9.20.2009

Tudo que eu queria

Achei um blog chamado Tudo que eu queria e gostei tanto que cheguei a conclusão que tudo que eu queria era ter esse blog. Por isso tomei a liberdade de copiá-lo.


(Carie Bradshaw)
QUERIA ser uma princesa novaiorquina.

(casa e jardim)
QUERIA ter uma casa toda colorida.

(por Richard Avedon)
QUERIA ser sexy mesmo triste.

(por Paschal Renoux)
QUERIA poder perder a cabeça.

(por Robert Doisneau)
QUERIA ter mais tempo livre com as minhas amigas.

(por Cartier Bresson)
QUERIA me sentir orgulhosa de mim mesma.

(por Guy Bourdin)
QUERIA uma criada francesa.

9.19.2009

Alguém para o mundo que eu quero descer

* Baseado em fatos reais.

Era uma vez uma professorinha que um dia subiu no palco de um show de pagode para dançar a canção intitulada: Todo Enviado. A professora de primário embriagada pelos ávidos olhares masculinos não resistiu virar seu enorme glúteo para a platéia. E enquanto o vocalista puxava sua calcinha que emergia triunfal de seu monumental rego, ela rebolava suas carnes para quem quisesse ver, fotografar e gravar.
O vídeo de sua performance virou um hit da internet, a professorinha foi demitida da escola. Foi contratada como dançarina da banda de pagode, está ganhando bem melhor. E agora pode mostrar sua bunda em rede nacional tranquilamente. E foram todos felizes para sempre.


9.18.2009

Terreno fértil para a hipocrisia é a Igreja Católica

Agora inventaram de canonizar uma garota que na década de 80 sofreu uma tentativa de estupro e se matou para defender sua honra – repito: morreu em defesa de sua honra – tem coisa mais hipócrita que isso? Nada contra a garota que teve essa reação desesperada, pelo contrário, tenho muita pena dela, mas canonizar é exagero. O que eles estão querendo, criar uma santa protetora das mulheres estupradas?

Não sei se estou sendo exagerada, mas esse reconhecimento todo ao ato de coragem dela me soa como: as mulheres que são estupradas na verdade cedem, permitem. Isso me lembra os relatos de mulheres, há algumas décadas atrás, que depois de estupradas passavam pelo constrangimento de ter que ouvir do delegado a pergunta: “Você estava vestida de forma insinuante?”, “Em algum momento você deu a entender que queria ter relações sexuais?”.

Não seria mais coerente haver uma penalidade para os estupradores? Por que não é instaurada uma regra em que todo estuprador seja excomungado da igreja? Mas já vimos que a forma de raciocínio católico (se é que ele existe) é totalmente incoerente e machista. Outro bom exemplo é o da menina de 11 anos que engravidou do padrasto no nordeste, por sorte ela conseguiu a tempo uma liminar na justiça para fazer um aborto legal. E o que a igreja católica fez? Excomungou a equipe médica e a garota pelo ato de aborto. E fica a pergunta novamente, e o estuprador não merece nenhuma punição?

Infelizmente ainda há quem acredite que os homens são dotados de uma força sexual mais forte que as mulheres, algo quase incontrolável. Por isso seriam ‘compreensíveis’ esses atos de total covardia e perversão. Tudo mentira, as mulheres têm os mesmos impulsos sexuais, a diferença é que somos reprimidas nossa vida inteira para não demonstrá-los enquanto os homens essa agressividade é incentivada. E continuará assim enquanto as pessoas forem domesticadas ao toque dessas ideologias de merda.

8.25.2009

Obrigada

Poucas vezes na vida se tem noção da felicidade que se sente no momento em que acontece, sempre somos enganados pelo tempo, e só tomamos dimensão da felicidade ou tristeza em comparação com o que aconteceu após. È o famoso “eu era feliz e não sabia”. Vivo o oposto diametral dessa sentença, estou muito feliz e tenho plena consciência disso. E tenho certeza disso não pelo o que pode acontecer, mas por tudo que vivi. Os acontecimentos tristes que ocorreram em minha vida nos últimos meses me empurraram para o que tenho agora e estou agradecida por cada sensação de tristeza, por cada raiva e por cada erro que cometi, porque se não fossem eles eu não entenderia que esse aqui é meu paraíso. Eu encontrei meu paraíso sartreano na Terra, e não consigo tirar o sorriso bobo da cara.

Roupa íntima masculina


O tipo de cueca que o indivíduo usa é de extrema importância para se obter um conceito acertado quanto a sua personalidade. Sempre reparei essa peça dos meus companheiros sexuais, e censurava descaradamente quando via algo que não aprovava. Como por exemplo, aquele tipo de cueca “do vovô”, aquela de elástico bambo que por conseqüência da gravidade acaba por deixar meio saco da criatura pra fora, a pessoa fica então de cuecas e com um testículo a mostra, ali na sua cara, tomando um ar. È uma coisa pavorosa. Esse tipo de homem é aquele que já desencanou. Aquele que vai a padaria comprar pão de calça de moletom, meia e chinelo de dedo. E você vai preferir morrer a admitir que algum dia trocou algo mais que um “oi” com ele.

Tem o tipo de cueca "gogo-boy". Aquela pequenininha, que você tem parar para identificar se é uma cueca ou uma calcinha, ai você pensa com uma pontinha de vergonha “Eu tenho calcinhas maiores do que a cueca desse cara”. Esse é o tipo exibicionista, ele pode até não admitir, mas o que ele gosta mesmo se mostrar e ser admirado.

