12.08.2008

Eu Barcelona


Detesto quando me deparo com obras que sei que poderia ter feito, se me dessem a oportunidade e um pouco de tempo eu sei que as faria. Foi esse caso o filme que vi a pouco no cinema, Vicky Cristina Barcelona de Woody Allen.
Vi-me retratada nessa película na pele das duas protagonistas. Vi meus pensamentos e opiniões sendo debatidos na tela, todo o universo que me permeia sendo tratado da forma mais jocosa ao estilo woodialiano.
Vi meus dramas pessoais, e minhas angústias amorosas sofridas a pouco. Vi meu desejo de liberdade, e meu temperamento difícil. Vi que não é fácil lidar com a instabilidade, e eu não sou a única a sofrer com isso. Vi minhas descobertas artísticas, e minhas inquietações, e meu medo de onde isso tudo vai me levar.
Mas o que mais amei foi o comentário de Allen ao se deparar com o sucesso do filme:
"Terminei este filme há vários meses, e, quando termino um filme, não sinto mais o menor interesse nele. Já recebi ótimas críticas de filmes que não ganharam um dólar nas bilheterias. Recebi críticas negativas de outros, e isso nunca significou nada. O fato de lhe chamarem de grande não faz você ser grande, e o fato de dizerem que um trabalho é terrível não o torna terrível. Eu me lembro de, anos atrás, voltar para casa depois de ter um grande triunfo com 'A Última Noite de Boris Grushenko' ('Love and Death') e, mesmo assim, a garota do apartamento em frente não quis sair comigo. Eu estava em casa, sozinho, comendo comida chinesa diretamente da embalagem, sem nada a fazer exceto assistir à televisão. O sucesso nunca significa nada".

11.28.2008

A mágica do peixinho dourado


Era uma vez um peixinho dourado amaldiçoado, perdia sua memória a cada 3 segundos. E tudo que viveu, tudo que viu e ouviu se perdia, como se fosse engolido por um grande ralo.
Seu passado não importa, e o seu presente é constituído por segundos. Quando passam aqueles calculados 3 segundos nada existe mais, surge o vazio total.
Todos já cruzamos com peixinhos que não tem capacidade de aprender com a vida, que esquecem os erros cometidos e os cometem de novo com a mesma empolgação que testemunhamos antes. Peixes em que relacionamento é sinônimo de sucessão de pessoas sem significado, de momentos teatralizados e sem emoção. Após 3 segundos de distância da pessoa amada, pronto! A mágica acontece! O afeto, o carinho, o compromisso se perde no vasto esquecimento do pequeno peixe. E se a pessoa amada se vai, a única coisa que o peixinho se presta a fazer é ensaiar uns suspiros, fingir algum ressentimento, mas logo após ele vai nadar leve e brilhante pelo oceano a fora, balançando sua calda como se nada tivesse acontecido. De fato pra ele nada aconteceu.

(essa lenda de que memória de peixe dourado dura apenas 3 segundos está caindo por terra, alguns estudos mostram que eles são mais espertos do que a gente imaginava. Na verdade eles são criaturas sonsas, fingem-se de bobos.)

11.26.2008

Summertime

(Nina Simone)
Summertime and the livin's easy,
Fish are jumpin', and the cotton is high.
Oh yo' daddy's rich and yo' ma is good lookin',
So hush, little baby, don' yo' cry.

Castração

Anastácia acorda toda manhã um pouco mais cedo que o normal, só para ter o prazer de ficar na cama mais um pouco, como se estivesse transgredido alguma regra, ela acorda, desperta, e espera os 15 minutos decorrentes do seu adiantamento com grande satisfação. Depois se veste com carinho, ajeita a meia-calça com as mãos em movimentos delicados, orgulha-se de suas pernas, sempre se orgulhou. As meninas do ginásio a invejavam-na, pois o cobiçado professor Heitor de educação física uma vez elogiou a resistência de suas coxas, suas palavras ecoam em sua cabeça até hoje. E ela não controla o surgimento de um sorriso ao lembrar-se desse fato.
Ela se olha no espelho, ao contrário das pernas ela não gosta do que vê. Nunca gostou muito da carcaça com que nasceu, sente que aquela que ali está, do outro lado, não é ela. Um metro e meio de altura. Cinquenta quilos de carne, ossos, pele. Cabelo preto, comprido, liso, à força de tanto o esticar. Alguns cabelos brancos. Olhos escuros. Um nariz grande, redondo. Uma pele ruim, cheia de poros abertos, pontos negros, vermelhidões. Suas mamas parecem cada vez mais pequenas, cada vez mais caídas, como se fossem flores murchas dentro de uma jarra. O peso do tempo a preocupa. As vezes sente que desperdiçou parte da vida com o trabalho, teve poucas oportunidades de se envolver com homens. Ela lamenta.
Ao sair, pára em um sinal e um homem de meia idade sussura em seu ouvido: “Com esse cabelo preto deves ter um bom grelo. Lambia-to todo! Horrorizada Anastácia atravessa a rua, sentindo um calafrio percorrer suas costas. Derrepente se vê sobressaltada, e totalmente perdida na cidade em que nasceu e viveu toda a vida. Um ardor percorre seu sexo, e ele se humedece. Ela pensa em parar, em se virar. Vem a mente suas experiências com sexo; o ardor, a queimação, o incômodo causado pelo membro rígido que teima em entrar em um orifício que sempre permaneceu fechado. Seu estômago revira.
Ela acha absolutamente justificado o seu desprezo pelos homens. Por que Deus criou o corpo das mulheres para sofrer, ela sempre soube disso, são cólicas, dores no parto, dores no ato sexual. Será por isso que ela nunca sentiu prazer no sexo? Todos julgam-na frígida, mas ela sabe que Deus amaldiçoou as mulheres. Por isso não se importa com os prazeres carnais, eles não são para as mulheres. Mas em seu íntimo ela queria que ao menos uma vez os homens sentissem dor no sexo, para saberem um pouco do que são feitas as mulheres.

Estou me deixando levar por sorrisinhos.

Falta-me sentido para acordar a cada dia, faltam-me os sentidos durante o dia.
Mazelas de nosso tempo? Sentir-se infeliz por não ‘ter’, não ‘ser’, não ‘estar’, e no meu caso nem ‘parecer’ cabe.
Infelicidade genuína e pura, límpida e translúcida como água, pela simples amargura de estar viva. De ter o que fazer e não sentir vontade de executar. Objetivos? Metas? Pra quê? Qual é o prêmio no final? Até hoje não obtive nenhum troféu, nem mesmo tapinha nas costas.
Caminho para um final, que não sei qual é, mas que deve ser tão triste quanto eu mereço.
Sempre fui de essência melancólica, mas aprendi a conviver com isso. Da mesma forma que aprendi a conviver com meu cabelo crespo, minha magreza, meus problemas familiares, sem os aceitar apenas os suportando. Às vezes me pergunto se deixar de forçar vai adiantar? Uma hora a gente cansa, e eu já me cansei há muito tempo.
Ando por ai triste, cansada e desacreditada. Sofro de desencantamento Weberiano crônico. Colou-me no peito uma amargura que não desgruda, um amargo na boca, e no rosto uma expressão taciturna. Pobre de mim.

11.22.2008

Poker Love


Se relacionar é jogar, e não há jogo que combine mais com o flerte do que o Poker. Os jogadores de Poker irão me entender! O objetivo do Poker é ganhar as fichas da outra pessoa. Você tem suas cartas e seu ‘adversário’ tem as dele, nem um dos dois sabe o que há na mão do outro, então começam as apostas. Você pode começar apostando alto, mas isso assusta o adversário, é bem melhor começar com um lance baixo e esperar para ver o que ele vai fazer. Se ele for aumentando a aposta, ótimo! Você pensa: alguém vai lucrar aqui. Ou ele pode não apostar e te deixar com aquela mão maravilhosa doido pra jogar a ver navios... Acontece também o adversário querer pular umas rodadas e não jogar, ai é ter paciência e esperar. Mas quando você escolhe um bom parceiro o jogo pode ser inesquecível, quanto os dois estão comprometidos em apostar e a tentar entender as jogadas do outro é magnífico. Há também o blefe, é quando suas cartas não são nada promissoras, mas você finge que elas são, ai a outra pessoa pode cair na sua, e olá fichinhas!! Ou você cair em um blefe, e apostar alto e se dar mal... Adeus fichinhas. Às vezes você fica no sufoco, não quer apostar e pede mesa, e seu jogo muda completamente. Nunca se sabe qual carta virá; às vezes você está preparando uma super flush, e as cartas que chegam ajudam seu adversário a fazer um full house e você crê que vai arrasar e ele arrasa você, te deixando de quatro com uma maça na boca. No jogo sempre temos que contar com imprevistos. Há os mais afoitos que querem mostrar logo as cartas que têm na mão, e quando você sabe as cartas de seu adversário fica muito mais complicado, porque você tem que decidir pelos dois o que fazer. Ou dá um banho nele e pega todas as fichas e vai embora jogar com outra pessoa, ou tenta ser mais generoso e dividir igualmente entre os dois, a primeira opção é mais tentadora para os não principiantes. A diferença entre romance e jogo é que no amor ninguém sai ganhando ninguém sai perdendo. No final você sempre aprende alguma coisa, mesmo que você saia sem uma puta de uma ficha!

11.16.2008

Cadê a educação?

Lanço uma campanha em prol da educação nos meios de comunicação. Você já percebeu como ninguém se preocupa com regras de etiqueta na internet? Não é porque estamos na internet, onde ninguém nos conhece, que é válido não ser cordial. Pessoas que deixam a conversa e não se despedem. Você manda um recado e a pessoa te responde séculos depois. Trata-se o interlocutor como se ele não esperasse a resposta, como se ele soubesse o que o outro faz e vê, se leu ou não. Parece que a internet é povoada por autistas, que acham que o mundo gira em torno deles.
Estendo minha indignação ao telefone (principalmente o celular). Você liga uma vez e a criatura não atende, cria coragem, liga a segunda, e a pessoa nada. Você se sente ignorado, e alguns dias depois você encontra o(a) infeliz e ele(a) diz: ah, eu vi que você ligou o que você queria? Porra! Se viu por que não retornou?
Outra coisa desprezível é o tal de três segundos: ‘onde c ta?’. Várias vezes respondi em seguida, e demorei alguns segundos para perceber que a pessoa desligou, não tem como não ficar constrangido.
Então seres internautas vamos:
- Responder recados com certo esmero e rapidez.
- Colocar crédito no celular.
- Se despedir ao sair da conversa.
- Dizer oi antes de iniciar qualquer assunto.
- Não ficar ligando a cobrar pra todo mundo.
- Se perguntar, a pessoa responder, agradeça.
- Não desligar na cara das pessoas.
PS: se o leitor lembrar de mais alguma favor completar nos comentários.

