem, sem nada a fazer exceto assistir à televisão. O sucesso nunca significa nada".

11.28.2008

A mágica do peixinho dourado


Era uma vez um peixinho dourado amaldiçoado, perdia sua memória a cada 3 segundos. E tudo que viveu, tudo que viu e ouviu se perdia, como se fosse engolido por um grande ralo.
Seu passado não importa, e o seu presente é constituído por segundos. Quando passam aqueles calculados 3 segundos nada existe mais, surge o vazio total.
Todos já cruzamos com peixinhos que não tem capacidade de aprender com a vida, que esquecem os erros cometidos e os cometem de novo com a mesma empolgação que testemunhamos antes. Peixes em que relacionamento é sinônimo de sucessão de pessoas sem significado, de momentos teatralizados e sem emoção. Após 3 segundos de distância da pessoa amada, pronto! A mágica acontece! O afeto, o carinho, o compromisso se perde no vasto esquecimento do pequeno peixe. E se a pessoa amada se vai, a única coisa que o peixinho se presta a fazer é ensaiar uns suspiros, fingir algum ressentimento, mas logo após ele vai nadar leve e brilhante pelo oceano a fora, balançando sua calda como se nada tivesse acontecido. De fato pra ele nada aconteceu.

(essa lenda de que memória de peixe dourado dura apenas 3 segundos está caindo por terra, alguns estudos mostram que eles são mais espertos do que a gente imaginava. Na verdade eles são criaturas sonsas, fingem-se de bobos.)

11.26.2008

Summertime

(Nina Simone)
Summertime and the livin's easy,
Fish are jumpin', and the cotton is high.
Oh yo' daddy's rich and yo' ma is good lookin',
So hush, little baby, don' yo' cry.

Castração

Anastácia acorda toda manhã um pouco mais cedo que o normal, só para ter o prazer de ficar na cama mais um pouco, como se estivesse transgredido alguma regra, ela acorda, desperta, e espera os 15 minutos decorrentes do seu adiantamento com grande satisfação. Depois se veste com carinho, ajeita a meia-calça com as mãos em movimentos delicados, orgulha-se de suas pernas, sempre se orgulhou. As meninas do ginásio a invejavam-na, pois o cobiçado professor Heitor de educação física uma vez elogiou a resistência de suas coxas, suas palavras ecoam em sua cabeça até hoje. E ela não controla o surgimento de um sorriso ao lembrar-se desse fato.
Ela se olha no espelho, ao contrário das pernas ela não gosta do que vê. Nunca gostou muito da carcaça com que nasceu, sente que aquela que ali está, do outro lado, não é ela. Um metro e meio de altura. Cinquenta quilos de carne, ossos, pele. Cabelo preto, comprido, liso, à força de tanto o esticar. Alguns cabelos brancos. Olhos escuros. Um nariz grande, redondo. Uma pele ruim, cheia de poros abertos, pontos negros, vermelhidões. Suas mamas parecem cada vez mais pequenas, cada vez mais caídas, como se fossem flores murchas dentro de uma jarra. O peso do tempo a preocupa. As vezes sente que desperdiçou parte da vida com o trabalho, teve poucas oportunidades de se envolver com homens. Ela lamenta.
Ao sair, pára em um sinal e um homem de meia idade sussura em seu ouvido: “Com esse cabelo preto deves ter um bom grelo. Lambia-to todo! Horrorizada Anastácia atravessa a rua, sentindo um calafrio percorrer suas costas. Derrepente se vê sobressaltada, e totalmente perdida na cidade em que nasceu e viveu toda a vida. Um ardor percorre seu sexo, e ele se humedece. Ela pensa em parar, em se virar. Vem a mente suas experiências com sexo; o ardor, a queimação, o incômodo causado pelo membro rígido que teima em entrar em um orifício que sempre permaneceu fechado. Seu estômago revira.
Ela acha absolutamente justificado o seu desprezo pelos homens. Por que Deus criou o corpo das mulheres para sofrer, ela sempre soube disso, são cólicas, dores no parto, dores no ato sexual. Será por isso que ela nunca sentiu prazer no sexo? Todos julgam-na frígida, mas ela sabe que Deus amaldiçoou as mulheres. Por isso não se importa com os prazeres carnais, eles não são para as mulheres. Mas em seu íntimo ela queria que ao menos uma vez os homens sentissem dor no sexo, para saberem um pouco do que são feitas as mulheres.