Tem também aquelas tipo "pano de chão". Elas são sujas, ou meio encardidas, ou com cor indefinida de tão velhas e desbotadas. É revoltante quando você se depara com uma dessas, ai você pensa que gastou metade do seu salário para comprar uma lingerie de marca para agradar enquanto esse infeliz amarra um pano de chão na cintura e acha que está tudo bem. Esse tipo é desligado, e com certeza ainda vive de baixo da asa da mamãe que é a responsável pela roupa íntima do marmanjo.

E tem finalmente as boxer que são as mais bonitas e que modelam melhor o corpo, mas infelizmente os homens ainda não descobriram suas vantagens. Quem sabe um dia eles entendam que agradar uma mulher não é nada difícil.

Tolices, pessoas e Catarina.

O comportamento das pessoas sempre me causou curiosidade e em alguns casos risos. Ainda não compreendi o limite que pode chegar a tolice de alguns seres, e temo que seja infinito.
Noutro dia estava vendo um jornal local que mostrava a mudança de comportamento das meninas entre 9 e 13 anos que se mostram cada vez mais ‘adultizadas’, elas não brincam com bonecas, só se interessam pelo universo adolescente e seus estereótipos imbecis. Eram três amigas de 10 anos, vestidas como adolescentes fúteis do tipo mais medíocre, rostinhos pequenos ornamentados com aparelhos fixos em dentes permanentes grandes e feios, salto nos pezinhos delicados, e cabelos devidamente escovados e penteados. Mas o que mais me surpreendeu foi o comportamento robotizado do trio, a forma calculada de olhar pra câmera, o sorriso treinado, a pose adestrada com as perninhas cruzadas e mãozinhas sobrepostas sob os joelhos. Era um espetáculo ridículo.
Mas no meio desse lamentável trio de amigas havia uma gordinha que me comoveu. Ela estava visivelmente desconfortável diante da destreza com que as amigas lidavam com a situação, mas ela em meio a tanto volume corporal não conseguia cruzar as perninhas como as amigas, ou caminhar como modelo e fazer pose. Ela se esforçava em parecer graciosa, mas a massa de seu corpo a impedia de se mover com leveza. Ela observava as amigas de rabo de olho tentando imitar os trejeitos, responder na hora certa, mas era em vão. Ela estava sempre atrasada e parecendo perdida.
Em dado momento elas se juntaram para cantar uma música em inglês e a gordinha ficou movendo os lábios como uma marionete sem vida, ela não tinha idéia do que estava cantando, e arrisco dizer que também não tinha idéia do que estava fazendo ali. A tola estava se esforçando para parecer com as outras.
O nome dela é Catarina, nunca guardo o nome de ninguém, mas sei que nunca mais vou me esquecer desse nome. Pergunto: quão estúpida se pode ser? Muito.

Tolices e dinheiro

Uma criatura abastada e com um duvidoso título de nobreza chamado Chiquinho Sscarpa chegou à conclusão, após breve raciocínio, que precisava perder alguns quilinhos. Até ai tudo normal, mas o que adentra o tênue limite da tolice é que o sagaz Scarpa, sabe-se Deus porque, resolve fazer uma cirurgia de redução de estômago ao invés de fazer uma dieta como qualquer ser humano normal. Isso para perder uns 20 quilinhos que estavam sobrando. Coisa pouca!
Mas nada como ter dinheiro sobrando... O astuto Conde grampeou, então, parte do estômago, e para a surpresa de todos a cirurgia não deu certo! Por dois motivos:
1 – A Vs. Excelência não respeitou o pós-operatório e ingeriu mais comida do que o estômago agüentaria.
Olha que safadinho: "Ele tinha muita sede e não sabe ouvir não, parece criança. Deixava eu sair para fazer alguma coisa e aproveitava para tomar mais água do que deveria. Quando voltava, encontrava as garrafinhas no chão ou o Chiquinho na cozinha batendo suco", declarou Rosimari a esposa.
2 - Devido ao uso contínuo (durante 3 anos) de um remédio chamado
Roacutan, contra acne, por isso as paredes do estômago do Conde Scarpa estavam mais sensíveis. Chiquinho Scarpa foi colocado em coma induzido e fez mais três cirurgias para aplacar o estrago, abaixo uma entrevista concedida a folha de SP sobre o ocorrido:

FOLHA - Como é voltar para casa?
SCARPA - Saí do hospital faz um dia e meio. Depois de ter sofrido cinco operações e ter recebido a extrema-unção duas vezes, nada melhor do que estar em casa.

FOLHA - Extrema-unção?
SCARPA - É verdade. Fui dado como clinicamente morto duas vezes, então minha família chamou o padre Gonçalo uma vez e, na segunda, para não repetir o padre, chamaram um da igreja Nossa Senhora do Brasil.

FOLHA - Arrependeu-se da cirurgia?
SCARPA - Por enquanto, estou arrependido. Mas é algo para o resto da vida. Minha irmã Fátima fez e perdeu 58 kg, mas deixaram o estômago dela menor, só pode comer 25 mililitros, senão vomita. O meu tem 500 mililitros. Dá para comer uma picanha inteira.