Queria trocar de rosto


Não necessariamente mais belos
Escolheria os de homem
Os de bicha
Queria ter todos os rostos

E trocá-los como minhas roupas
Ser invisível
Ser admirada
Agredir
Sossegar

Vestiria as rugas de um velho
Sábia, me sentaria no jardim
Acenderia meu cachimbo
E veria o mundo passar

Seria uma bela negra
Escura e Corpulenta
Teria um arrogante olhar
E um rico namorado

Queria ser todos
Para não ser nenhum
E modificar
Para nunca me enjoar

A saga natalina materna.


Natal é época boa na vida da gente até os 10 anos, depois vira tudo uma sucessão de presentes infelizes e festinhas chatas com tios bêbados. Essa magia coca-cola já se perdeu há muito tempo na minha vida, e por um bom período abdiquei de comemorar o natal, pela total falta de sentido. Mas quando os miúdos nasceram, primeiro a Helena e depois o Pedro, tive que retomar os sonhos de infância, mas agora sobre nova ótica: tentar fazer um bom natal para meus rebentos.
A saga começa na escolha da arvore de Natal, quanto maior mais bonita, e mais cara. Os enfeites variados e coloridos também são apelativos e custosos. Mas o mais difícil são os pedidos das crianças, ter que gastas 1/3 do meu salário em um boneco feio, que eu sei que vai perder o braço em um mês, é difícil. E mais ainda é encontrar aquela Barbie Cinderela flash plus, que apareceu no comercial e que só serve ela!
E as intermináveis tardes de passeio no shopping?! Hoje os levei para passear no shopping e conversar com o papai Noel, que pra mim parecia mais meu tio Dirceu de barbas, ele sempre bebeu demais e ficava vermelho e bobo. Fiquei três horas na fila do papai Noel para as crianças ouvirem dois segundos de um ‘hol hol hol’ e a porra da rena gritar: próximo!!!!
A Helena quis sorvete, Pedro quis a piscina de bolinha, depois o hambúrguer que vem com brinquedo. No final estava exausta, sem dinheiro, e com meus filhos mal alimentados e agitados. Viva o espírito de Natal.

11.05.2008

Olhos descascados

Meu amor,

Meu corpo está estagnado,
no mesmo lugar.
Parada,
sempre,
sentada,
esperando você.

Meu corpo teu,
vive de sua alma,
eu respiro tua pele.
Amo suas víceras.
Cálida.
Te espero

Percebo um corte no rosto,
sinto sua lembrança,
seu pênis dentro de mim,
seus pelos em minha boca.
Te espero

Seus dedos me apertam,
deixam marcas em minha pele.
Meus cabelos em suas mãos.
Minhas unhas soltam pelo seu corpo.
Doi.

Seu sêmem em minhas mãos.
E o que eu faço com tudo isso?
Eu enterro espinhos,
mas eles voltam para espetar meus pés.
Bebo sua saliva.
Me banho em seu suor
E esse seu vômito como eu posso aproveitar?

(Carta de amor escrita quando descobri a obra de Beth Moysés, seu trabalho gira em torno da violência contra a mulher)

11.04.2008

Coisas das quais eu me orgulho, mas talvez não devesse

Meu dedão da mão vira muito e isso facilita a jogar sinuca.
Jogo sinuca.
Jogo baralho.
Tenho uma cama grande, apesar de ter sido quase um erro comprá-la.
Escrevo com freqüência.
Ainda uso tremas.
Faço várias coisas ao mesmo tempo (nem sempre dá tudo certo).
Tenho tatuagem
Durmo bem de conchinha.
Meu número de celular nunca mudou (e o aparelho só 3 vezes).
Bebo muita água.
Sei o que está passando em todos os canais parando menos de um segundo em cada. (isso é legal)
Faço coisas sem a menor importância parecerem interessantes.

Meu bem, você está me achando agressiva hoje? O.0 (1)

Por que todo mundo é tão decepcionante? Porque bem lá no fundo, são todos uns covardes. Uns covardes! O mundo inteiro virou um bando de covardes. Todo mundo tem medo de tudo, ninguém tem coragem de assumir porra nenhuma, onde foi parar a honra viking?! Ou a lealdade de um guerreiro espartano?! Não existe mais... Só vemos por ai medo e falta de caráter que unidos resultam em decepção.
Bando de bundas moles que não se acham bons o suficiente e ficam tentando convencer a gente que são fodas, ai quando nós finalmente estamos convencidos passamos então a convencer a eles mesmos dessa mentira. Esse é o jogo!
Eu to puta com um monte de coisas, que vão desde a eleição nos Estados Unidos, passando pela Margarida ter perdido as eleições aqui, terminando no preço absurdo dos chocolates. Como essas merdinhas calóricas ficam caras!! Um singelo batom que na minha infância custava 0,20 agora ta 0,50! Onde esse mundo vai parar? O que uma mulher de TPM deve fazer para ter um pouco de caloria a preço módico?
Enquanto isso, estamos aqui todos perdendo tempo com essa putaria de internet, que só serve pra atrapalhar a nossa vida. Só serve pra dar vazão a expressão dos covardes.
Ficam como ratinhos fuçando e entrando em salas de bate-papo e na pior das hipóteses no seu MSN dizendo um monte de asneiras ao alcance do mouse. A internet possibilita isso, aos “gatinhaRJ2008”, ou “razorhead25”, ou “gostosao715”, dizerem o que pensam. E quer saber de uma coisa? Eu estou pouco me lixando para o que vocês pensam! Se quiser dar opinião sobre alguma coisa então pelo menos tenha a decência de assinar em baixo. Porque opinião por opinião minha cachorra também tem a dela sobre rações caninas.

cabras capadas (2)


E você sabe que essas pessoas com fotinhas orkutianas cheias de blush, cabelos brilhando, sorrindo como se estivessem vivendo o dia mais feliz de suas vidas, são as mesmas que sentam ao seu lado no ônibus, que se metem em cubículos fedorentos, e salinhas de jantar, quietinhas passam o dia. Sem dizer um A. E na internet criam vida, e se sentem no direito de serem ouvidas!
São cabras que soltam seus balidos em alto e bom som, longos e tenebrosos béééééés, que ecoam pela internet! São cabras capadas, porque Deus em sua inteligência e benevolência percebeu que esses seres desorientados jamais seriam capazes de franquear a chegada de uma criança a este mundo. Por isso capou-as, servindo assim suas lanosas vaginas para serem penetradas por apelativos caralhos, de glandes refulgentes e escrotos cheios, só isso. Nunca para a criação. É tudo um grande vazio.

10.29.2008

Bansky


Reflexão balzac + gardenal


Caros leitores, essa semana tive um insight mirabolante ao relembrar meus últimos relacionamentos percebi incrédula como os homens não conseguem falar de si. Quando você pergunta algo mais profundo que necessite um mínimo de sensibilidade você sempre escuta uma resposta engraçadinha, ou um ‘não sei’ desinteressado. E quanto ocorre uma DR, coisa que em alguns casos é precedido de uma cansativa e desnecessária briga, você finalmente diz o que pensa e o cara dá lá a resposta mais vaga que a total falta de interesse dele permitiu no momento, antecipado de um ‘não tinha parado pra pensar nisso antes’. Por que os homens não pensam? Seria falta de maturidade para compreender que um relacionamento envolve conversas e raciocínio? Se relacionar não é fácil, não é simplesmente se prostrar diante da TV pra ver o jogo em que o único exercício mental seria abrir a latinha de cerveja sem deixar espirrar no rosto. Pra isso eles são muito bons...
Acho que por isso sempre me relacionei com homens mais velhos, acho que eu a maioria das garotas também preferem, por se sentirem mais seguras e pelo nível intelectual, pois os homens só conseguem atingir a maturidade um pouco tarde. Mas um dos meus maiores achados nesses últimos tempos foram os homens de 30!
Ah! Como são interessantes os caras de trinta! Eles trabalham, mas já passaram da fase da empolgação com a carreira e não ficam obcecados, achando que ainda irão ficar milionários ou famosos. Já tiveram vários namoros e não se perdem em joguinhos. Tem estabilidade emocional e em alguns casos financeira, e o mais importante já estão na fase de não ter medo de relacionamentos. Mas o lance do futebol com cervejinha continua, e até se agrava. Mas mesmo assim concluo que os balzaquianos são uma raça respeitável. Um brinde aos balzaquianos!

10.21.2008

Ri-dí-cu-lo

Merdosa a cobertura da imprensa nos casos de violência da moda (infelizmente tenho que usar essa expressão), a mídia faz um verdadeiro carnaval, bumba-meu-boi, samba de crioulo doido, nesses casos lastimáveis.
E há algum tempo ocorre uma sucessão de casos de violência. Quando um caso perde o interesse, ou os sanguessugas dos jornalistas não tem mais como chupar, largam a carniça de lado e partem para o próximo prato feito!!! E o caso antigo? Alguém se interessa em dizer o que aconteceu? Estou aqui querendo saber da garotinha e do garotinho que morreram e que comoveram (?) meio Brasil!
E a família da vítima? E a intimidade da família que é devastada por esses canibais de microfone? Toda a história familiar e pessoal da pessoa é contada no horário nobre, e os telespectadores jantam ouvindo sangue e assassinato com a boca aberta babada de miojo.
Estamos em tempo de mídia e vale tudo para aparecer na televisão! Até expor um caso de assassinato na sua família ta valendo... Como já dizia Chacal:

‘a propaganda é a alma do negócio.
a mídia, seu corpinho tatuado.
todo mundo quer publicidadee
dá-se o lombo para se ver impresso
em qualquer telinha
vida de galinha’

Agora além do habitual deleite da imprensa e da população, a família da vítima nesse novo caso ao que parece faz o estilo look at me, baby! E a coisa tomou proporções colossais, de pais e mães tendo colapsos (pai de caráter duvidoso, estava sendo procurado em outro estado), doação de órgãos da vítima (pra deixar a coisa mais bonita, e conscientizar as pessoas, sei...), as pessoas passando mal e batendo palmas no enterro (?).
A imprensa deve fazer seu trabalho estar perto e atenta, mas isso já é demais! Não agüento mais ver esses casos da bola da vez, cadê o jornalismo sério e objetivo? Isso me lembra a música do Tom Zé do álbum Todos os olhos (1973):

“E por que é que um Zé qualquer de vez em quando tem que dar sete sopapos na mulher?
Diga, Zezé.
- Ah! Isso é pra no outro dia de manhã cedinho vender muito jornal,
viu, Dodó?”