Estou me deixando levar por sorrisinhos.

Falta-me sentido para acordar a cada dia, faltam-me os sentidos durante o dia.
Mazelas de nosso tempo? Sentir-se infeliz por não ‘ter’, não ‘ser’, não ‘estar’, e no meu caso nem ‘parecer’ cabe.
Infelicidade genuína e pura, límpida e translúcida como água, pela simples amargura de estar viva. De ter o que fazer e não sentir vontade de executar. Objetivos? Metas? Pra quê? Qual é o prêmio no final? Até hoje não obtive nenhum troféu, nem mesmo tapinha nas costas.
Caminho para um final, que não sei qual é, mas que deve ser tão triste quanto eu mereço.
Sempre fui de essência melancólica, mas aprendi a conviver com isso. Da mesma forma que aprendi a conviver com meu cabelo crespo, minha magreza, meus problemas familiares, sem os aceitar apenas os suportando. Às vezes me pergunto se deixar de forçar vai adiantar? Uma hora a gente cansa, e eu já me cansei há muito tempo.
Ando por ai triste, cansada e desacreditada. Sofro de desencantamento Weberiano crônico. Colou-me no peito uma amargura que não desgruda, um amargo na boca, e no rosto uma expressão taciturna. Pobre de mim.

11.22.2008

Poker Love


Se relacionar é jogar, e não há jogo que combine mais com o flerte do que o Poker. Os jogadores de Poker irão me entender! O objetivo do Poker é ganhar as fichas da outra pessoa. Você tem suas cartas e seu ‘adversário’ tem as dele, nem um dos dois sabe o que há na mão do outro, então começam as apostas. Você pode começar apostando alto, mas isso assusta o adversário, é bem melhor começar com um lance baixo e esperar para ver o que ele vai fazer. Se ele for aumentando a aposta, ótimo! Você pensa: alguém vai lucrar aqui. Ou ele pode não apostar e te deixar com aquela mão maravilhosa doido pra jogar a ver navios... Acontece também o adversário querer pular umas rodadas e não jogar, ai é ter paciência e esperar. Mas quando você escolhe um bom parceiro o jogo pode ser inesquecível, quanto os dois estão comprometidos em apostar e a tentar entender as jogadas do outro é magnífico. Há também o blefe, é quando suas cartas não são nada promissoras, mas você finge que elas são, ai a outra pessoa pode cair na sua, e olá fichinhas!! Ou você cair em um blefe, e apostar alto e se dar mal... Adeus fichinhas. Às vezes você fica no sufoco, não quer apostar e pede mesa, e seu jogo muda completamente. Nunca se sabe qual carta virá; às vezes você está preparando uma super flush, e as cartas que chegam ajudam seu adversário a fazer um full house e você crê que vai arrasar e ele arrasa você, te deixando de quatro com uma maça na boca. No jogo sempre temos que contar com imprevistos. Há os mais afoitos que querem mostrar logo as cartas que têm na mão, e quando você sabe as cartas de seu adversário fica muito mais complicado, porque você tem que decidir pelos dois o que fazer. Ou dá um banho nele e pega todas as fichas e vai embora jogar com outra pessoa, ou tenta ser mais generoso e dividir igualmente entre os dois, a primeira opção é mais tentadora para os não principiantes. A diferença entre romance e jogo é que no amor ninguém sai ganhando ninguém sai perdendo. No final você sempre aprende alguma coisa, mesmo que você saia sem uma puta de uma ficha!

11.16.2008

Cadê a educação?