Carta de despedida

"Querido,

Tenho certeza de estar ficando louca novamente. Sinto que não conseguiremos passar por novos tempos difíceis. E não quero revivê-los. Começo a escutar vozes e não consigo me concentrar. Portanto, estou fazendo o que me parece ser o melhor a se fazer. Você me deu muitas possibilidades de ser feliz. Você esteve presente como nenhum outro. Não creio que duas pessoas possam ser felizes convivendo com esta doença terrível. Não posso mais lutar. Sei que estarei tirando um peso de suas costas, pois, sem mim, você poderá trabalhar. E você vai, eu sei. Você vê, não consigo sequer escrever. Nem ler. Enfim, o que quero dizer é que depositei em você toda minha felicidade. Você sempre foi paciente comigo e incrivelmente bom. Eu queria dizer isto - todos sabem. Se alguém pudesse me salvar, este alguém seria você. Tudo se foi para mim mas o que ficará é a certeza da sua bondade. Não posso atrapalhar sua vida. Não mais.

Não acredito que duas pessoas poderiam ter sido tão felizes quanto nós fomos." Viginia Woolf.

7.19.2009

Recruta Zero


A morte coreografada


Vimos um espetáculo de dança, música, pirotécnico, patético, televisivo, mesclado com atuações risíveis de dor e comoção. Vários negros com luvas brancas, figurinos meticulosamente calculados dizendo falas elaboradas e vazias, usando o que sobrou do difunto para se promoverem, como faziam com a criatura viva. A única parte realmente comovente foi ver a filha do morto se mostrando pela primeira vez, em prantos, tentando desesperadamente limpar a imagem do pai falecido, o qual a pouco tempo era considerado um pedófilo excêntrico e agora encarnou post mortem a figura do gênio incompreendido. E atrás um bando de urubus com cara de pesar tentando se mostrar condolentes e atenciosos coma pobre menina desfigurada.Show de horrores que durou intermenáveis duas semanas e que ainda pipoca na Tv cada vez com menos intensidade.Enquanto isso o pobre difunto sem nariz ou com nariz, preto ou braco, se mantém embalsamado em alguma cripta esperando o derradeiro descanço final, que só virá quando os urubus acabarem de comer o último pedaço de carne decrepta.Que deus o tenha.

Confissão


Eu sou a reencarnação da Simone Beauvoir!
Pronto!
Contei...

Penso em você Erêndira

_ Você se atreveria a mata-lá?
Tomado de supresa, Ulisses não soube o que responder.
_Talvez – disse – Você se atreve?
_Eu não posso – disse Erêndira - , é minha avó.
Então Ulisses examinou outra vez o enorme corpo adormecido, como que medindo sua quantidade de vida, e decidiu:
_Por você sou capaz de tudo.

(G. Garcia Marques)

Também me apaixonei por Erêndira.

7.06.2009

Domingo de macho

Luis Augusto é filho único de mãe traída. Nasceu e cresceu na casa de tias solteironas, que o fizeram desde cedo compreender o lugar (privilegiado) do macho dentro da família. Não demorou muito, Luis Augusto compreendeu o lugar do macho no mundo, e as dificuldades para manter essa posição. Este intrépido exemplar masculino começou logo a beber, e freqüentar lugares de baixo escalão. Saía com prostitutas e se gabava de ter o mais potente e comprido membro sexual. Lógico que essas afirmações eram apenas suposições, pois no seu íntimo Luis Augusto sentia-se inseguro sobre seu pênis, evitava ficar ao lado de outro homem no mictório, mas se fosse inevitável, esticava o pescoço e espiava para uma possível comparação. Mas o que mais incomodava ao impávido Augusto era a tortuosa envergadura de seu membro ereto, e para não correr o risco de ser desmascarado por alguma puta ressentida sempre se precavia apagando a luz na hora do sexo, e afirmava em rodas de amigos “gosto de luz apagada para poder pensar na bunda que quiser”.
A idade bateu a porta, e o tempo dentro de sua insipidez e escárnio fez nosso herói perceber a crueza da vida solitária. Luis Augusto realizou, por tanto, uma busca a esposa perfeita e depois de experimentar todos os tipos de mulheres que se achava no direito se casou com a que aparentava menos ameaça a sua virilidade fugaz.
Hoje o destemido Luís Augusto passa as tardes de domingo realizando a trindade masculina - sexo, futebol e cerveja - da forma mais pungente e indigna que sua falta de amor próprio propicia.

Atestado de Pobreza

O Atestado ou Declaração de pobreza é um documento usado para comprovar que uma pessoa não tem condições de pagar os custos exigidos para ter acesso a alguns serviços como: assessoria jurídica e segunda via do RG, entre outros. Não é necessário apresentar nenhum documento junto com a Declaração de Pobreza.Garantir que as informações presentes na Declaração são verdadeiras é responsabilidade do declarante.


Ou seja, a única coisa nesse país que você não precisa passar pela burocracia pra provar é que é pobre. Deve ser porque isso é óbvio já que somos brasileiros!


DECLARAÇÃO DE POBREZA

Eu, ___________________ (nome), RG ______________(nº do RG) DECLARO, nos termos da Lei nº 7.115, de 29 de agosto de 1983 e, para os devidos fins, de que sou pobre na acepção jurídica do termo, não dispondo de condições econômicas para custear ___________(nome do serviço solicitado), sem sacrifício do sustento meu e de minha família.
Por ser a expressão da verdade, assumindo inteira responsabilidade pelas declarações acima sob as penas da lei, assino a presente declaração para que produza seus efeitos legais.