Ou seja, essa balela já vem de muito tempo. A conclusão que eu chego depois dessa balbúrdia é que a nossa imprensa é tão despreparada e incopetente quanto nossa polícia que nunca consegue resolver a porra do caso.

FIM

10.16.2008

Papo de homem

O grande e inabitado universo masculino me surpreende a cada dia, outro dia achei um site que se ocupa totalmente dele, um site sincero e direto, li coisas inesquecíveis.
Mas não há como não se admirar com os genuínos exemplares dessa raça que conseguem ser tão acéfalos. Agem como deuses, dominam e tomam decisões, mas não se sentem potentes o bastante quando se deparam com uma Mulher. Sentem medo, se encolhem, se atrapalham, e se emplumam como pequenos poodles peludos machões. Pobres exemplares mal sucedidos de homens.

Charles Bukowski


O homem safado mais interessante que já conheci (olha que já conheci vários!).

Carta às mocinhas virgens.

Minhas queridas que se guardam infortunadamente aos que um dia vislumbrarão o hímem intacto e inoculo!
A vocês garotas que se chafurdam com essa verborréia derramada sobre suas pobres cabecinhas de vento, e por conformismo (ou falta de personalidade) buscam em vão se auto-afirmar através de afirmações mentirosas, dizendo que não querem sexo. E prisioneiras de seu íntimo e mal amado coração se super valorizam sem perceber que perdem assim o valor.
Á vocês amigas que se guardam ao príncipe encantado! Ser amado e belo que surgirá com todas as melhores qualidades e intenções, que irão respeitar e amar vocês pra sempre, da forma mais inesperada e mágica possível. Há vocês que acreditaram quando mamãe disse que iriam se casar com um belo homem e ter belos filhos, eu digo: esse homem não existe!
Sim, era tudo mentira... Nunca vai haver o homem perfeito, sempre vai haver um defeito (quando não for vários). Sempre vai haver aquela ‘coisa’ que estraga; aquele hábito lamentável, aquele passado que condena, aquele cabelo no peito do pé que dá nojo. Então caras amigas, não adianta de nada ficar se guardando pra sempre, esperando o cara certo que nunca vai aparecer. Não adianta transformar o sexo em moeda de troca, como se fosse o prêmio para o garanhão vencedor! Vocês só estão contribuindo para que esse machismo chauvinista babaca continue existindo. Não se esqueça que em uma transa os dois devem sentir prazer, os dois saem ganhando. Não digo que vocês devam sair transando com todo cara que der tesão, isso também não é bacana, mas construir a relação para a possível ocorrência do sexo é normal e saudável.
Não se iluda, seja consciente e dona de si, não aja impulsivamente, use e não apenas seja usada, sinta prazer, sinta os cheiros e sabores, esqueça o mundo lá fora, não esqueça a camisinha.
Mas se caso você queira um cara bonitinho que se cuida, gosta de ir às festas, mas não fica com um monte de mulher, não tem ex que enche o saco, não quer transar o tempo todo, gosta de conversar e te entende, então querida namore uma viado!
Beijos
Ass: tia Rafaela

10.10.2008

Blindness - Ensaio sobre a cegueira


Meu querido Blindness estreou, e como já é evidente formulei cada cena dessa história em minha profusa mente, havendo assim uma possibilidade muito grande de me deparar com a decepção da minha vida. Confesso que entrei no cinema temerosa, tentando disfarçar o medo do desastre. Mas assim que começou eu percebi o tratamento sofisticado que Meirelles deu a história, e a fidelidade aos fatos narrados no livro. Acalmei-me no decorrer da trama, e me vi envolvida entre o riso e o choro em vários momentos.
Destaco a atuação de Julianne Moore. Ela está perfeita! O que me causou uma grande inveja, pois esse era um dos personagens que eu gostaria de interpretar, agora menos um na minha lista.
A cena do estupro foi tratada na medida. Foi bastante explorado o momento que precede ao estupro, o que deu um tom dramático e belo a esse sacrifício. E eu feminista que sou não tenho como não admirar e me derreter com essa citação de Saramago (acho que posso chamar de citação), afinal o que nós mulheres mais fizemos na história foi justamente isso...
A cena que se segue, é uma das mais bonitas que eu já vi no cinema. No livro ela tem um peso magnífico, mas no cinema ela ficou perfeita! As mulheres lavando a garota que morreu, você percebe a cumplicidade, a relação de compaixão, e carinho levada ao extremo da sensibilidade feminina. É emblemático e tocante ver as mulheres sem dizer uma palavra, cometendo um gesto que só nós sabemos o quanto é importante.
Senti falta da cena que eu mais gostei no livro, em que a personagem principal leva comida aos seus debaixo de chuva e sua roupa se rasga deixando a mostra os seios, uma alusão explícita ao quadro A Liberdade conduzindo o povo, de Eugène Delacroix referente à Revolução Francesa. Mas eu entendo que essa cena no cinema e dentro do roteiro não seria tão interessante. Outro ponto negativo foi o cachorro, concordo com Saramago, teria que ser o vira-lata mais feio e carismático do mundo, e não um poodle grande.
Eu teria mais coisas a comentar, mas fico por aqui, de uma forma geral o filme guardou a dramaticidade da história sem excessos, e sem ‘pieguismos’. Não é um filme para as massas, mas para quem tem sensibilidade o bastante para perceber o quanto que essa história guarda grandes paradigmas culturais e sociais de nossa humanidade. Eu como eterna investigadora de Arte aconselho a quem for perceber o filme use a sensibilidade, e não apenas com o olhar e a audição.

10.06.2008

Confissões noturnas

Doem-me os mamilos, apetece-me fumar e já não aguento ouvir a mesma música, sempre a mesma canção; a insônia a tamborilar em meus ouvidos, um barulho ensurdecedor. Meus olhos pesam, mas se recusam a fechar-se. Sinto meu corpo afundar na cama, como se estivesse sendo sugado por uma enorme vulva... E meu pensamento se perde.
Olho para meus pés e analiso o contorno dos calcanhares, os ossos que teimam em emergir, a sutil tortuosidade dos dedos e percebo o quão inútil em minha vida tem sido meus dedos dos pés.
Sinto vergonha de meus pés, sempre senti , recordo-me de minha tia Gracinha dizendo que pé de moça deve ser delicado, levemente arredondado e bem pequeno. Constrangia-me retirar os sapatos perto das matronas e mais tarde perto dos rapazes. Hoje olho para eles e sinto pena, pobres pés que foram negligenciados a vida toda, e agora de frente a eles me sinto confrontada por todos esses anos de pouca atenção. Benditas noites sem sono que nos mostra a verdade sobre os pés.

Confissões noturnas

Observo faixas de luz passando vagarosamente pelo teto, ao lado do quadro as aranhas constroem suas teias devagar, e nelas unem pontos para formar um desenho inteiro, como na vida, em que uma cadeia de acontecimentos desenlaça em mais um traço do desenho. Sinto meu corpo afundar na cama, como se estivesse sendo sugado por uma enorme vulva... Há quem ache o silencio um momento de contato com sua intimidade mais profunda, mas não vejo nenhuma vantagem nisso.
Há quem se sinta incomodado com os barulhos ensurdecedores, ou com a falta de espaço para reflexão em meio a tanto caos auditivo.
Há quem se incomode com ruídos em determinados momentos do dia, ou deteste música, ou qualquer outro tipo de som que abale o difícil equilíbrio das coisas.
Eu fico na contramão do óbvio, e assumo sem receio do possível julgamento pseudo-psicológico que eu tenho medo do silêncio, não sei viver na falta de ruído, me desespera, angustia, estar em um ambiente em que o silêncio é duro como rocha. Estou tentando calar meus pensamentos? Seria apenas um vício relativo à solidão? Não sei dizer, mas criei para esse meu novo distúrbio um nome: tacifobia, em homenagem a deusa grega do silêncio, Tácita.
Retirar o silêncio das coisas talvez seja o que mais me dá prazer na vida.

9.26.2008

Meu cabelo entre os dedos, a tesoura em outra mão.

Acordo, cansada, o corpo teima em permanecer deitado, reluto. Levanto meu tronco, e procuro os chinelos, caminhando lentamente me acostumando com o ar frio tocando a pele, entrando pelo nariz, invadindo meu corpo. Meu estômago revira e reclama a falta de comida. Os braços pesam... Caminho em direção ao banheiro. A porta. Jogo-me no acento do sanitário, como quem entrega o corpo a uma boca aberta, aguardo. Entrego-me...
Oiço o ronco da cama, é ele a se revirar entre os lençóis. E penso na noite anterior; o telefonema, o bar, a música, o convite, o sexo. Meu corpo adormecido por baixo do seu, as pernas moles, e a dormência, a semiconsciência. Percebo enfim como é ser mulher, ao sentir meu corpo como fim em si mesmo, como um material a ser carregado e cuidado para propiciar prazer ao corpo do outro. E minha mente enclausurada que habita esse ‘corpo-pele’ busca lucidez. É nessa hora que me lembro dos dizeres de minha avó: “Raríssimas mulheres sentem prazer, filha. O homem, sim. Então a mulher precisa fingir um pouco, o que não tem essa importância que parece. Temos que cumprir nossas tarefas, o resto é supérfluo. Se houver prazer, melhor, mas e se não houver? Ora, ninguém vai morrer por isso.”
Levanto e olho no espelho. Procuro meu rosto no reflexo, e percebo como deixei de parecer comigo. Decido que preciso de um corte novo nos cabelos, abro a primeira gaveta e pego a tesoura. Meu cabelo entre os dedos, a tesoura em outra mão. Corto minha franja e ela sai um pouco torta. Olho-me. Toda a vida menosprezei os conselhos de minha avó, com misto de pena e desdém, mas agora percebo como é melhor ser uma deusa morta do que uma mulher viva.

9.19.2008

eu Nunca quis. mas parece ser Mais forte que eu

Busquei por toda parte em mim uma forma de fugir do óbvio, mas às vezes o inevitável é tão potente que nos enlaça puxando-nos para o fatal. Segurei o choro, segurei a fala, segurei meu corpo na esperança de não reagir, fechei os olhos com força e prendi a respiração, esperando passar, mas foi mais forte que eu. Eu não consegui, e admitir um fracasso é mais doloroso que continuar suportando.
O que é justiça? Onde se encontra esse safado de destino que tem o humor mais negro que eu já vi? Eu tentei resistir até o último momento, mas as vozes na minha cabeça não se calaram. Meu corpo padece quando minha mente entra em conflito. Minha mente padece quando meu impulso subverte meu desejo. E eu expio meus pecados constante e dolorosamente. Cá estou eu desesperada agonizante, dentro de mim mesma, lutando para destruir a casca inabalável que criei. Olha pra mim. Onde foi que eu cheguei?