Lanço uma campanha em prol da educação nos meios de comunicação. Você já percebeu como ninguém se preocupa com regras de etiqueta na internet? Não é porque estamos na internet, onde ninguém nos conhece, que é válido não ser cordial. Pessoas que deixam a conversa e não se despedem. Você manda um recado e a pessoa te responde séculos depois. Trata-se o interlocutor como se ele não esperasse a resposta, como se ele soubesse o que o outro faz e vê, se leu ou não. Parece que a internet é povoada por autistas, que acham que o mundo gira em torno deles.
Estendo minha indignação ao telefone (principalmente o celular). Você liga uma vez e a criatura não atende, cria coragem, liga a segunda, e a pessoa nada. Você se sente ignorado, e alguns dias depois você encontra o(a) infeliz e ele(a) diz: ah, eu vi que você ligou o que você queria? Porra! Se viu por que não retornou?
Outra coisa desprezível é o tal de três segundos: ‘onde c ta?’. Várias vezes respondi em seguida, e demorei alguns segundos para perceber que a pessoa desligou, não tem como não ficar constrangido.
Então seres internautas vamos:
- Responder recados com certo esmero e rapidez.
- Colocar crédito no celular.
- Se despedir ao sair da conversa.
- Dizer oi antes de iniciar qualquer assunto.
- Não ficar ligando a cobrar pra todo mundo.
- Se perguntar, a pessoa responder, agradeça.
- Não desligar na cara das pessoas.
PS: se o leitor lembrar de mais alguma favor completar nos comentários.

Queria trocar de rosto


Não necessariamente mais belos
Escolheria os de homem
Os de bicha
Queria ter todos os rostos

E trocá-los como minhas roupas
Ser invisível
Ser admirada
Agredir
Sossegar

Vestiria as rugas de um velho
Sábia, me sentaria no jardim
Acenderia meu cachimbo
E veria o mundo passar

Seria uma bela negra
Escura e Corpulenta
Teria um arrogante olhar
E um rico namorado

Queria ser todos
Para não ser nenhum
E modificar
Para nunca me enjoar

A saga natalina materna.


Natal é época boa na vida da gente até os 10 anos, depois vira tudo uma sucessão de presentes infelizes e festinhas chatas com tios bêbados. Essa magia coca-cola já se perdeu há muito tempo na minha vida, e por um bom período abdiquei de comemorar o natal, pela total falta de sentido. Mas quando os miúdos nasceram, primeiro a Helena e depois o Pedro, tive que retomar os sonhos de infância, mas agora sobre nova ótica: tentar fazer um bom natal para meus rebentos.
A saga começa na escolha da arvore de Natal, quanto maior mais bonita, e mais cara. Os enfeites variados e coloridos também são apelativos e custosos. Mas o mais difícil são os pedidos das crianças, ter que gastas 1/3 do meu salário em um boneco feio, que eu sei que vai perder o braço em um mês, é difícil. E mais ainda é encontrar aquela Barbie Cinderela flash plus, que apareceu no comercial e que só serve ela!
E as intermináveis tardes de passeio no shopping?! Hoje os levei para passear no shopping e conversar com o papai Noel, que pra mim parecia mais meu tio Dirceu de barbas, ele sempre bebeu demais e ficava vermelho e bobo. Fiquei três horas na fila do papai Noel para as crianças ouvirem dois segundos de um ‘hol hol hol’ e a porra da rena gritar: próximo!!!!
A Helena quis sorvete, Pedro quis a piscina de bolinha, depois o hambúrguer que vem com brinquedo. No final estava exausta, sem dinheiro, e com meus filhos mal alimentados e agitados. Viva o espírito de Natal.

11.05.2008

Olhos descascados

Meu amor,

Meu corpo está estagnado,
no mesmo lugar.
Parada,
sempre,
sentada,
esperando você.

Meu corpo teu,
vive de sua alma,
eu respiro tua pele.
Amo suas víceras.
Cálida.
Te espero

Percebo um corte no rosto,
sinto sua lembrança,
seu pênis dentro de mim,
seus pelos em minha boca.
Te espero

Seus dedos me apertam,
deixam marcas em minha pele.
Meus cabelos em suas mãos.
Minhas unhas soltam pelo seu corpo.
Doi.