São Paulo, ____, de _____________ de 200__.

__________________________________

(assinatura)

A Loira do ônibus I

Há alguns dias atrás estava no ponto de ônibus da Faculdade, quando vejo apontar na esquina o 525 cantando pneus, que parou no meio fio com uma manobra certeira. Eu e o rapaz que estava ao meu lado nos entreolhamos com uma mistura de susto e admiração. Em uma fração de segundo desce o motorista indignado com o celular na mão, gritando aos quatro ventos todo tipo de impropérios que devidamente censurados se resumiriam em: “não vou mais dirigir esse carro, ele está estragado e não vou ficar mais concertando!”.
No banco da frente estava uma senhora que me chamou atenção, ela ia pelos seus 50 anos de idade. Cabelos loiros na altura do ombro, ralos, e quebradiços. Estava vestida de calça jeans apertada, blusa estampada justa, muita bijuteria barata, e sandália amarela de salto médio. Percebia-se nitidamente que havia se arrumado além da conta.
Ela observava o motorista com olhar de pesar, e ficava pedindo ao trocador para ir conversar com ele, mas o trocador mal dava atenção para suas lamentações. Em dado momento ela chamou pelo nome do motorista e não sendo atendida fez um beicinho e ensaiou um choro infantil que também não surtiu efeito algum.
O tumulto se estendeu. O motorista ficou andando para todo lado gritando ao telefone; o trocador parado, olhando, tentando não se envolver; e a mulher loira tentando chamar atenção hora do motorista, hora do trocador, sempre sem sucesso.

A Loira do ônibus II

Em um dado momento escutei a loira falando ao trocador “É por isso que eu sumo, cara. Ele não te falou que eu sumi? Então, ele fica assim e me dá porrada na cara. Ai não dá. Ele puxa meu cabelo e me dá tapa na cara. Quando ele fica assim eu sumo mesmo, se não apanho.” Não pude deixar de notar que ela falava isso com um certo orgulho. Eu que estava do lado de fora do ônibus ouvi nitidamente, mas o trocador que estava dentro não soltou nenhum pio.
Finalmente todos entraram no ônibus e o trocador fez sinal que já iriam partir. Indo contra todos meus instintos de sobrevivência, entrei no ônibus. Ela se sentou ao lado do motorista e eu sentei-me do outro. Lógico! Fui ouvindo enquanto ela destilava seu monólogo com as perninhas cruzadas e as mãos entrelaçadas no colo, muito elegante.
A Loira dizia que havia feito uma operação de implante dentário e que teve de vender suas jóias; ela dizia “jóias a gente não precisa, mas dente na boca é importante”. Ela prosseguiu dizendo que ficou um mês em casa e que estava precisando sair, por isso pegou aquele ônibus com ele (o motorista). Em certos momentos ela completava “não posso falar muito, minha boca ainda está doendo”, mas mal terminava a frase e já ementava outro assunto, e o motorista nem se dava ao trabalho de responder, e nem mandar ela se calar. E ela ia contando sobre a operação e o quanto tava doendo, e nunca se calava. Nunca se calava.
Não fui capaz de recriminar a Loira, pelo contrário senti uma intensa simpatia por ela. Desci do ônibus e ela já havia desistido de chamar atenção do motorista. Tive que me controlar pra não me despedir dela com um abraço.

Horóscopo


Meu horóscopo hoje me deu uma boa lição de como me relacionar com as pessoas:

"Eis que a Lua torna-se cheia, formando uma oposição ao Sol, no eixo 1/7 do seu mapa astrológico, entre os dias 05/07 (Ontem) e 07/07, Rafaela. Estes serão dias delicados, onde a palavra-chave é ajuste dos relacionamentos: quem sou eu e quem é o outro? Até que ponto eu vejo o outro como outra pessoa, até que ponto perco a objetividade e o vejo como um espelho de mim? Todos nós tendemos a projetar coisas de nossas almas sobre as outras pessoas, em maior ou menor grau, e em alguns momentos específicos. Convém, Rafaela, neste momento, você avaliar melhor se aquilo que você tanto critica ou elogia em seu próximo está realmente no outro ou se é algo seu que se encontra projetado. Este pode ser um maravilhoso momento de complementaridade, em que surge alguém com as peças que faltavam para você montar um quebra-cabeças, mas pode também ser um momento de confronto, em que dolorosamente alguém lhe enfia o dedo na ferida."

7.03.2009

Pina Bausch est morte.


Fiquei infinitamente mais tocada pela morte da Pina Bausch do que pela do Michel Jackson. Nada contra o dito Rei do Pop, mas suas contribuições para música para mim são mais do que duvidosas.
Há certas mortes que vêem para acolher, encerrar, mas outras, como é o caso da Pina Bausch, soam como uma grande perda.
Na minha humilde opinião foi um prejuízo para os apreciadores da fina Arte.

6.26.2009

Tira a calcinha e põe a calcinha... (ao mesmo tempo?)

(Sarah Lucas - Chicken Knickers)

Minha amada

(Étant Donnés - Duchamp - Última obra do artista, seria uma metáfora sobre a morte da arte? Ou uma despedida da amante que permanece entregue, sedenta e inatingível?)

Há cinco anos estudo Arte. E hoje mais do que nunca estou envolvida e decepcionada com ela. Arte é uma amante sensual e ingrata. Daquelas que usam perfume barato e lingerie vulgar, mas sabem dar prazer como ninguém.