9.03.2008

Muitas saudades de escrever no blog, mas não encontro tempo.

Os dias vêm e vão e eu sinto que não me freqüento mais, estou precisando passear por mim, me perder em meus caminhos e reencontrar meus personagens para conversar, aposto que eles também sentem saudade de mim. Mas enquanto persigo meu coelho que me leva a lugares inóspitos e sombrios - ao contrário do coelho de Alice -, vou seguindo o sábio conselho de minha amiga "Aconteça o que acontecer... Continue respirando" ...

9.01.2008

Living in a ghost world...

Acabei de assistir a esse filme e não hesitei em guardá-lo no blog. Malditos escritores (principalmente os de quadrinhos) que compreendem tão bem o universo dos excluídos, não consegui me manter imune.

8.21.2008

Blog, pra quê?

O que pretendo nesse blog é um auto-retrato, unindo fragmentos meus, pensamentos e sensações. Faço uma Colage com tudo que há em mim, do mais profundo ao extremamente superficial. Coloco minha pele estirada nessa tela, pra me entender um pouco, e me delimitar com um debrum feito pela medida de outras pessoas. Transformo ar, sonhos, e olhares em material de pesquisa, a partir das minhas sensações descrevo meu universo, o inverto e o miro em um espelho e enfim o observo se definir. Busco meus alteregos, e sensações mais ricas para tentar me encontrar no cerne do meu ser. E com palavras e descrições vou traçando o quadro da minha personalidade.
Sinta-se à vontade para observar.

8.14.2008

Que tal nos olharmos no espelho e tentar vermos o que realmente somos?

Eu vou começar:
Sou morena, me acho demais, mais do que devia. Fui muito mimada quando era criança e me rebelei na adolescência. Passei a ser a ovelha negra da família, queria curtir a vida de forma intensa. Fiz tanta loucura e era tão impulsiva que engravidei aos dezessete anos. Abortei naturalmente no meio do ano. No final fui aprovada em um vestibular e me mudei para outra cidade. Morei sem pai e mãe por dois anos. Foi quando engravidei novamente para suprir a carência que o aborto me causou como mulher. Voltei para casa de meus pais e vivi, por quatro meses para minha filha, que é a minha vida. Voltei para faculdade, só que em outro curso. Quando minha filha fez dois anos consegui me enxergar novamente como uma pessoa separada dela. Somos companheiras e unidas, mas somos duas e não uma pessoa só. Foi quando percebi que estava deixando minhas ambições e meus sonhos de lado pela maternidade.
Tenho 23 anos e ás vezes imagino que tenho mais por cobrar de mim devido à maternidade. Se pudesse pedir uma coisa a um gênio da lâmpada pediria para lavar minha alma. Acho que me descuidei dela um pouco. Sinto-me sobrecarregada, os ombros pesados por não sei o que é. Mas pesa.
Muitas vezes concordo com a Marisa Monte: 'apagaram tudo, pintaram tudo de cinza' e me dá vontade de chorar, mas não sei o motivo. Sei, algo me incomoda, mas não consigo identificar para cortar de minha vida. Talvez sejam algemas que me prendem a algo, ou uma bagagem pesada que não seja útil a mim.
Sempre fiz minhas vontades, mas agora sempre que faço algo que quero me sinto culpada. Não entendo o porquê. Muitas vezes não consigo respirar também. Tem algo me sufocando.

(continuação)

Meu medo é que seja minha filha. Não ela como pessoa, mas minhas obrigações com ela. A responsabilidade de ser mãe. Espero realmente que não seja isto. Que sejam meus pais e a família desestruturada que tenho. Ou que seja apenas uma fase para que eu possa me engrandecer como ser humano.
Sinto muita falta de rir como ria antes. Rir com muita vontade. Meu sorriso era minha marca registrada. Todos falavam. Hoje sorrio menos e com menos intensidade.
O sexo vem me acompanhando ao longo de minha juventude. Interessei-me por ele muito nova, apesar de perder a virgindade aos 17. Mas me masturbava desde os 12, 13. Depois que terminei um namoro de 7 anos descobri que não era feliz totalmente no sexo com o pai da minha filha. Mas me reencontrei com meu primeiro namorado e enfim transamos. Entendemos-nos muito bem na cama. Ele me faz sentir-me viva e desejada. Nos braços dele sou mulher, mas tenho vergonha de assumir um relacionamento sério com ele porque ele é pobre, é feio, mas é a verdade. Não falei isto para ele, mas se ele tivesse uma situação melhor, eu ficaria com ele.
Hoje estou na metade do curso de jornalismo. Eu sempre quis fazer isto ou psicologia. Estagio em um lugar legal. Tenho um dinheirinho por mês que dá para sobreviver, mas não dá para me realizar. Estou buscando a independência feminina do século XX. A sociedade nos impôs isto. Mas me encaixo no perfil de mulher que não precisa de homem. Pelo menos me imaginava assim quando era criança. Tô na luta! Tentando ser o que eu quero ser. Mas não me lembro muito bem do quero ser. Então estou perdida!

(esse texto foi roubado, mas não poderia deixar de colocá-lo aqui, a verdadeira dona dele me entenderá)

8.11.2008

Estudos sobre fotografia.

(Estou lendo um livro sobre fotografia e senti vontade de organizar meu raciocínio. Estão aqui algumas considerações feitas por mim, uma pseudo-fotógrafa)
A caverna de Platão e a relação com a realidade faz-me tecer uma relação com a fotografia, que se compara a essa busca frustrada pela realidade. A fotografia modificou a realidade, a partir do modernismo, essa realidade (dentro da caverna) propõe novos conteúdos para serem vistos, e mais, observados. A fotografia é um fragmento do mundo. Miniatura de uma realidade. Ela é a técnica que mais se relaciona com a realidade visível.
Imagens que idealizam, como fotografias de moda, não são menos agressivas que as fotografias que valorizam a depressão. Existe sempre um conteúdo de agressividade implícito em qualquer utilização da câmera. Para Diane Arbus, o ato de fotografar era feio, ruim, e isso a interessava. O fotografo pode ser considerado um ser perverso, pois ele se distancia de seu modelo e lança sobre ele apenas um olhar desfragmentado pelo meio técnico fotográfico, não há entre ele e o modelo um relação mais abrasada como há na pintura por exemplo. O ato de fotografar pode ser considerado um ato violento. Podemos perceber, portanto um lado fetichista no ato de fotografar, e ser fotografado. Fotografar é um ato de não intervenção, voyeurismo puro.
A fotografia é um instrumento de poder, tanto do fotógrafo que detém o poder de congelar o tempo, a imagem, quanto o objeto fotografado que se torna imortal. A fotografia sempre foi considerada um bem de luxo. O evento ou pessoa fotografada se torna eterno, por isso é tão importante fotografar-se durante a vida, principalmente crianças. O fato fotografado também se valoriza, e o evento que é registrado por meio de foto sobrevive para sempre, e isso dá um peso e importância histórica que nenhum outro meio dá.
Podemos dizer que hoje estamos mergulhados em um consumismo estético acentuado, provocado pela utilização muitas vezes agressiva da imagem, somos viciados em imagem, sofremos uma poluição imagética mental. Esse fenômeno torna claro o prazer erótico contido na fotografia tanto de quem a tira quanto de quem a observa.
Hoje em dia tudo que existe, existe para começar ou terminar em uma fotografia.

8.07.2008

Gostaria de fazer um desabafo

Tenho uma namorada de 19 anos, que tem sido a fonte de minhas preocupações. Quando a conheci, há cinco anos, me pareceu a mulher certa, dotada de uma beleza encantadora, mas desprovida de inteligência, e isso me reconforta. Sempre gostei de manter meus relacionamentos sob controle e com ela não havia nenhuma dificuldade.
Apesar da forma respeitosa com que nos tratamos, que faria o maior incrédulo acreditar que nos amamos, eu sabia em meu intimo que havia deixado de amá-la há muito tempo, e o desejo por outras mulheres havia ressurgido de forma quase incontrolável. Pensei em contar pra ela sobre minhas vontades, pensei em dizer a verdade, dizer que a traí, mas fui covarde. Sei que ela desconfiava, mas nunca se manifestou.
Houve um dia que um pensamento me dominou: a passividade dela e compreensão com meus ímpetos só poderiam ser fruto de uma intensa culpa. Por que ela era tão compreensiva? Sei que não sou o melhor ser humano do mundo, e sei que ela teve que ceder a muitas imposições descabidas feitas por mim durante o relacionamento.
Quanto mais ela se dedica a nossa relação, mais desconfiava. A dúvida da traição me dominou. Ela passou a fonte de minhas preocupações. Será que ela resistiria à investida de outra pessoa? Por que ela se manteria fiel a mim todos esses anos? Tão indiferente e impecável.
Em meio a essa pressão eu a traí mais uma vez com uma amiga em comum, não me orgulho disso, mas pensei em mim naquele momento, e a vontade de sentir a boca de outra garota me tomou. Sentir a pele, o corpo o desejo de outra pessoa e não o habitual foi irresistível. Não quero que você leitor me perdoe, nem que me compreenda, mas apenas me escute, e perceba que a minha traição foi o estopim do meu ciúme.
Hoje eu sei que minha namorada é tão capaz de me trair como eu fui, dói quando ela é carinhosa, e às vezes quando fecho os olhos eu a vejo nos braços de outra pessoa. Percebi as duras penas que a traição é um doce veneno que subtrai aos poucos as defesas de quem o toma.

8.01.2008

Pessoas instigantes

Sou indiferente a maioria das pessoas, outras me desagradam mas há uma parcela mínima que me instiga.
Outro dia fiz uma lista mental das mulheres mais bonitas em minha opinião, e no meio de uma profusão de rostos me veio um que não consegui superar: como é bonita a cantora Zélia Duncan! Belo rosto, somado a uma bela voz, que casa bem com as rugas, e um jeito de mulher feliz, realizada.
Gostaria de ter as rugas maduras dela, e esse ar de mulher que sabe o que é.

Carta ao Dr. House.