Seu sêmem em minhas mãos.
E o que eu faço com tudo isso?
Eu enterro espinhos,
mas eles voltam para espetar meus pés.
Bebo sua saliva.
Me banho em seu suor
E esse seu vômito como eu posso aproveitar?

(Carta de amor escrita quando descobri a obra de Beth Moysés, seu trabalho gira em torno da violência contra a mulher)

11.04.2008

Coisas das quais eu me orgulho, mas talvez não devesse

Meu dedão da mão vira muito e isso facilita a jogar sinuca.
Jogo sinuca.
Jogo baralho.
Tenho uma cama grande, apesar de ter sido quase um erro comprá-la.
Escrevo com freqüência.
Ainda uso tremas.
Faço várias coisas ao mesmo tempo (nem sempre dá tudo certo).
Tenho tatuagem
Durmo bem de conchinha.
Meu número de celular nunca mudou (e o aparelho só 3 vezes).
Bebo muita água.
Sei o que está passando em todos os canais parando menos de um segundo em cada. (isso é legal)
Faço coisas sem a menor importância parecerem interessantes.

Meu bem, você está me achando agressiva hoje? O.0 (1)

Por que todo mundo é tão decepcionante? Porque bem lá no fundo, são todos uns covardes. Uns covardes! O mundo inteiro virou um bando de covardes. Todo mundo tem medo de tudo, ninguém tem coragem de assumir porra nenhuma, onde foi parar a honra viking?! Ou a lealdade de um guerreiro espartano?! Não existe mais... Só vemos por ai medo e falta de caráter que unidos resultam em decepção.
Bando de bundas moles que não se acham bons o suficiente e ficam tentando convencer a gente que são fodas, ai quando nós finalmente estamos convencidos passamos então a convencer a eles mesmos dessa mentira. Esse é o jogo!
Eu to puta com um monte de coisas, que vão desde a eleição nos Estados Unidos, passando pela Margarida ter perdido as eleições aqui, terminando no preço absurdo dos chocolates. Como essas merdinhas calóricas ficam caras!! Um singelo batom que na minha infância custava 0,20 agora ta 0,50! Onde esse mundo vai parar? O que uma mulher de TPM deve fazer para ter um pouco de caloria a preço módico?
Enquanto isso, estamos aqui todos perdendo tempo com essa putaria de internet, que só serve pra atrapalhar a nossa vida. Só serve pra dar vazão a expressão dos covardes.
Ficam como ratinhos fuçando e entrando em salas de bate-papo e na pior das hipóteses no seu MSN dizendo um monte de asneiras ao alcance do mouse. A internet possibilita isso, aos “gatinhaRJ2008”, ou “razorhead25”, ou “gostosao715”, dizerem o que pensam. E quer saber de uma coisa? Eu estou pouco me lixando para o que vocês pensam! Se quiser dar opinião sobre alguma coisa então pelo menos tenha a decência de assinar em baixo. Porque opinião por opinião minha cachorra também tem a dela sobre rações caninas.

cabras capadas (2)


E você sabe que essas pessoas com fotinhas orkutianas cheias de blush, cabelos brilhando, sorrindo como se estivessem vivendo o dia mais feliz de suas vidas, são as mesmas que sentam ao seu lado no ônibus, que se metem em cubículos fedorentos, e salinhas de jantar, quietinhas passam o dia. Sem dizer um A. E na internet criam vida, e se sentem no direito de serem ouvidas!
São cabras que soltam seus balidos em alto e bom som, longos e tenebrosos béééééés, que ecoam pela internet! São cabras capadas, porque Deus em sua inteligência e benevolência percebeu que esses seres desorientados jamais seriam capazes de franquear a chegada de uma criança a este mundo. Por isso capou-as, servindo assim suas lanosas vaginas para serem penetradas por apelativos caralhos, de glandes refulgentes e escrotos cheios, só isso. Nunca para a criação. É tudo um grande vazio.