6.16.2009

Sexo do Senhor!

Me perdoem os evangélicos, mas não poderia deixar de publicar essa pérola literária. Ouvi falar desse texto em que Edir Macedo (no livro Castigo Divino) explica como deve ocorrer uma relação sexual e nunca acreditei, até que me deparei com ele na íntegra em uma das minhas pesquisas pela internet. Fiquem com esse precioso raciocínio:

Posição Recomendada: O homem e a mulher devem lavar suas partes com 1 litro de água corrente misturado com uma colher de vinagre e outra de sal grosso. Após isso, a mulher deve abrir as pernas e esperar o membro enrijecido do seu parceiro para iniciar a penetração.

O homem após penetrar a mulher, não deve encostar seu peito nos seios dela, pois a fêmea deve estar orando ao Senhor para que seu óvulo esteja sadio ao encontrar o espermatozóide. Depois do ato sexual, os dois devem orar, pedindo perdão pelo prazer proibido do orgasmo. Como penitência, o açoite com vara de bambu é aceito em forma de purificação.

Angu Doce

Nem sempre ir ao supermercado é uma experiência banal. Outro dia me bateu um desejo, desses que não só as grávidas usufruem. Necessitava com todas as minhas forças comer angu doce. Sim, essa iguaria característica dos lares menos favorecidos economicamente.
Constatei com pesar que não haviam os ingredientes necessários a feitura desse quitute. Dirigi-me ao supermercado mais próximo, apesar da dor nos pés devido as bolhas que me saltavam nos calcanhares. Malditos sapatos novos!
Enfiei-me, então, entre as prateleiras de cereais. Estava absorta na interessante tarefa de comparação de preços e marcas de fubá, quando escuto um grito histérico. E um grito histérico em tempos de pandemia de gripe e aumento da passagem de ônibus merece nossa atenção.
Fiquei atenta ao que estava acontecendo e olhando para o chão, o que vejo? Um rato! Sim senhores, um rato grande, marrom, de rabo comprido, nojento, atravessando correndo o corredor por baixo das prateleiras.
Fiquei paralisada, me esqueci de tudo: do fubá, da dor do calcanhar, da crise mundial, do aumento da passagem. Estava em choque. Peguei qualquer fubá, me dirigi ao caixa e jurei que nunca mais pisaria naquele supermercado imundo. Mas é lógico que esse juramente durou até a tarde do dia seguinte quando precisei comprar pão.
Para os que ainda têm estômago para comer ai vai a receita de angu doce.

Ingredientes:
8 colheres de fubá;
4 colheres de açúcar;
250 ml de leite;
Pitada de sal;

Modo de preparo
Jogue o leite frio em uma panela, e acrescente o fubá, depois o açúcar, e vá mexendo. Pingue mais leite aos poucos até atingir uma consistência pastosa. É bom colocar uma pitada de sal para dar mais gosto. Coloque em um recipiente, espere esfriar e coma com café ou chá.

5.27.2009

Nesta baiuca não reinará mais o silêncio e o vazio.

Não escrevo há semanas, no começo por opção, mas depois por imposição do tempo – ou a falta dele-. Mas agora torno medida de honra escrever esse final de semana. Irei escrever para mim e por mim, como sempre fiz!
Nem que eu use como assunto a última cistite que tive! Ou disserte sobre minha última bolha no pé. Nem que tenha que fantasiar um acontecimento, como muitas vezes fiz!
Deixo aqui marcado um pacto com meu fedido blog que desse final de semana minha afasia não passa!!!

Claude Cahun


Ela raspou a cabeça;
Fazia peças que desconstruía a imagem das princesas dos contos de fadas;
Era amiga de artistas surrealistas;
Fazia trabalhos fotográficos que questionavam o estatuto do machismo;
Lutou na resistência contra o nazismo;
Executou trabalhos revolucionários em fotografia;
Foi presa e torturada;
Era homossexual assumida;
E isso tudo entre 1894 e 1954;

Essas informações são para nós mulheres - privadas do domínio sobre nós mesmas - lembrarmos quando formos ao salão e sairmos indignadas, nos sentindo castradas, porque o viadinho do cabeleireiro cortou um dedo a mais do cabelo do que gostaríamos.



5.06.2009

Sem poesia!

Ando nada poética por esses tempos, acho que é reflexo da falta de poesia no meu cotidiano. Não por culpa minha, ou por culpa dos acontecimentos em si, acho que são as pessoas que andam pouco criativas em suas atitudes. Tem havido uma sucessão maçante de atitudes previsíveis e desinteressantes. As pessoas continuam com as mesmas inseguranças de sempre, as mesmas mentiras de sempre, as mesmas tolices de sempre, os mesmos delírios de sempre. Por que a gente não tenta, nem que seja por um segundo, sair do padrão e surpreender? O comum é se aborrecer? Então vamos ignorar. O padrão é ignorar? Então vamos nos aborrecer!
Estou na expectativa de ser surpreendida.
Deixem de ser chatos!

Bajofondo



Minha descoberta musical de 2009. Não consigo sair na rua sem estar ouvindo de fundo essa batida, ela vai ritmando meus passos e vou vendo o mundo como um clipe de tango eletrônico. Vou andando e transformando as pessoas a minha volta em personagens dessa história: amores, desamores e figurantes. Como se todos fossem cúmplices do meu prazer auditivo pessoal. Puro egoísmo sonoro.