Querido House,

Tenho uma confissão a fazer: tenho uma queda por você. Sim, isso é uma carta de amor, mas vou tentar não ser piegas, nós não temos paciência pra isso.
Sei que temos que ficar juntos, e como percebi essa verdade antes de você me sinto na obrigação de te alertar.
Você tem o humor mais fino que já encontrei em um homem, e quem me conhece sabe que eu não resisto a um senso de humor.
Não é minha intenção te idealizar, sei que você tem defeitos; è egoísta, característica que divide com todos meus ex namorados, acredite, eu estou acostumada a lidar com isso.
Apesar de ser um belo coroa de olhos azuis, por se dedicar muito ao trabalho não faz o tipo mulherengo, e isso traria paz e tranqüilidade a nossa relação. Com exceção das discussões calorosas que teríamos antecedendo ao sexo, é claro. Perdoe minhas fantasias, é que eu não reprimo meus desejos.
Acho que seríamos uma interessante mistura de anseio e indiferença, intenção e displicência.
Quem me conhece perceberia também que esse meu encanto não passa da minha velha carência de figura paterna. Mas ignorando minha saúde mental eu me candidato a ser sua namorada.
Ligue-me qualquer dia desses.

Com carinho

Rafaela

PS: Acho sua bengala um charme.

Comédia Dell'Arte

Colombina terminou um longo e complicado namoro há um mês. Seu ex namorado, Arlequim, era agressivo e impulsivo, e em brigas por ciúmes às vezes ela saia com hematomas, pequenos arranhões, roxos produzidos por beliscões. Ela tinha trabalho de esconder da família, mas conseguia.
Apesar da intempestuosidade do temperamento de seu namorado, Colombiana o amava e se sentia amada, segura. Seu coração derretia por ele.
Mas ela não pôde ficar indiferente quando Arlequim tentou a impedir de entrar na Faculdade – que era em outra cidade – e pela primeira vez ela quis terminar.
Na véspera de sua partida ele ficou enlouquecido e tentou matar a ambos em um acidente de carro. Ela conheceu o mostro que conviveu durante 5 anos. Mentiu, e conseguiu o acalmar. Teve que fugir no outro dia bem cedo, deixou o namorado e o amor que sentia pra trás.
Agora, reiniciando sua vida se rejubila por estar livre. Sente o prazer surpreendente de sair de um relacionamento doentio, completamente ilesa. Ela não sente culpa, não sente raiva. Agora ela está sem amarras, sem grilhões. Prova o prazer da liberdade, não imaginava como estava sedenta dela.
Uma amiga, ciente da situação, convida Colombina a uma festa no apartamento de um rapaz. Colombina bebe e tenta interagir com os convidados, a maioria bastante desinteressante. Um garoto grande e desajeitado tenta ser engraçado, mas a deixa entediada.
Em determinado momento ocorre um tumulto: uma garota se excedeu na bebida e caiu, levando consigo boa parte das garrafas de cerveja do congelador. Os convidados estouram em risadas. Colombina ensaia uma forma de ir embora, e nesse exato momento, em meio a confusão chega mais um convidado, um garoto de nariz engraçado e espessa barba escura, e Colombina sente o que temia sentir, seu coração derretendo. Ela estava novamente preza a uma pessoa. O amor.

7.21.2008

26 de Agosto de 1985

Estou no meu inferno astral, e preste a completar mais um aninho de vida, e como sempre a infelicidade tomou conta do meu ser nessa data tão querida.
Fazer aniversário nunca foi uma tarefa fácil pra mim, sempre fiquei confusa sem saber direito o que fazer, o que pensar.
É muito cruel passar de uma idade pra outra em apenas um dia, cria uma sensação ruim do tempo, que ele é traiçoeiro. Ninguém tem noção de mudança de idade sem ser no dia do aniversário. Você passa um ano se acostumando com o numero da idade que tem e de um dia pro outro temos que somar um. Mas como? De onde veio esse ano que eu não vi?
Nunca gostei muito de festa de aniversário, alias a única vez que eu me lembro de ter tido uma foi aos 10 anos, ela foi filmada e eu faço questão de não assistir a fita e ver o freak show que é minha família.
Aos 15 eu participei da festa de 15 anos da minha amiga. Fiz maquiagem, escovei o cabelo, coquei vestido rodado e tudo. Fiquei horrorosa. Nunca mais quis ver a fita também.
Meu aniversário de 18 anos não foi menos decepcionante, pois achava que seria o marco da minha vida, que daquele dia em diante tudo iria mudar, eu seria finalmente adulta, maior de idade, mas eu percebi que continuava a mesma. A mesma Rafaela de sempre... Oh decepção!
Na casa dos vinte, na qual me encontro não está diferente, pelo contrário, tudo uma mesmice. E mais uma vez a sensação que estou sendo usurpada na minha existência. Nada de felicidades, só mais anos de vida que coleciono inutilmente desde os 10 anos. Mais rugas, mais responsabilidades, menos presentes. Por mim continuava fazendo 10 anos até hoje.

Estou em luto pelo meu aniversário.

7.01.2008

Ditadura do orgasmo!

Seria tão bom se os templos religiosos se prestassem a fazer mais que ecoar cânticos aos Deuses. Seria tão enriquecedor se ao invés de decorar as passagens da bíblia de forma surpreendente os religiosos a interpretassem criticamente. Seria imensurável se o espaço de uma casa religiosa se voltasse para questões teológicas, estudos das religiões, dos textos sagrados, e não ser apenas um aglomerado de gente em busca de um bem-estar egoísta. As pessoas deveriam compreender que a busca de um Deus é mais antiga que a civilização ocidental, e a busca pelo consolo supremo é mais antiga que a fala. “O consolador” é uma entidade criada para acalentar as nossas tristezas. Sofremos desde a primeira inspiração. Isso vale tanto para o garoto pobre que nasceu na favela do Rio, quanto para o garoto rico que nasceu na Suíça. Todos sofrem. O que vale é aprender a conviver com as impossibilidades, e parar de dar dinheiro para os psicólogos oportunistas escritores de auto-ajuda.

6.07.2008

Shoppings, as novas cavernas.


Já é do conhecimento de todos que eu não gosto de shopping, mas como toda boa juizdeforana entediada fui conhecer o novo Independência shopping, envolvida pela vontade de encontrar uma livraria maravilhosa.
Admirei o obelisco com o imponente nome do shopping, entrei nas intrigantes portas que abrem sozinhas, e passei pelas vitrines cheias de roupas incríveis que nunca vou ter, chego enfim a tão desejada Saraiva, fazendo as contas de quanto ainda resta de limite no cartão.
Parada na porta observo o ambiente sóbrio e chic que é peculiar das livrarias, me sinto em casa pela primeira vez desde que entrei no shopping, mas a sensação do som contrasta com a imagem, está tocando Justin Timberlake? Ou seria um algum rapper americano? Uma livraria tocando música pop, um contraste muito rude pra mim.
Viro meu olhar para a direita, e o que vejo? A placa Arte, meu coração até dispara! Enfim a felicidade! Ao me aproximar dos livros grandes, coloridos e cheios de imagens percebo que as prateleiras são divididas em assuntos, moda ganhou duas prateleiras inteiras, fotografia também, quadrinhos têm várias, e lá em cima a história da arte com um pedaço de prateleira, examino os livros com cuidado e concluo, não tem nenhum livro muito relevante de crítica de arte. Ó decepção!
Acabo me distraindo com os outros livros, e logo acho a prateleira dos livros de bolso. Benditas editoras que lançam livros de bolso a 10 reais! Interesso-me por alguns e acabo escolhendo um chamado A Arte de Escrever do filósofo alemão Arthur Schopenhauer. Fico passeando pelas prateleiras com o livro na mão e escuto alguns diálogos. Em um momento um garoto se vangloria com outro por ter lido Código da Vinci, afirmando que é um dos melhores que já leu, o outro afirma com certo ar de argúcia que não costuma ler. Meu pobre coração dói.
Mudo de lado, e me dirijo a placa Literatura Brasileira, confesso que estou um pouco por fora do mercado literário brasileiro. Bem no canto, formando o que seria uma vitrine, encontro os dois livros da Bruna surfistinha, e várias biografias, Garrincha, Raul Seixas, Renato Russo, Paulo Freire (esse eu fiquei feliz de ver). È isso... Nossa literatura se resume a uma prostituta-escritora (nada contra a classe das prostitutas, pelo contrário), e um monte de biografias de gosto duvidoso.
Já desolada pela decepção, escuto mais um diálogo lamentável, um homem gordinho usando um jeans de marca apertadinho nos genitais dizendo a uma mulher feia que adorou Quem mexeu no meu queijo, e os dois discutem o valor filosófico dessa obra, e quando eu achei que não poderia piorar ele pega Casais inteligentes enriquecem juntos e mostra para a tal mulher dizendo: amor, olha que livro bom, e ela – é deve ser muito bom mesmo. Depois dessa eu não agüentei, larguei o livro do Schopenhauer e fui embora.

5.29.2008

Você sabe como é ser uma garota?

Aposto que você daria tudo pra saber.
Como é ter a pele macia
os cabelos compridos
o corpo curvilíneo.

Como é tentar parecer forte nesse mundo,
sem perder a delicadeza.
Ser cobrada, tolhida
e demonstrar graça e beleza.

Ter vontade de agir desordenadamente
mas ter que seguir regras,
Ser feminina
ser fêmea,
vc quer saber?

Como é amar um homem,
como é sentir os dedos dele entre os cabelos
sentir o coração disparar
a vulva umedecer
as pernas relaxarem

Os perfumes
As unhas
A bolsa
Querer ser algo além

Você nunca vai saber o que sente uma garota

5.26.2008

José Saramago assiste pela primeira vez Blindness.





Estou contando os segundos pra ver esse filme. Principalmente depois que eu vi a reação do Saramago.
Confesso que me emocionei e tive vontade de beija-lo como fez Fernando Meirelles.

Você se acha chata?

(Detesto me definir, mas não resisti a responder essa pergunta.)
Muitas vezes. Sou cheia de manias. Tenho carências insolúveis. Sou teimosa. Reclamo de tudo. Critico tudo. Não gosto de queijo. Tenho normalmente reações fora do comum, isso deixa as pessoas um pouco constrangidas. Às vezes calma de mais, às vezes nervosa de mais. Não gosto que mexam nas minhas coisas. Sou egoísta. Detesto que toquem minha orelha, adoro tocar a orelha dos outros. Não imploro afeto. Não sou indiscreta nas minhas relações. Tenho poucos amigos, porque acho mais inteligente ser seletivo a respeito daqueles que você escolhe para contar seus segredos.
Então, se sou chata, não incomodo ninguém que não queira se incomodado. Chateio só aqueles que querem ser incomodados, por isso me querem ao seu lado. Acho sim, que, ás vezes, dou trabalho. Mas é como ter um Rolls Royce, se você não quiser ter que pagar o preço da manutenção, mude para um Passat.

5.21.2008

Manhã de domingo

Na manhã de hoje Carlos Campos demorou um pouco mais a abrir os olhos, depois de certa idade os olhos se tornam pesados, a pele se aglomera sobre as pálpebras. O peso recai sobre o velho escritor somado ao sono. O corpo cansado levanta lentamente, passando as mãos pelo rosto ele tenta afastar os sonhos.
Hoje Carlos completa 83 anos, mas a importância dessa data incidi sobre seus ombros através de uma carta roxa recebida há uma semana. Com uma bela letra caligrafada, o nome Paola, seu coração maduro pára, era o convite de casamento dela.
Após o desjejum matinal, o escritor senta-se à sua mesa de escritório, lugar onde executou os maiores trabalhos de sua vida. Carrega consigo a carta roxa que lhe pesa o coração e lhe trás recordações do passado, ele vê a sua frente sorrisos, lágrimas, brincadeiras, bebidas, cata-ventos, uma garotinha de olhos grandes, magra e sorridente.
Escritor que obteve grande sucesso, mas há muito tempo entrou em franca decadência. Mesmo recebendo suporte de seus amigos jornalistas em colunas eventuais, Carlos percebe sem assumir, que é hoje apenas uma sombra do que foi há 20 anos, é como se uma maldição tivesse esvaído todo seu talento literário. Hoje se senta à mesa para escrever a carta mais difícil de sua vida.
Ele não se orgulha do que fez, mas sabe que optou pelo melhor para todos ao abandonar a mãe de Paola. Ele sabia em seu íntimo que não iria trazer felicidade ás duas, ele sabia que sua esposa mais cedo ou mais tarde iria descobrir a filha ilegítima, e para proteger a mãe e a bela garotinha que ele guarda em sua lembrança teve que deixar-las ir.
Pedir desculpas? Justificar que não iria ao casamento por doença? O que dizer a pequena Paola que agora é mulher feita? Ele sabia que desejava o melhor, o sorriso mais gostoso que ela pudesse dar, mesmo que ele nunca tivesse perto pra ouvir, mesmo que há muito tempo não ouvisse sequer a voz dela.
Ele nunca se explicou, nunca facilitou para ela compreender sua ausência, e agora ela lhe dá esse presente, um convite de casamento.
Sentado há frente de seu computador, ao olhar para a tela em branco, o escritor se deu conta que não tinha mais nada a dizer. O que não foi dito o silêncio se encarregaria de dizer. Pois depois de tantos anos o que restava de sua paternidade? Ele não se sentia no direito de participar dessa celebração, ele não cometeria a imprudência de comparecer. Covardia? E para se punir, ou se abster, ele se omite mais uma vez. Não responde ao convite. Se cala e chora.

5.19.2008

Beethoven: String Quartet, Op.135 (4° movimento)



(se eu fosse música eu seria sem dúvida essa)

0,5 ml de lágrimas

Ouvindo Nina Simone,
Meu pensamento vagueia.
Quero acender um cigarro,
pensando bem
não vale tanto a pena.
Penso nos livros para ler,
nos livros que nuca li,
muitas páginas em branco.

Deito na cama
e me encolho
o máximo que posso,
meu joelho tocar meu peito,
e se eu ficar bem quieta escuto meu coração,
escuto o que ele diz.
Um silêncio muito grande se instalou.

Da janela pra fora chove,
o mundo chove.
E o ruído da TV se confunde com a chuva,
mudar de canal ou ir fazer chá?

Olho o telefone, nenhuma ligação.
Às vezes o escuto tocando
é só minha imaginação.
Será que alguém vem me salvar?
Nem o telefone nem a porta.
Espero.
Escolho o chá.

Deito na cama,
aperto a almofada contra o peito
enquanto tomo chá quente
meu peito se aquece
como há muito não se aquecia.
Duas lágrimas escorrem,
apenas 2 lágrimas,
0,5 ml de lágrima,
e nada mais.

5.17.2008

Ensaio da Rafaela sobre a cegueira.


Ontem fui a um show, repleto de jovens universitários. Pessoas bonitas que se divertem, pessoas que têm a vida toda pela frente, pessoas com sonhos e desejos. O típico ambiente que aparece nos comerciais de refrigerante.
Pois bem... Eu estava em um estado estranho, quase em transe, e fiquei observando essas pessoas e notei a tristeza que emana delas. Como os jovens são tristes!
Em um determinado momento vi um casal se beijando, tão paixonadamente que não consegui tirar os olhos, era um beijo lânguido, curtido, gostoso. Eu logo imaginei que se tratava de namorados, e uma paixão ardente, quase táctil. Mas ao final do beijo o rapaz ficou de frente pra mim me olhando fixamente, fiquei constrangida, depois o casal se despediu como velhos conhecidos e cada um foi para um lado, como se o que era verdadeiramente importante já houvesse acontecido e não restava mais nada. Achei estranho...
Vi várias outras cenas parecidas com essa, casais bonitos que se separavam com muita displicência, me fez me sentir mal.
Vi essa mesma tristeza nos olhos das pessoas que estavam comigo, percebi que a maioria estava fingindo que estava bem, que estava se divertindo. Percebi a angustia que em alguns foge pelos olhos. É a mentira que o álcool facilita, mas o olhar revela.
Esses casais que se beijam e buscam o melhor em estar com alguém em um curto espaço de tempo. O que eles temem? Como se passasse daquilo já não valesse a pena, que olhar no olho da pessoa que você beijou fosse perigoso. Medo de se apaixonar? Medo de se envolver?
Pobres pessoas que se enganam e perdem o melhor da vida. Tenho uma mistura de pena e medo da cegueira das pessoas.

5.08.2008

Período menstrual

Como qualquer mulher eu odeio menstruar. Quem nunca se constrangeu ao ter sua intimidade revelada quando o absorvente não dá conta do fluxo? Nada mais embaraçoso.
Ter que usar absorventes, que eu tenho pra mim foram projetados por homens, principalmente aqueles que afinam no final, não existe nada mais desconfortável.
Mas esse mês é diferente. Minha menstruação chegou segunda-feira por volta do meio dia. Ela chegou para me limpar.
A menstruação pra mim sempre simbolizou renovação, é o período do mês em que nós mulheres trocamos de fase, como a lua. Todo o preparativo vital para gerar vida é criado dentro de nós, nos preparamos para receber o melhor, o mais abençoado. Mas se por ventura não somos fecundadas, essa forca vital deve ser renovada, e todo o sangue que cria e mantém, é colocado para fora já morto.
Meu corpo conversa comigo, e eu o compreendo muito bem. Minha menstruação está retirando o que não foi fecundado em mim, e assim que ela acabar na próxima segunda eu sei que estarei renovada, pronta para gerar vida novamente. Até lá participo dessa tarefa corporal de retirar o velho e aguardar o novo.
E quem sabe um dia meu calor vital seja correspondido e eu gere vida! Quem sabe um dia...

5.07.2008

Milágrimas



(grupo Orquídeas do Brasil, interpretando uma música de Itamar Assumpção, letra a baixo para cantar junto!)

Em caso de dor, ponha gelo
Mude o corte do cabelo
Mude como modelo
Vá ao cinema, dê um sorriso
Ainda que amarelo
Esqueça seu cotovelo

Se amargo for já ter sido
Troque já este vestido
Troque o padrão do tecido
Saia do sério, deixe os critérios
Siga todos os sentidos
Faça fazer sentido

A cada milágrimas sai um milagre

Em caso de tristeza vire a mesa
Coma só a sobremesa
Coma somente a cereja
Jogue para cima, faça cena
Cante as rimas de um poema
Sofra apenas, viva apenas

Sendo só fissura, ou loucura
Quem sabe casando cura
Ninguém sabe o que procura
Faça uma novena, reze um terço
Caia fora do contexto, invente seu endereço

A cada milágrimas sai um milagre

Mas se apesar de banal
Chorar for inevitável
Sinta o gosto do sal
Sinta o gosto do sal
Gota a gota, uma a uma
Duas, três, dez, cem mil lágrimas, sinta o milagre
A cada milágrimas sai um milagre

5.05.2008

Cobaias de Deus

Hoje alguém me disse que queria uma chance.
Eu pensei, eu também quero muitas coisas. Quero um sapato novo, quero um cigarro, quero meus amigos, quero paz, quero ser amada.
Às vezes a gente não tem tudo que deseja.

4.30.2008

e finalmente a conclusão! (8)

Normalmente quando vou para a faculdade acordo atrasada, levanto e me visto com a roupa mais confortável que eu achar limpa, pois terei um dia cansativo pela frente, prendo meu cabelo do melhor jeito e mais prático possível, engulo alguma coisa em casa ou compro no caminho, saio correndo desesperada pro ponto de ônibus e chego suada nele, quando (depois de muito esperar) consigo entrar em um ônibus, ainda envolvida no sonho que tive, olho para o lado e o que vejo? Uma garota com uma roupa incrível, um sapato maravilhoso (com certeza ela escolheu com cuidado), o cabelo impecável, unhas feitas, cheirosa e maquiada. Aí eu penso ‘Meu Deus! Como ela consegue!’ Eu nuca consegui na minha vida maquiar meu olho inchado de sono, não dá! Simplesmente não dá o lápis não pega! Confesso que tenho uma pontinha de inveja dessas meninas, porque nunca conseguir ser impecável como elas. Nunca fui a que ia pra aula com os acessórios mais legais, mas sei que sempre soube respeitar meu sono, nunca acordei mais cedo pra me maquiar ou arrumar o cabelo, aproveito cada minuto de descanso, sempre estive confortável na minha pele, mesmo com a roupa que não é tão legal e com a blusa tampando minha axila com a depilação vencida nunca deixei de ser notada e principalmente amada.

O namorado ¬¬ (7)

Então Sra. e Sr. depois de três dias de produção, por que não há possibilidade de fazer tudo isso com perfeição em menos tempo, nós estamos finalmente prontas pra sair e arrasar ao lado do nosso tão querido namorado que vem nos buscar, e quando ele chega você constata que ele está vestido com a primeira camiseta de malha que achou um jeans e um sapato super confortável. Agora vocês me dizem, é justo?
Não acho que as mulheres devam ser escravas da beleza, e principalmente desses meios desumanos de conseguir ela, mas também não acho que os homens devam ser desleixados, acho que tudo fica bom no meio termo. As mulheres deviam se desligar um pouco da vaidade e da competição e os homens entrarem um pouco nela.
Uma das coisas que mais me intrigam na vida são essas meninas que conseguem estar o tempo todo impecáveis, depois da descrição detalhada que dei abaixo dá pra perceber que não é fácil estar sempre impecável.