4.08.2009

Artemisia Gentileschi

(Judith Beheading Holofernes 1611-12)

Meu blog não se presta a ser uma enciclopédia, longe disso, no máximo uma fonte de referências de meu (mal?) gosto pessoal, nada mais que isso. Não estou aqui pra ensinar nada a ninguém, pelo contrário. Mas vou abrir uma exceção a uma mulher que me encantou desde a primeira vez que ouvi seu nome: Artemisia Gentileschi.
Ela viveu em uma época em que a pintura como todas as outras áreas do conhecimento eram dominadas pelos homens. Não que as mulheres não fossem capazes, mas infelizmente a elas era vetada a entrada como aprendiz nos ateliês dos mestres.
Artemísia nasceu em 1593, filha de um pintor talentoso de Roma e com ele aprendeu as técnicas de claro/escuro do Barroco da época. Quando era muito jovem, por volta dos 15 anos, foi entregue aos cuidados de um amigo do pai, um homem mais abastado para que pudesse prosseguir nos estudos de Arte. Artemísia fora então violentada e explorada por esse homem. Um processo judicial demorado sobre o fato foi aberto deixando a vítima mais constrangida. Se hoje um processo de investigação de um estupro é penoso imagina no século XXVII!
No final o estuprador chamado Agostinho Tassi saiu praticamente imune por ser um homem bem colocado socialmente, soube manejar a situação a seu favor. E Artemisia seguiu sua vida, casou-se, mas teve que trabalhar muito para sustentar sua família, pois seu marido viciado em jogo apenas contribuía para que as dívidas se acumulassem...
Meu reconhecimento a genialidade de Artemísia parte do pressuposto não só dela ser uma excelente artista, por saber se comunicar muito bem com a linguagem visual - como vemos no quadro acima-, mas também por ser uma das primeiras feministas que se tem notícia. Além de seu talento não reconhecido, sua força! Podemos dizer que Artemisia é uma mulher que sabia da necessidade de se cortar a cabeça de alguns homens, e isso merece nosso respeito.

4.03.2009

Lambe Lambe

De Elisa Lucinda

[Fui a um sarau de poesia ontem e depois de ouvir muitas poesias – algumas de boa qualidade outras sofríveis – fiquei pensando: de todas as poesias que conheço qual recitaria em público? E me veio à cabeça a Elisa Lucinda, ai tive certeza, é essa poesia à baixo que recitaria.]

Passam muitas pessoas no saguão dos aeroportos.
Passam neste aeroporto da agora,
e eu, no meu pensamento,
não me comporto,
imagino elas fodendo:
fulano com fulano,
são casados, gozam, fazem planos?
E ela, quer logo que acabe?
E ele, penetra rosnando?
Fantasio as inúmeras possibilidades de encaixes,
em como foram as noites de amor que tiveram para fazer essas
crianças chinesas africanas alemãs francesas mexicanas libanesas
brasileiras cabo-verdianas espanholas cubanas holandesas
senegalesas turcas e gregas.

(meu pensamento é inconveniente mas ninguém sabe,
escrevo num café, estou, por fora, muito chique no cenário
e nitidamente estrangeira.)

Agora passam dois homens.
Sentam à mesa ao lado.

Falam germânico mas a tradução é da mais alta putaria,
Uma iguaria da mais pura sacanagem!
Eu sei, são gays. Eles não sabem que eu sei.
Pensam que escrevo o abstrato
E capricham descansados ao colo do idioma que não alcanço.
Mas sou poliglota na linguagem dos molhares,
cílios a mais antiga cortina do mais antigo teatro
na pátria universal dos gestos, meu bem!
Eles não escapam.
Um chupa muito o outro, que eu sei,
e o magrinho gosta de dar por cima e de lado.
Importante dizer que dentro desse meu pensamento safado
também não tem pecado.
Só me diverte
Ver o que todos negam,
O que não se diz no social,
Uma radiografia verbal da intimidade alheia é o que faço aqui,
Sem que ninguém suspeite,
Sem ninguém me permitir.

Aquele tem pau pequeno e, pior que isso,
e, mais que suas parceiras, acha isso um problema.
Aquele ali também tem, mas arde na cama e se empenha muito
compensando a diferença.
Aquela, num outro esquema,
diz não gostar da coisa
e fala sem parar.
Só uma pirocada de jeito para fazê-la calar.
A gostosa gordinha engole a espada todinhada
quele altão desajeitado,
cujo grosso membro se torna,
em meio às coxas dela, disfarçado.

E o velhinho punheteiro
De pau mole com jornal no colo?
Talvez seja o único a adivinhar o teor dos meus escritos,
dado que me olha dissimulado e constantede modo a nunca perder meus segredos de vista.

(Com licença mas é dessa matéria hoje minha poesia)

Enxerida, vejo a mulher com cabelo cortado à la moicano
Com a menina que iniciara a tiracolo,
Feliz sem ser por ela lambida
E sem saber no que estou pensando.

Passam as pessoas
no saguão do aeroporto,
fingem que fazem check-in
fingem viajar sérias e de férias,
fingem estar trabalhando...
mentira,
pra mim ta todo mundo trepando!