E a roupa? (6)

E você acha que acabou? Nããããããooo, ainda falta escolher a roupa que tem que casar perfeitamente com a ocasião para não parecer nem um pavão e nem uma ameba perto das outras mulheres. È lenda essa história que as mulheres se vestem para outras mulheres, nós nos vestimos para os homens, só que temos concorrência (e que concorrência) então se não nos preocuparmos em superar ou pelo menos igualar a produção das mulheres que irão estar presentes, adeus sucesso, a sensação é que ninguém percebe a nossa presença, e não há mulher nesse mundo que não goste de ser notada...

E os cabelos?(5)

Tudo começa na meticulosa escolha do creme e do shampoo, horas no supermercado analisando preços, quantidades e qualidades, sempre que vou ao supermercado há uma pobre mulher debruçada sobre a prateleira analisando qual a melhor opção, hoje há opções para cada tipo de cabelo com preços diferentes e apelos publicitários cada vez mais convincentes, só nós sabemos o que a escolha de um creme sem enxágüe errado pode acarretar. Chegando em casa é hora de passar os 5 cremes e shampos na ordem correta e após o banho relaxante de 1h, mais 1h de escova, piastra e tudo mais o que temos direito, estica aqui, puxa ali, coloca aquele pra trás, e lá estamos nós parecendo a capa da Mary Claire. Lindas!

E as unhas? (4)

Malditos pedaços de cálcio que nascem nos nossos dedos, os quais nós pobres mulheres temos que ficar cultivando como um alter-ego. Depois de um bom tempo retirando a carne envolta, cortando (só o necessário, claro), lixando, e escolhendo a cor do esmalte que mais combina com o tom de cabelo, estamos lindas, mas só por uns quatro dias que é o tempo em que o esmalte começa a descascar e a cutícula a nascer, aí é hora de fazer tudo de novo...

E a depilação? (3)

Quem já se depilou sabe do que eu estou falando, nada mais torturante do que depilar a virilha, esses malditos pelos que insistem em nascer ao redor da tão cobiçada vagina. Nada mais humilhante do que ter os pelos do cú retirados por uma estranha, se você nunca passou por isso, parabéns. Sem contar os pelos do resto do corpo, principalmente os da axila, eu gostaria profundamente que os pelos da minha axila demorassem mais para crescer, quem nunca trocou a camiseta de alcinha em um calor esfuziaste por uma blusa de manga por não estar com a depilação em dia? Em quanto isso, os homens ostentam um leque-peludo-nojento quando levantam o braço como se fosse o equivalente da masculinidade deles.

Sonho de uma noite de verão (2)

Como vocês podem perceber estamos em uma época de festas, e principalmente formaturas, perto do Cine Teatro Central observei várias pessoas muito bem vestidas, e dentre elas uma menina com um lindo vestido vermelho e um sapato gigantesco com strass, trazendo a tiracolo um garoto magrinho trajando uma blusa de malha e um jeans. Ela não estava com uma cara boa, aí pensei ‘Ela esta brava porque ele não está tão bem vestido quando ela’ e por um momento percebi como é injusto as regras sociais de estilo e beleza entre homens e mulheres.

Sonho de uma noite de verão (1)

Estava sozinha no meu quarto gigantesco quando de repente após uma crise de tédio me senti terrivelmente sozinha, e como toda pessoa sensata saí para comprar um cigarro (no varejo é claro, não compro maços pra não me sentir viciada). Saí pela rua na noite vazia de JF em férias, passando por uma série de lugares, arrastando minhas havaianas, fumando meus cigarros e ouvindo U2 me veio à mente uma série de questões relevantes...

4.29.2008

Diane Arbus, 1966


a young man with curlers at home on west 20th street, NY 1966

Mau gosto


Estava assistindo CSI Miami, que é uma cópia, e porque não dizer paródia, do CSI Las Vegas, quando me deparei com o personagem – chefe de investigação – mais sem credibilidade que eu já vi na vida. Além da falta de carisma e talento, falta-lhe bom senso ao pintar o cabelo.
Por que certos homens quando ficam velhos pintam o cabelo de louro acaju? Existe cor mais infame do que louro acaju? Onde está o bom senso dessa pessoa? Ou melhor, onde está a esposa dessa pessoa? Uma mulher jamais deixaria essa blasfêmia acontecer. Com exceção das tias que pintam o cabelo de vermelho intenso.
Já sei!!! As tias de cabelo vermelho intenso são esposas dos tios de cabelo louro acaju. Só uma pessoa de muito mau gosto conviveria com outra de mau gosto na mesma medida.
Eu fico imaginando os filhos...

PS.: ele pinta a sombrancelha também.

Madeira

Às vezes sinto nostalgia do tempo em que não vivi. Sinto falta do tempo que custava a passar, sinto falta da época em que se tinha tempo para pensar, planejar, e só depois executar.
Sinto falta das conversas bobas de portão, das famílias que em tempo de calor sentavam-se a porta para conversar com os vizinhos enquanto os pequenos brincavam.
Sinto falta do tempo em que não se matava de trabalhar pra comprar tecnologias fúteis. Sinto falta da época em que a tecnologia não atrapalhava nossas vidas, onde escrever cartas era um prazer normal. Onde rever um grande amigo demorava muito, e a emoção do reencontro era imensurável.
Sinto falta da época em que para não se estar só devíamos estar com a família, onde as famílias eram fundamentais na vida das pessoas.
Acredito e amo essa inocência que foi perdida com o aumento da capacidade de comunicação, e a diminuição da sua qualidade.
Amo esse mundo que cheirava a madeira.

A garota que ví hoje.

Há pessoas que me despertam um interesse visual quase incontrolável. Não estou falando de interesse sexual, e sim interesse visual.
Na maioria nem se trata de pessoas bonitas, daquelas que não se consegue tirar o olho. Não! São na maioria das vezes pessoas comuns, e até banais, mas dotadas de uma expressão, de uma plasticidade emocionante.
Hoje me deparei com um exemplar desse tipo de pessoa no supermercado. Era uma garota mais baixa que eu, de cabelos cor de malva, lisos, brilhantes e compridos, pele morena e sadia, nariz arredondado um pouco arrebitado na ponta e belos olhos grandes contornados por olheiras que lhe caiam incrivelmente bem.
Não desgrudei os olhos dela na fila do pão e a segui até o guichê, ela me parecia tão alva e melancólica, fiquei imaginando se ela sofria. Fiquei imaginando no que ela estaria pensando e defini que era na avó materna com quem ela vive desde que começou a faculdade. A família muito religiosa e conservadora não permitiu que ela morasse com suas amigas, ela sofreu em silêncio nos primeiros meses, mas depois acostumou-se com as manias da avó, e se calou.
Os cinco pães que escolheu displicentemente eram para ela e a avó, para o café da tarde e o desjejum da manhã. Ela pensava na vida que levava, na faculdade que estava cursando, as matérias que teria que estudar quando voltasse pra casa.... Ela se impressionava com a facilidade das teorias, nuca teve maiores problemas com o conteúdo da faculdade, pelo contrário, às vezes achava chato e enfadonho, pouco desafiador. Ela se lembrou do namorado que mora na cidade de sua família que viria no final de semana, pensava no quanto ele é importante pra ela, no quanto ele a ajudou, e que ela jamais teria coragem de se separar mesmo não o amando mais, mesmo achando que ele não a toca mais como antes, mesmo sentindo que ele transa como quem cumpre uma necessidade física. Mesmo assim ela não se via sem ele.
Segui a garota até a porta do supermercado e depois ela se foi. Deixando-me um aperto no coração.

4.26.2008

Elizabeth - A era de ouro



Filme impecável em Produção de Arte. As cores são de morrer! Vibrantes! Quentes! Vivas! O diretor é indiano o que me faz desconfiar que ele usou sua bagagem cultural.
Voltando ao filme... Eu destacaria o trabalho de iluminação. A luz narra quase tão incisivamente quanto o texto.

Há momentos em que a luz desce transversal ao plano, criando uma aura luminosa nos personagens, propondo uma outra interpretação a cena. Há momentos em que a luz é refletida no chão subindo difusamente, criando um ambiente límpido, sublime e etéreo.
Destaco uma cena em especial: a última, onde a luz representa à narrativa. A cena se passa em uma sala iluminada por uma grande janela, Elizabeth pega o filho de seu amante do colo e a luz bate nela de perfil por trás, uma menção nítida a virgem Maria, há um giro de câmera e a luz fica de frente para a atriz, a luz resplandece na tez clara de Kate Blanchett e ela se ilumina, comparando-se a uma divindade, sua personagem de mãe do povo se torna uma Deusa! Com certeza Elizabeth III vai ser a grande rainha em seu momento mais sublime. Estou aguardando...

A Pele


Filme que vai além das redundantes biografias que vemos por aí.
A Pele é uma fábula que conta uma parte da vida de Diane Arbus a qual não temos muitas informações, tentando traçar a transição de uma mãe de família para uma fotógrafa atenta ao seu tempo, sem hipocrisia e extremamente sensível.
Sua atração pelo freak amadurece no decorrer da trama, e ela descobre um meio de se expressar e botar o dedo na ferida de um EUA American Way of Life.
Nicole Kidman usa todo seu talento (o qual nem sempre vemos em seus filmes) para dar vida as expressões e principalmente aos olhos de Diane – e que olhos!
A protagonista abre a porta e um universo de experiências e aberrações, e entra com tudo nessa viagem, (que me lembra muito Aventuras de Alice no Pais das Maravilhas).
Aconselho a quem for ver o filme que se informe previamente a respeito do trabalho dessa incrível artista, e sua morte por suicídio anos mais tarde, assim a trama cria mais sentido. Perceba suas inquietações, e o universo obscuro e incrivelmente belo em que ela se aventura.
O filme apresenta uma bela Diane Arbus atormentada e nascendo.

4.02.2008

(...)