Frankfurt, 6 junho de 2002

3.31.2009

Somos crioulos do morro

Tenho pouquíssima tolerância a estrangeirismos, sou uma nacionalista besta e deslocada. Adoro a cultura do meu país, adoro nossa língua, nossos costumes. Eu sei que não somos perfeitos, sei que nos falta sofisticação e elegância, talvez um pouco de estudo, mas só dou o direito desse tipo de crítica aos brasileiros, nada de estrangeiros dizendo como somos e como vamos.
Com estrangeiros tenho pouca paciência, com os brasileiros metidos a estrangeiros não sobra um pingo de compreensão. Nada mais pavoroso do que ver um brasileiro se comunicando em outra língua, tentando desesperadamente parecer mais sofisticado do que realmente é. O pior é quando a língua eleita é o inglês, porque achar que ninguém está entendendo é um equívoco bizarro. Aos equivocados eu digo: minhas crianças, inglês é língua universal, até nas escolas de zona rural há professorinha de inglês.
Ou se a pessoa tem a sorte de aprender alguma língua pouco comum se aventura a falar e escrever na tal língua com todos, sem tomar conhecimento que ao invés de impressionar está passando por parvo, por estar falando uma coisa que absolutamente ninguém está compreendendo. Uma palavrinha ou outra vá lá, mas frases inteiras? Ai já é demais.
Eu entendo a influência de outras línguas em nosso idioma, isso é interessante para o enriquecimento dela, mas não compreendo a desvalorização da nossa cultura quando um jovem prefere usar gírias em inglês ao invés de tentar se expressar na sua língua natal.
Não sei se estou sendo careta, ou reacionária. A questão é que um dia desses um ser adepto aos estrangeirismos teve a pachorra de me dizer que o Brasil não tem cultura própria, com alguns minutos de conversa percebi que o infeliz não fazia idéia do que se tratava a palavra cultura, mas mesmo assim me chocou.
Ver um brasileiro se expressando em outra língua pra mim é como ver um negro no apartheid usando linguagem de branco. Vamos tentar valorizar mais a nossa “crioulice”, e parar de se envergonhar dela. Como dizia o mestre Bezerra da Silva: somos crioulos doutor, mas ninguém roubou nada!

Madame Nazaret

(by Diane Arbus)

Madame Nazaret era a segunda mãe das meninas, enchia-as de mimos e carinhos. Sabia conduzir a situação para que elas fizessem o que queria sem nem perceberem. Nazaret tinha o dom raro de fazer tudo parecer mais bonito, mais poético. Ela conduzia os negócios como ninguém. Manejava os desejos dos homens e os medos das garotas, era respeitada por todos e alguns clientes até a chamavam de mãe.
Estipulava leis rígidas em sua casa, tanto para os clientes quanto para as garotas. Ela acreditava que vendia amor, e que o seu casarão se transformava no paraíso duas vezes por ano, quando oferecia festas homéricas.
Madame Nazaret era uma matrona corpulenta, cheirava a maquiagem ordinária. já passava dos 50 anos, mas isso ninguém sabia ao certo, jamais revelava sua idade. Era conhecida pela sua ruidosa gargalhada, que em noites animadas era ouvida à alguns quarteirões do casarão, o que escandalizava as beatas e as senhoras conservadoras em seus respeitáveis lares.
Chamava atenção por sua brancura de nácar, e seu grande peito de soprano era coroado por uma magnólia artificial. Usava sempre vestidos escuros de veludo muito apertado, que contrastavam com os olhos de água quase translúcidos, e os cabelos pretos caídos como um manto da cabeça. Usava brincos pendentes, e um sinal pintado a lápis na face direita.
Ela recebia todo tipo de autoridades locais e há quem diga que até o governador andou freqüentando seu jardim.
Chamava as meninas de passarinhas, pois chegavam assustadas e fugidias, mas logo se emplumavam e soltavam belos cantos. Nazaret se emocionava com o amadurecimento das passarinhas e as impulsionada a alcançar vôos mais altos.
Ela ensinava tudo sobre os homens às meninas, e parecia que ela os conhecia como ninguém. Madame Nazaret as direcionava tanto nas carícias na cama quanto no relacionamento fora dela. Só de bater os olhos em um novo cliente Mandame Nazaret sabia exatamente o que precisava e o direcionava ao ninho da passarinha certa. Nunca errava.
Essa resistência à vida Nazaret aprendeu só a custo dos erros do coração. Quando ainda mocinha entregou-se ao homem errado que aos poucos a ensinou pelo caminho mais árduo e penoso como lidar com as armadilhas do amor.

3.20.2009

Pequeno delito


Que mulher nunca sonhou em entrar em uma loja cara, ir ao provador e colocar aquela blusinha incrível dentro da bolsa? Ou surrupiar aquela presilha de cabelo da loja entulhada de gente? Quem nunca quis enfiar na bolsa aquela barra de chocolates finos da biscoiteria? Quem nunca planejou sair do restaurante sem pagar? Ou passar despercebido pelo guichê do estacionamento?
Querer levar vantagem sobre os outros é genuíno da nossa espécie!
Há pouco tempo estive com uma velha amiga e ela me disse que deu um prejú de R$700,00 a uma grande loja de departamentos. Ela me explicou seu método passo-a-passo, ela entrava na loja, escolhia as roupas que não tinham aquele botão de segurança, e enfiava na bolsa. Depois pegava algumas outras e ia no trocador, lá ela ajeitava as roupas dentro da bolsa, conferia se não tinham botão e saía da loja como se nada tivesse acontecido. Ela me mostrou seus troféus um por um dizendo o preço que não pagou. Aposto que ela não decoraria se tivesse pagado.
Eu jamais teria coragem de fazer tal coisa, sou do tipo que não colava no colégio porque ficava nervosa demais pra abrir o papelzinho. Mas essa semana fui comprar umas coisinhas pra mim. Entrei numa loja de roupa conhecida na cidade, e fiquei zanzando igual uma palhaça e ninguém veio me atender. Não tem nada que me irrite mais do que falta de educação, ou ser ignorada por atendente nojentinha. Lembrando de minha amiga dizendo: “Mas a coisa mais fácil é entrar em uma loja dessas que o atendimento é péssimo, pegar uma peça e ir pro trocador e por na bolsa.” Peguei, então, a roupa que me interessou e fui pro trocador. Quando cheguei lá pensei “vou vestir e se ficar bom meto-a dentro da bolsa e saio, e ainda faço cara de desdém, do tipo ‘nada aqui serve pra mim’”. Mas na hora que eu estava no trocador a roupa ficou tão horrível que eu não quis ter o trabalho de roubá-la. Saí da loja decepcionada e envergonhada achando que todo mundo sabia o que eu planejava. Sou tão fiasco como ladra que fracasso até sem roubar nada.

Keith Maria


Keith Maria foi abandonada pelo noivo no altar. O noivo não compareceu ao casamento, apenas mandou um recado pelo irmão dizendo que mudou de idéia. Só isso. Keith foi pra casa, não quis falar com ninguém, não quis receber condolências de ninguém, a única coisa que ela quis consigo foi o bolo de três andares recheados com pasta de ameixa e doce de leite com coco e cobertura ornamentada com o melhor chantilly extra cremoso.
Keith Maria já no taxi, ainda vestida de noiva, começou a desenvolver este precioso raciocínio:
Minha mãe me avisou! ‘Não case com esse cara que usa boné, homens que usam boné não prestam! ’ Faz sentido, boné é coisa de criança ou homem careca, se o cara não é uma coisa nem outra só pode significar infância tardia. E nada pior do que homem com síndrome de Peter Pan, aquele tipo eterno crianção.
Sabe o que é pior de ter relacionamento amoroso? É ter que mentir. Eu menti do começo ao fim; disse que ele não irá ficar calvo, que o pênis dele não era tão torto assim, ‘Não querido, seu pênis não é de gancho’. Que gostava do sexo oral dele. Que era virgem quando o conheci. Se eu for por inferno por mentir, a culpa vai ser dele! Sobre o lance da virgindade, bem... Quer dizer, teve o Marcos, mas ele não conta porque tinha o pirú pequeno. Enfim, a questão é que eu menti mais que viúva de padre!
E sabe do que eu mais me arrependo? Não ter mandado aquela porca da minha sogra ir à merda. Ela ficou lá na igreja com um sorrisinho no rosto. Cretina! Por culpa dela emagreci 5 kg nos últimos meses. Ela me entupia de mamão com aveia e todo tipo de laxante natural, dizia que mulher que não caga bem não tem saúde pra ter filhos. Quem disse que eu quero ter filhos? Velha ordinária!
Eu sabia da personalidade instável dele, sabia que ele possuía os dois defeitos clássicos masculinos: alcoolismo e infidelidade. Sabia que ele não tinha o costume de lavar suas próprias cuecas, e isso pra mim é falha de caráter. Sabia do gosto duvidoso por filmes de ação e gomas de mascar. Sabia que ele gozava rápido demais. E pra fechar tinha o péssimo hábito de suar o nariz em público, inclusive em restaurantes! Bem, não posso dizer que fui enganada, e sim que me enganei.”
Depois de passar e repassar todos os erros e arrependimentos de sua relação Keith Maria se atirou sobre o belíssimo bolo de seu casamento e o fez desaparecer em menos 20 minutos.

Conceição

Depois de uma paixão, assolapada e imbecil, uma mulher, quando finalmente deixa de gostar de um homem, passa por várias fases. Há a fase da surpresa. Há a fase do alívio. Há a fase do nojo. Há, por fim, a fase do vazio.
Com Dr. Juarez dos recursos humanos, foram 6 meses de intensa desordem emocional e uma dezena de meias-calças rasgadas nos pregos protuberantes da mesa do escritório. Depois dos 6 meses e alguns telefonemas desesperados de ameaça ao casamento sólido e tedioso do Dr. Juarez, Maria Conceição está finalmente consciente e feliz em sua própria pele, e com o fim de seu caso sem futuro. Um belo dia Conceição banhada de suor, sentada na recepção, coroada por um ventilador de pás empoeiradas que rodava ritmicamente ressoando um ranger hipnotizante, levanta o olhar e diante da porta entreaberta vê Dr. Juarez almoçando um hambúrguer com fritas e coca média em sua mesa de escritório. Ele tenta abrir o catchup com os caninos em vão, experimenta então os pré-molares, também fracassa, e quando finalmente consegue um minúsculo buraco a pressão excessiva feita pelos dedos gordinhos sobre o saquinho o faz esguichar e sujar toda a camisa. Maria da Conceição percebeu, nesse preciso instante, que, relativo ao seu chefe, apesar de tudo o que acontecera, apesar de tudo o que estava para vir, não seria capaz de passar pela fase do nojo. Pois referente àquela criatura a sua frente a única coisa que conseguiria sentir é piedade.