Infeliz da rafaela
Pobre garota de sonhos reprimidos
Sonhos condensados em desejos maltrapilhos
Pobre menina
Que sofre pelos amores perdidos
Sofre na mão do bandido
Pobre rafaela com tranças
Deitada
Enrolada
Miúda
Na cama
Pobre rafaela que chora
Sofre as dores do amor romântico
Sem nem mesmo acredita-lo
Sofre como quem sofre de um tédio doloroso
Sente dor no peito
Dor nas ancas
Pobre rafaela que se devora

3.31.2008

Ode a tristeza

Sou de essência melancólica. Respeito meus momentos de tristeza, dou a eles o tempo e a gravidade que necessitam, nada além. Saber respeitar os momentos de infelicidade é básico da existência, pois a vida é cíclica, angústia e mal-estar são condições humanas.
Mas a felicidade sempre volta...
Para algumas pessoas saber que serão um dia felizes é novo combustível para a vida, para outras saber que a tristeza vai voltar é saber viver.
Em um mundo altamente competitivo, estar triste pode ser interpretado como um sinal de fraqueza. Não ter o direito de estar triste, não ter o direito de expressar-se. Mundo cruel com as pessoas tristes.
Temos que vencer! Vencer a qualquer custo. Vencer o quê/ vencer quem? A realização na vida é um objetivo. Mas se lembrar que existe carne, existe vida, existe EU. Lembrar que existe matéria viva pulsando dentro de mim, dentro de todos. Matéria que é ignorada. Dar valor as circunstâncias, ao menor e invisível, ou ao menos importante. Sempre se lembrar que nada é perfeito, nada é eterno e essencial. Saber que quando se conquista algo grande vem junto uma carga de responsabilidades e deveres, e isso transforma esse bem em algo não tão bom assim. Existem pessoas que simplesmente não suportam isso. Lembrar que tudo é mutável, não se pode prever, e que nada é eterno, intocável, nem nós nem nossa felicidade. A tristeza é parte do todo, ela é natural e importante. É bela.

Billie Holiday



Billie Holiday tem um maravilhoso cheiro de mofo.

Mais uma das minhas lamentáveis poesias

Eu me perdi na minha mente, nos meus devaneios.

Falar sobre mim
Preciso me silenciar,
preciso me recolher,
me buscar,
me calar.
Saber respeitar o silencio,
o seu momento.
Saber se reintegrar se reconstruir,
se decodificar.
Me buscar em mim,
Quero me achar em mim.
Terrivel essa sensação de se perder

3.06.2008

Odeio Shopping

Estava a passear em um shopping da cidade, entretida entre vitrines e pessoas.
Sentei-me em um banco duro que combinava com a decoração austera e fiquei a observar: deixei meu olhar vaguear pelos transeuntes, vitrines e vendedoras. Percebi de relance que seria capaz de ficar ali por horas. Em um lampejo de consciência notei a engenhosidade dos Shoppings Centers.
Vamos analisar:
1. Não tem janelas, o mundo com seus problemas e barulhos fica do lado de fora, é um novo espaço que te acolhe e te desliga. Em certos ambientes isso fica tão evidente que é impossível não levar um susto, exemplo: lugares com ar condicionado (a experiência de estar em um lugar com ar condicionado e sair ou vice-versa é único).
2. O shopping é formado por lojas colocadas lado a lado, entre uma vitrine e outra não há espaço, não há pausa, somente apelo visual, que nos impede de pensar.
3. Lugar infestado de pessoas consumistas. Aquelas que fingem que você não existe, ou em um dia de bom humor te olham de cima a baixo te fazendo se sentir tão desajeitado quanto um boneco de Olinda
4. A musiquinha inebriante que irrita, mas a certo ponto passa a fazer parte do ambiente.
5. Você vai ao shopping com sua melhor roupa e lá chegando constata que está brega e mal vestido, pois sempre vai haver uma roupa na vitrine melhor que a sua.

Aí começa o mal estar...

Como se sentir bem em um shopping?

Ana de Amsterdam


Nunca quis trocar meu nome, sempre me orgulhei do Rafaela, feminino de Rafael, feminina.
Às vezes diminuído a Rafa, Rá, Fá, Faela... Sempre achei sonoro, um pouco romântico, às vezes doce às vezes amargo. Gritado não fica muito bom, o ‘A’ se estende muito, mas bem sussurrado ao ouvido soa como música.
Várias consoantes, repetição de vogais. E um ‘E’ no meio.
Conheço poucas Rafaelas, poucas famosas, as vezes acho que sou a única, a verdadeira Rafaela.
Belo nome Rafaela.
Mas essas certezas foram abaladas por uma música: Ana de Amsterdam do Chico Buarque. Agora o nome Rafaela não me cabe mais, descobri que sou Ana.

2.08.2008

Ouvindo

Segundos de atenção são necessários para quem quer aprender a escutar. O ouvido tem micro repartições em que o som só entra se você estiver treinado sua sensibilidade, sua capacidade de degustação sonora.

A baixo alguns itens me vem a mente no momento

1. Manter o bom humor a todo custo (o bom-humor meu, e não o dos outros)
2. Acreditar piamente na imortalidade da alma (por uma questão de conforto)
3. Lembrar de comprar lençol
4. A pena e a espada dominam o mundo, a vaselina supera as duas.
5. Nesse mundo não basta ser inteligente, mas eu não sei o que basta
6. Barbecure é bom
7. O lixo serve para muitas coisas
8. Ai, ai, ai carrapato não tem pai
9. OHHHHHHHHH
10. Ligia Clark cria uma relação intima entre ela e os objetos que a cercam.
11. A arte é um verbo, como o amor
12. Artista é alguém que age sobre um motivo, seja ela a beleza ou o nojo, a morte ou uma lata de sopa de tomate estragada
13. O relacionamento amoroso não pode se pautar pelo amor romântico

ouvindo Billie Holiday

Eu insisto em vinganças sem propósito, e sem sucesso. Vinganças que não me levarão a nada, a apenas me sentir feliz comigo por estar fazendo mal a mim mesma. Sou um Dom Quixote que luta contra moinhos de vento. Estapeio, chuto, giro em torno de mim mesma, e me estabaco no chão desajeitada.
Mole e trôpega me levanto e arqueio minha lança, não me dou por vencida. Retomo a luta com outro fôlego. Fico feliz por estar chovendo. E agora, molhada, procuro por mais um inimigo invisível, criado pela minha pobre cabeça abastada e sôfrega. Giro os calcanhares e vou-me embora. Sem saber ao certo onde quero chegar, mas com aquela incrível necessidade de ir. Não importa pra onde, há um castelo a ser conquistado. Desprezo o que há em mim.

9.30.2007

Rafaelinha

Entediava-me com as amigas do colégio, e tinha pouca paciência para as da rua. O que me entretinha eram os livros, passava horas a fio com a cabeça enfiada neles. Assim que chegava do colégio sossegava a fome e corria para a biblioteca. A biblioteca que me refiro, era a que ficava dentro da oficina/casa do tio Levy, homem alto, barbudo, moreno, passava-se perfeitamente por um terrorista iraquiano, morava em um quartinho imundo, minúsculo, com prateleiras enferrujadas, e abarrotadas de livros de todo tipo, desde os espíritas aos clássicos da literatura. Lá eu tive acesso ao mundo mágico das letras que me transportava a qualquer lugar. Eu lia livros sobre garotas da minha idade, vikins, história geral, geografia, romances, contos, em fim, não tinha limite à variedade e minha paixão por eles. A biblioteca do tio Levy tinha cheiro de coisa velha, misturado com os cheiros peculiares da sua relojoaria, sim, meu tio era relojoeiro, essa clássica profissão quase tão respeitável quanto os chaveiros, até hoje quando entro em uma oficina que cheira a coisa velha meu coração fica apertadinho de saudade. Era com certeza muito mais agradável ler em sua relojoaria do que brincar com as gêmeas, as Dadá.

9.05.2007

Seu Peixe



Meu peixe, o Zuiudo, se suicidou quando eu tinha 10 anos. Ele se jogou de onde morava (um pote de vidro) direto na minha gaveta de roupas. Foi chocante pra mim, quando em um gesto corriqueiro abri a gaveta para pegar uma muda de roupa e me deparei com o cadáver do peixe.
Imaginei-o pegando impulso, pulando pela boca do pote e caindo inevitavelmente na minha gaveta, que para tristeza da minha mãe, sempre estava aberta. Fiquei imaginando por quanto tempo ele ficou se debatendo em cima das minhas roupas, tentando desesperadamente sobreviver.
Durante muito tempo tive a certeza de que a sua morte foi culpa minha. Analisei a situação e percebi a sua monótona vida: morava em um pote de vidro, demasiado pequeno para ele, sem outros peixes para conviver, sem outros objetos para interagir. Não é de se estranhar que ele cometesse suicídio. Eu matei meu peixe de tédio!
Achava que por não ter proporcionado a ele uma vida mais confortável e feliz ele resolveu se matar, o pobre peixe vivia abandonado em cima da cômoda, com a mesma paisagem distorcida para olhar, o pouco espaço sufocante. E eu o alimentava inocentemente sem perceber o quanto ele sofria. Como somos mesquinhos com o sofrimento dos outros.
Hoje depois de crescida percebo que a morte do Zuiudo não foi minha culpa, por não estar em um aquário devidamente estruturado o coitado ficou sem ar, e não teve outra solução a não ser se aventurar fora do pote, e explorar esse mundo misterioso do ‘lado de fora’, infelizmente não teve sorte. Pobre Zuiudo, que Deus o tenha em bom lugar, pelo menos melhor do que o que eu o deixei.
Amém

Notícia

Hoje tive a lamentável noticia: de acordo coma igreja católica, o limbo não existe mais. Depois de uma breve confusão mental, eu me perguntei: então pra onde eu vou? Já que com meu pouco entendimento sobre essa cultura católica me dizia que o limbo era destinado aos não batizados. Sendo assim eu decidi fazer como o Raul Seixas: “já que o céu está cheio, eu vou levar um lero com o diabo, antes que o inferno fique cheio também”. Ou antes que a igreja resolva acabar com mais alguma coisa.
Sei lá, esse novo papa parece com o Hannibal, não dá pra confiar em um papa que parece com um psicopata ficcional.

Cinderela compulsiva desequilibrada.



Na Terra Encantada do Reino do Orkut moravam várias princesas, que não obstante se enchiam de roupas, e jóias, e poses, e caras, para parecerem mais bonitas na foto. Mostravam os lugares mais legais que estiveram como dote!!! Posavam às vezes todas juntas às vezes separadas, mas sempre na melhor pose. Tudo em busca do príncipe encantado, mas é difícil se livrar dos sapos!!!
No Reino Encantado do Orkut as pessoas são felizes e sorridentes, tem muitos amigos, e muito carinho... No Reino Encantado do Orkut as pessoas são importantes umas pras outras, se gostam, dão demonstrações públicas de carinho, escrevem grandes declarações de amor... Mas só no Reino Encantado do Orkut.
Lá tudo é azul cor do céu!! Lá você pode ser quem quiser!! Lá não tem tristeza nem choro, só um pouco de saudade às vezes, saudade que cura com umas poucas palavras!!! No Reino Encantado do Orkut todo mundo é amigo de todo mundo, sem preconceito, sem diferença de classes. Lá as pessoas conversam e se dão bem... Lá todo mundo é feliz.
Mas só na Terra Encantada do Reino do Orkut.